Entre a IA e o cidadão
17 Sep, 2026
Quanto mais a inteligência artificial amplia nossa capacidade de produzir, analisar dados e falar com milhões de pessoas, maior deveria ser nossa preocupação em não transformar indivíduos em padrões. Na comunicação pública, essa questão ganha uma dimensão particular, porque não estamos falando apenas com consumidores ou audiências, mas com cidadãos que dependem de informações para acessar serviços, compreender direitos, tomar decisões e se relacionar com instituições. Por trás de cada dado existe alguém com uma necessidade concreta, seja a mãe que procura uma vaga em uma creche, o trabalhador que depende do transporte público, o jovem em busca de uma oportunidade ou o idoso que precisa compreender como acessar um serviço de saúde. Falar com uma população tão diversa exige considerar diferenças sociais, regionais, culturais e geracionais e entender que uma mesma informação pode ser recebida de maneiras distintas. Essa talvez seja uma das fronteiras mais delicadas do uso da inteligência artificial na comunicação. Algoritmos conseguem cruzar informações e apontar comportamentos, mas aquilo que aparece com maior frequência nos dados não necessariamente traduz a diversidade de uma população. Uma campanha pode trazer uma imagem tecnicamente perfeita e não representar ninguém de verdade, assim como um texto pode cumprir todos os requisitos de clareza e permanecer distante de quem precisa daquela informação, porque a identificação também nasce do território, da idade, da linguagem e das diferentes maneiras pelas quais as pessoas utilizam um serviço público. Nas agências, seria um contrassenso abrir mão das possibilidades oferecidas pela inteligência artificial, que já nos permite testar caminhos criativos, identificar comportamentos e acelerar etapas de produção. Talvez tenhamos dedicado tanta energia a aprender como fazer boas perguntas às máquinas que chegou a hora de melhorar também as perguntas que fazemos às pessoas. Precisamos saber o que o cidadão não compreendeu, quais dificuldades encontra para acessar um serviço e quais grupos permanecem distantes da comunicação institucional, porque dados não substituem a realidade de quem receberá aquela mensagem. A inteligência artificial e a sensibilidade humana podem caminhar juntas, desde que cada uma cumpra seu papel. Na comunicação pública, inovação também significa saber usar a tecnologia para compreender melhor quem está do outro lado e construir mensagens que façam sentido para diferentes realidades. Larissa Ferrari é co-CEO da Octopus, agência de publicidade e propaganda com quase cinco décadas de atuação e operações em São Paulo, Distrito Federal, Paraná e Minas Gerais. Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.