Bug em software invalida questionamento sobre descobertas científicas
8 Sep, 2026
Com informações da FUB - 08/09/2026 Um pico oculto e um bug de software Um artigo de capa da revista Nature, publicado em 2023 e amplamente citado pelos cientistas e pela mídia, defende que a inovação científica teria declinado significativamente nas últimas décadas. Essa conclusão baseou-se em uma análise de citações de grandes conjuntos de metadados referentes a artigos científicos e patentes. Mas logo pesquisadores das universidades Livre de Bruxelas e da Católica de Lovaina, ambas na Bélgica, descobriram que aquele pretenso efeito foi gerado por dados de referência incompletos, falhas que se mostraram responsáveis pela maior parte da suposta queda na inovação científica descrita no famoso artigo. "Logo após a publicação, tentei reproduzir o estudo usando dados abertos," contou o pesquisador Vincent Holst. "Descobri um grande pico de artigos com a pontuação máxima de inovação. Isso era estranho, já que os histogramas publicados na Nature não mostravam tal pico." A equipe belga rastreou essa discrepância, chegando em um bug do software de visualização dos dados: A versão da biblioteca de plotagem utilizada pelos autores originais continha um erro. Devido a esse erro de software, os maiores pontos de dados foram omitidos do histograma publicado sem qualquer aviso. Embora invisíveis nos gráficos, os dados subjacentes permaneceram incluídos na análise principal por trás da tão divulgada manchete. "Se os artigos com pontuação máxima fossem realmente inovadores, a conclusão ainda seria válida," afirma o professor Vincent Ginis, que liderou a reanálise da questão. "Mas descobrimos que eles correspondem principalmente a artefatos do conjunto de dados. Quando as referências de uma publicação não estão listadas no banco de dados, o método usado pelos autores [originais] rotula erroneamente essa publicação como maximamente disruptiva." Registros de bancos de dados mais antigos têm maior probabilidade de apresentar dados de referência incompletos. À medida que a qualidade dos registros dos bancos de dados melhorou ao longo do tempo, essas pontuações máximas falsas tornaram-se menos comuns. Isso criou a aparência de que as descobertas científicas revolucionárias estavam diminuindo. As curvas de declínio essencialmente refletem como a qualidade dos metadados aumentou ao longo do tempo, concluem os autores da reanálise. "Quando filtramos os erros do banco de dados, o declínio praticamente desaparece," diz Holst. "Isso se aplica a todos os bancos de dados científicos que examinamos. No maior conjunto de dados do estudo, os artefatos representam 93% do declínio relatado entre 1945 e 2010." A dificuldade de corrigir o erro A afirmação original de que a ciência estaria se tornando menos disruptiva apareceu em mais de 300 notícias no mundo todo. Desfazer o engano, contudo, não foi fácil: Os pesquisadores belgas submeteram sua crítica à Nature em outubro de 2023, mas a revista levou 32 meses para aceitá-la para publicação. E, enquanto a crítica estava em análise, a Nature ainda publicou um editorial e uma reportagem especial baseados na conclusão original incorreta. Durante esses anos, o artigo original foi citado mais de 1.000 vezes por outros artigos científicos e usado em pelo menos 16 documentos de políticas públicas ao redor do mundo. "Enquanto o bug de software foi corrigido pela comunidade de código aberto em meses, a correção científica levou anos para ser publicada," testemunha Ginis. "E, durante todo esse tempo, as políticas da revista nos proibiram de falar com a imprensa enquanto nossa crítica estava em análise." Outros pesquisadores da área sugeriram restringir a análise a artigos com pelo menos 10 referências e citações. Seguindo essa diretriz, a equipe belga encontrou na verdade, um leve aumento, estatisticamente significativo, no caráter disruptivo da ciência. "Com base na métrica utilizada, nós simplesmente não podemos fazer afirmações conclusivas sobre se a ciência está se tornando mais ou menos disruptiva," disse Ginis. "No entanto, foi demonstrado que a metodologia e as conclusões de 2023 não fornecem uma base sólida para políticas científicas."