Estudante de universidade de SC descobre mais de 400 pistas de novos planetas e “destrava” estudo parado há 15 anos
30 Aug, 2026
Um projeto desenvolvido por estudantes de Santa Catarina criou uma nova forma de estudar a criação e evolução de sistemas planetários na Via Láctea. Conforme um artigo publicado na revista internacional Monthly Notices of the Royal Astronomical Society (MNRAS), ao menos 446 pistas de novos planetas no espaço foram localizados pelo grupo, formado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A pesquisa identificou 446 fontes candidatas a apresentar discos de detritos, estruturas formadas por poeira e pequenos corpos rochosos que permanecem ao redor de estrelas já formadas. Em outras palavras, esses discos são os restos que sobram depois que os planetas já se formaram. Quem assina como principal pesquisador é o estudante de Física, Pedro Esteves, de 21 anos. O trabalho é resultado de uma bolsa de Iniciação Científica e um estudo anterior do professor orientador e pós-doutor em física pela Pontifícia Universidad Católica do Chile (PUC-Chile), Roberto Saito, Além dos dois, o projeto tem cooperação da mestranda Diana Quispe, do Programa de Pós-Graduação em Física da UFSC (PPGFSC); o professor Bernardo Borges, da UFSC Araranguá; Vitor Fermiano,da Universidade de Valparaíso, no Chile; e Roberto Torres, do Instituto Federal Catarinense, em Concórdia. O trabalho também reúne pesquisadores do Observatório Astronômico de Córdoba e do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET), na Argentina; da Universidad Andrés Bello, da Universidad de Valparaíso e do Instituto Milênio de Astrofísica, no Chile; do Observatório do Vaticano; da Academia Chinesa de Ciências Astronômicas na América do Sul (CASSACA), na China; e do Observatório Europeu do Sul (ESO), na Alemanha. Discos de detritos são objetos de estudo há anos Segundo o professor, a ideia surgiu pela vez em 2011, quando conheceu a física Carolina Chavero, do Observatório Astronômico de Córdoba. Na época, Saito trabalhava no projeto VVV/VVVX, um levantamento público do ESO que monitora regiões internas da Via Láctea e estuda pontos inalcançáveis da nossa galáxia. “A ideia era juntar a especialidade dela, discos de detritos, com os dados do VVV. Só que o VVV ainda estava começando e não tínhamos em mãos os dados necessários. A ideia ficou quase 10 anos na gaveta, esperando os dados existirem”, comentou. A pesquisa tomou efeito de verdade apenas em 2024, quando Pedro entrou na faculdade e procurou Saito com interesse em estudar estrelas e planetas. Com isso, os dois passaram a coletar dados e entrar em contato com antigos colegas de Saito, que apoiaram e contribuíram com o estudo. O professor retornou para o VVV e mostrou a proposta para os cientistas: “Quando apresentei a pesquisa em um encontro do grupo no Chile, todo mundo quis contribuir, o tema despertou bastante interesse”. Mas por que o artigo chama tanta atenção? O estudo busca entender a formação de planetas, características de sistemas planetários e o que ocorre com os detritos deixados. Mas o maior diferencial da pesquisa é de que quase todas as buscas anteriores por discos de detritos evitaram a região da Via Láctea, algo que o grupo resolveu analisar a fundo. De acordo com Saito, é na Via Láctea que está a maior parte das estrelas da Galáxia, além da maior concentração de gás e poeira. Depois de analisar informações de 879.556 estrelas, o estudante encontrou 446 fontes com excesso de emissão de luz infravermelha, sendo que 356 dessas apresentaram sinais de variabilidade. Saito explica que os discos de detrito são gás e poeira que orbitam ao redor da estrela e, ao esquentarem, formam a essa luz e se unem, criando os planetas: “A graça é que essa poeira se denuncia sozinha: ela absorve a luz da estrela, esquenta e devolve essa energia em forma de calor, ou seja, luz infravermelha. Então uma estrela com disco de detritos brilha um pouco mais no infravermelho do que deveria. Foi esse ‘brilho a mais’ que o Pedro foi caçar, comparando quase 880 mil estrelas com modelos de como elas deveriam brilhar se não tivessem nada em volta”. Os pesquisadores ressaltam que a presença de excesso no infravermelho não é suficiente para confirmar a existência de um disco de detritos, já que outros fenômenos podem produzir sinais semelhantes. Por isso, o catálogo produzido pelo estudo deve ser entendido como uma lista de candidatas que precisam de observações complementares. Dados da Nasa também foram usados no estudo Além das pessoas que assinam o artigo publicado, também foram utilizados dados de estudos do ESO e do telescópio espacial Spitzer, da NASA. “A astronomia é uma ciência bastante internacional. Os dados são públicos ou circulam dentro da colaboração, e as discussões acontecem por e-mail e em reuniões on-line. É assim que um estudante de graduação em Florianópolis acaba trabalhando com dados de um telescópio no deserto do Atacama e discutindo os resultados com pesquisadores de quatro países”, afirmou. Para Pedro, uma das maiores dificuldades foi aprender a trabalhar com uma grande quantidade de dados, mas a pesquisa internacional também foi um empecilho no início: “O inglês foi uma dificuldade no início, principalmente nas reuniões e discussões, mas também acabou sendo uma grande oportunidade para praticar, melhorar e ganhar confiança na comunicação”. De acordo com a dupla, o artigo publicado na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society foi apenas o início. Eles analisaram apenas um único campo do VVV, de centenas já mapeados e que o número de detritos no espaço deve ser muito maior, trazendo pistas de que nosso sistema planetário pode não ser tão raro quanto imaginamos: “Muita coisa que foi sugerida não coube neste artigo e ficou para um segundo trabalho, que já está em andamento”, conta o professor Roberto Saito. Autores do Artigo - Pedro Esteves; - Roberto K Saito; - Carolina Chavero; - Vitor Fermiano; - Dante Minniti; - Bernardo W Borges; - Claudio Cáceres; - Zhen Guo; - Valentin D Ivanov; - Rudy G Kurtev; - Diana Quispe - R M Torres. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society Com a primeira edição em 1827, a MNRAS é uma das maiores e mais prestigiosas revistas voltadas para ciências astronômicas, do mundo. Ela trabalha com publicação de artigos e cartas acadêmicas, além de estudos científicos originais e inovadores. *Sob supervisão de Luana Amorim