Trump e China defendem avanço da IA enquanto CEOs americanos discutem limites e segurança

admin
16 Sep, 2026
Trump e China defendem avanço da IA enquanto CEOs americanos discutem limites e segurança A discussão sobre o crescimento, ou os limites, do desenvolvimento da inteligência artificial (IA) ganha, a cada dia, novas camadas. Os debates colocam em primeiro plano os CEOs das empresas que estão construindo os sistemas mais poderosos do mundo, alguns dos quais já defendem frear o ritmo dessa corrida. No contraponto, Donald Trump diz que o medo da IA é uma farsa. O governo chinês também tem interesse em impedir que essa discussão seja usada para criar barreiras que prejudiquem sua corrida tecnológica. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles Diante das preocupações com a segurança da IA e apelos para um maior controle desta tecnologia, três grandes empresas do setor - OpenAI, Anthropic e Google DeepMind - anunciaram na terça-feira (15) que trabalham na criação de um órgão de autorregulação. No entanto, a iniciativa esbarra na visão de dois dos maiores governos do mundo: Estados Unidos e China. Na última segunda-feira (14), durante o All-In Summit, em Los Angeles, Trump proporcionou uma cena inusitada mesmo não estando presente fisicamente no evento. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, estava no palco justamente discutindo o futuro da inteligência artificial quando recebeu uma ligação - que disseram que foi inesperada - do presidente americano. Huang colocou o republicano em viva-voz, diante de centenas de pessoas, e o presidente chamou de "hoax" - uma farsa - os temores de que os "robôs vão assumir o controle" no mundo e defendeu que os Estados Unidos continuem acelerando o desenvolvimento da IA. Trump chegou a dizer que quem estiver à frente da corrida da inteligência artificial vai vencer uma disputa estratégica global e chamou os data centers de "o petróleo dos próximos 20 ou 25 anos". Para Trump, a IA não é apenas uma questão tecnológica: é a moeda de poder econômico e geopolítico. É bom lembrar que quem recebeu a ligação e colocou o telefone no microfone nessa ligação "inesperada" foi o diretor-geral da Nvidia, atualmente a empresa de capital aberto mais valiosa do mundo, com valor de mercado acima de US$ 5 trilhões. Em quatro anos, a Nvidia, que fabrica chips que são a infraestrutura fundamental que alimenta os grandes modelos de IA generativa, multiplicou mais de dez vezes seu valor de mercado, impulsionada pela corrida da inteligência artificial e talvez seja a empresa mais diretamente beneficiada por essa explosão do setor. Quanto mais rápido as empresas de IA avançam, maior é a demanda por chips e data centers. Desacelerar ou não, eis a questão Esse episódio aconteceu no momento em que nomes como Sam Altman, CEO da OpenAI, e Dario Amodei, CEO da Anthropic, pediem mais cautela e regras de segurança no desenvolvimento da IA. É, praticamente, uma demonstração pública de que Trump está escolhendo um lado na guerra que começou dentro do próprio Vale do Silício e que questiona: acelerar a IA ou desacelerar a corrida o suficiente para a segurança acompanhar. Foi esse o contexto do artigo publicado por Dario Amodei no último final de semana, no qual o argumento central é que a IA está avançando tão rapidamente que os mecanismos de segurança podem não conseguir acompanhar. E o interessante é que ele é o CEO de uma das principais empresas de IA do mundo, a criadora do Claude. Sam Altman, da OpenAI, escreveu que concorda que é preciso desacelerar o avanço da fronteira da IA e disse que sua companhia também adotaria a ideia de avaliadores independentes. Elon Musk, dono da empresa de inteligência artificial xAI, responsável pelo Grok, também apoiou o alerta. Em uma publicação no X, respondeu ao texto de Amodei com apenas três palavras: "Dario está certo". Alertas Na semana passada, Jacob Coxon, pesquisador da Anthropic, revelou ter deixado o emprego e publicou alertas sobre os riscos da tecnologia. O matemático britânico não desencadeou uma crise, mas ajudou a transformar uma preocupação que já existia dentro das empresas em uma discussão pública muito maior. Jacob disse que o temor não é que a IA tenha desenvolvido consciência, mas que esteja encontrando soluções que seus criadores não conseguem prever. Em julho, num teste da OpenAI, agentes de IA conseguiram se comunicar entre si e acessar sistemas da Hugging Face. O episódio acendeu o alerta sobre esse grau de autonomia que esses sistemas já estão alcançando, e Jacob citou, inclusive, esse evento. A partir daí, especialistas estão falando de aberturas para agentes de IA capazes de operar com autonomia, ataques cibernéticos, uso militar e desinformação. O americano Dan Selsam, pesquisador da OpenAI, publicou nesta segunda-feira (14) outro alerta e afirma que apenas desacelerar o desenvolvimento dos modelos mais avançados não é suficiente para evitar "o apocalipse da IA", como o fenômeno já está sendo chamado, e defende mais supervisão e coordenação para lidar com sistemas cada vez mais poderosos e difíceis de controlar. É interessante frisar também que todas essas falas respingam no mercado financeiro. Na última semana, as ações da Nvidia recuaram cerca de 6%, e os analistas já relacionam a queda à crescente preocupação dos investidores com os riscos e o ritmo do desenvolvimento da inteligência artificial. Sem previsão de leis No Congresso dos Estados Unidos, a pressão está crescendo, mas ainda não há acordo. Senadores dos dois partidos negociam propostas para obrigar as empresas a prevenir riscos graves e permitir que o governo bloqueie modelos considerados perigosos. O senador da oposição Bernie Sanders e o deputado Greg Casar querem ir muito além: eles lançaram o Ban Artificial Superintelligence Act, que propõe proibir a chamada superinteligência artificial e pausar temporariamente o desenvolvimento dos sistemas mais avançados, até que existam regras de segurança. Mas é difícil prever que seja aprovado em um horizonte próximo. Do outro lado do mundo A China reagiu acusando os CEOs das gigantes de tecnologia de espalhar medo. Pequim também rejeita a ideia de desacelerar o desenvolvimento da IA e afirma que esse confronto pode atrapalhar a criação de regras globais. No fim, Washington e Pequim, apesar de estarem em lados opostos em praticamente toda essa disputa tecnológica, convergem em um ponto: nenhum dos dois quer abrir mão da velocidade do desenvolvimento da inteligência artificial. E é justamente aí que ganha força a frase de Trump, que resume a dimensão geopolítica dessa corrida: "Quem vencer a IA vence".