Marina Sena no Rock In Rio: tudo que uma mulher faz é sobre um homem?
14 Sep, 2026
Juliano Floss e Marina Sena. Foto: Reprodução Uma artista faz uma performance no palco de um dos maiores festivais de música do mundo e tudo que a grande mídia e o público – sobretudo o público – têm a dizer é que se trata de uma indireta pro ex. Marina Sena rasgou um boneco e arrancou-lhe as “tripas” no palco, durante uma música que muitos acreditam ter sido inspirada no ex, Juliano Floss. A conta não bate: o álbum foi lançado antes do término, e provavelmente produzido muito antes disso. Dos dois, um: ou o público não sabe contar ou realmente considera que tudo o que uma mulher faz, inclusive artisticamente, tem a ver com seus relacionamentos românticos. É simplório pensar que cada música fala a verdade sobre a vida de seu compositor: é como se um artista não pudesse criar nada além do que diz respeito a si mesma e a sua vida íntima. Marina, aliás, já apareceu em muitas manchetes sendo elogiada por “provar que é artista.” E artista por acaso precisa provar que é artista? Em se tratando de uma mulher jovem, de origem pobre lá de Taiobeiras – e com muito orgulho, como ela mesma já disse em um single homômimo feito para sua terra de origem – parece que sim. Eu ousaria dizer, inclusive enquanto crítica cultural, que Marina Sena será lembrada pelos artistas das próximas gerações como um nome importante da nova MPB. Mas o público prefere aprisioná-la na caixinha das polêmicas. Mulheres são frequentemente reduzidas aos seus relacionamentos românticos, e no caso dela há um agravante: a cantora, que já afirmou não querer casar e ter filhos (e isso é crime?), performa desde sempre uma persona livre, uma mulher que assume o próprio lugar e sempre volta pra si mesma. Não se pode admitir que uma mulher seja livre sem enquadrá-la no lugar da mulher abandonada e sofrida, que manda indireta pro ex no palco. MEU DEUS ACABOU PRO JULIANO FLOSS Marina Sena levou um boneco pro Rock in Rio, cantou abraçada nele e depois simplesmente abriu o coitado e arrancou as tripas. Sei que é performance, sei que nem tudo gira em torno do ex dela. Mas fui abrir os comentários e já tinha bruxa... pic.twitter.com/VQr0UNzPr9 — Namastreta (@descobrisada) September 14, 2026 Ela pode ter querido dizer muito mais ao estraçalhar o tal boneco, mas quem se importa? Ninguém está prestando atenção porque é mais fácil achar que tudo que uma mulher faz é pra chamar a atenção de um homem. Essa premissa não é apenas estúpida: é machista. Uma mulher não precisa estar sempre se referindo a um homem, nem na sua arte, nem na sua vida, e supor isso é presumir que mulheres não têm um discurso independente dos homens, sobretudo daqueles com quem se relacionam. Você provavelmente já ouviu falar sobre o teste de Bechdel, uma ferramenta criada pela cartunista americana Alison Bechdel, a partir de uma tirinha de 1985, para observar a presença e a autonomia de personagens femininas sobretudo no cinema. Ela propõe três perguntas simples: há pelo menos duas mulheres identificáveis pelo nome? Elas conversam entre si? A conversa tem outro tema que não seja um homem? Você deve imaginar o resultado: pouquíssimas produções de Hollywood passam no teste, e mesmo fora dela mulheres são retratadas sem autonomia, sempre ligadas a um homem. Talvez ainda seja cedo para que alguns já tenham percebido, mas Marina Sena é mais do que isso, assim como outras artistas que ocupam espaço na cena nacional. Na ficção, não estamos acostumados a ver mulheres como Marina, que compõem para além de si mesmas e não usam o próprio trabalho pra darem a conhecer ao público sobre suas vidas íntimas. Não é de se espantar que uma mulher como Marina Sena não seja compreendida. As letras, a estética, a música, a performance, o boneco: nada disso reduz uma mulher a uma polêmica com um ex qualquer. Mas é mais fácil reduzí-las do que admitir que estão simplesmente fazendo um trabalho foda.