É inaceitável que trabalhador fique sem 2 dias de descanso na era da IA, diz dono da Multilaser
27 Sep, 2026
São Paulo Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho de administração da gigante brasileira de eletrônicos Multilaser, é uma voz dissonante entre empresários de porte semelhante quando o questionam sobre o fim da escala 6x1. "É inaceitável que, no mundo da inteligência artificial e, em breve, da robótica, uma parte relevante da força de trabalho fique sem dois dias de descanso", diz. Ostrowiecki não prevê uma onda de corte de empregos ou grandes repasses para o consumidor no preço dos produtos. "Talvez eu surpreenda alguns. Sou empresário e defendo o fim da escala 6x1, para que todo trabalhador tenha dois dias de descanso por semana. Existe, sim, um custo econômico na mudança, e parte dele pode chegar ao preço. Mas não acredito em demissões em massa. Toda redução de jornada da história provocou o mesmo alarme, e a economia se adaptou. É um custo que vale a pena pagar pela enorme melhoria na qualidade de vida do trabalhador", diz. Ele argumenta que esse custo é "pequeno perto do que realmente encarece o produto brasileiro", listando como culpados o custo Brasil (termo para definir conjunto de dificuldades que tornam produzir no país mais caro), a burocracia, os impostos altos sobre o consumo e os juros estratosféricos. "Quem se preocupa com a competitividade do país deveria começar cortando os privilégios do Estado, não o descanso do trabalhador", afirma. O empresário há cerca de 15 anos ajudou a fundar o Ranking dos Políticos, site de orientação liberal que lista perfis de congressistas. Ostrowiecki é conhecido por expressar preocupação com o equilíbrio das contas públicas, mas não gosta de ser visto como um porta-voz do empresariado. Instado pela reportagem a relatar o que espera do governo para resolver essa questão a partir de 2027, ele diz que espera coragem do presidente para atacar a raiz do problema, que está no crescimento automático e obrigatório do gasto público. "Falo apenas por mim mesmo. O Estado brasileiro é o único agente da economia que nunca faz dieta. Quando falta dinheiro, ele aumenta a conta dos outros. Sem reforma estrutural, que passe por reforma administrativa, desvinculação de despesas e revisão de privilégios, a começar pelos supersalários e penduricalhos, nenhum arcabouço fiscal para em pé, e o juro continuará envenenando a economia. O próximo governo, seja qual for, terá essa escolha: ajustar o Estado ou sacrificar quem trabalha e produz mais uma vez", diz. Sobre a escalada de recuperações judiciais e extrajudiciais no país, ele avalia que o risco de crédito hoje é maior do que os modelos capturavam, e que o patamar de juros tão alto por tanto tempo não estava no manual de ninguém. Com um grande portfólio de produtos, que variam de equipamentos eletrônicos, acessórios de informática e eletroportáteis, até itens de beleza e mobilidade elétrica, a Multi está entre os grandes fornecedores da Casas Bahia, que pediu recuperação judicial no mês passado. O empresário lamenta a situação da varejista e avalia o impacto efetivo como moderado. "Ficamos tristes e preocupados com a notícia da recuperação judicial e torcemos pela recuperação da empresa e pelos milhares de empregos que ela sustenta. O impacto nos nossos números é moderado, cerca de R$ 31 milhões provisionados, pouco mais de 2% da nossa carteira de recebíveis, conforme divulgado em fato relevante. Isso porque na maior parte das nossas vendas trabalhamos com seguro de crédito", diz. LEIA TAMBÉM Ele também mostra preocupação com o futuro do consumidor, que diz ver "no limite", enquanto os dados da CNC (Confederação Nacional do Comércio) indicam o percentual de famílias brasileiras com dívidas a vencer no patamar recorde de 82% e a Serasa aponta quase 84 milhões de negativados em agosto, maior nível de inadimplentes da série histórica. Segundo Ostrowiecki, a reação da empresa tem sido de disciplina, com seguro de crédito nas vendas, gestão rigorosa de recebíveis, diversificação de canais e um portfólio com produtos acessíveis, que podem caber no bolso mesmo em tempos de crise. "Mas não existe engenharia comercial que compense juro de agiota por muito tempo", diz. O empresário é um forte crítico da lei que eliminou o imposto de importação de encomendas de até US$ 50, conhecida como taxa das blusinhas, sancionada por Lula neste mês. "Suponha que você precise comprar um pacote de cuecas, e tem duas fábricas que podem te fornecer, uma no Ceará, que paga cerca de 30% do preço em impostos federais ao longo da cadeia e outra em Shenzhen, na China, que agora entra no Brasil com zero de imposto federal. Nem vou falar de custo Brasil, burocracia, multas, nem do juro da indústria daqui, de 15%, contra cerca de 3% na China. Só de imposto. Se um paga quase um terço do preço em tributo federal e o outro entra zerado, não há possibilidade de a empresa brasileira sobreviver nessa faixa de produto", diz. Ele diz que a crítica não é feita ao consumidor endividado, que busca o mais barato. "Eu critico a política pública. Ou o imposto é baixo para todos por igual ou é alto para todos. Até hoje não apareceu ninguém com um bom argumento para cobrar mais imposto da fábrica brasileira do que da chinesa", diz. Para ele, a previsão é que a maior parte da produção e do comércio varejista se deslocará para a venda direta a partir da Ásia, e que os empregos correspondentes serão destruídos. "A própria lei reconhece esse risco e obriga o governo a medir, a cada seis meses, o efeito sobre emprego, indústria e arrecadação. Vamos cobrar esses relatórios. O que as empresas podem fazer? Migrar produção e estrutura de venda para o comércio cross border [marketplaces estrangeiros]. Ou seja, gerar mais empregos em fábricas e centros de distribuição na China, e menos no Brasil", diz. Com fábrica em Manaus, Ostrowiecki defende que o Brasil fique mais parecido com a Zona Franca. "A Zona Franca de Manaus prova uma coisa simples: quando o imposto é razoável, a indústria brasileira compete com qualquer uma do mundo. Redução de imposto não é o governo dando dinheiro para ninguém, é simplesmente deixar de cobrar a facada cheia. Não defendo privilégio para Manaus e sim redução geral nos tributos sobre o consumo", diz.