Como será a vida quando a internet prescindir de dispositivos?
3 Oct, 2026
Como será a vida quando a internet prescindir de dispositivos? Resumo Quando trabalhei no Google, logo no começo, vi uma declaração de Larry Page, um dos fundadores da empresa, a respeito do crescimento dos smartphones. Era o auge do entusiasmo com a internet móvel. Ele dizia acreditar que a tecnologia ideal para usar a internet seria a que faria isso por você sem que você precisasse demandar. Os serviços digitais deveriam saber o que cada pessoa precisa de forma antecipada e entregar no momento certo. Por isso, acreditava que o computador e mesmo o telefone eram obstáculos (ou fricções) no processo de uso e consumo. Isso foi antes dos milhares de dispositivos inteligentes que surgiram depois da popularização da inteligência artificial generativa. De lá para cá, a forma de usar a internet deixou de acontecer exclusivamente por meio de teclados e telas e passou a acontecer por meio da colonização de objetos que as pessoas já usavam e que passaram a ter algum recurso conectado. As barreiras de adoção são menores quando a mudança acontece gradualmente e nas coisas que já temos por hábito usar: relógios, TVs, caixas de música, óculos, joias, escovas de dentes, geladeiras? a lista é tão grande quanto desnecessária e segue sendo atualizada. Agora, além de acessar a internet, eles também vêm abastecidos com algum recurso de IA. Começaremos a ver dispositivos pessoais exclusivamente criados como agentes de IA. Há alguns meses, a OpenAI (dona do ChatGPT) anunciou que está trabalhando em um aparelho próprio, mas deixou em segredo o que seria. O Google, desde que lançou o Gemini, colocou sua IA em qualquer serviço que lança e em tudo o que fabrica. A Apple, a seu modo, vem tentando integrar IA no iPhone. Mas foi a Meta (dona do Instagram, Facebook, WhatsApp e quase da nossa vida toda) que na última semana deu um passo a ser observado. Ao anunciar um novo agente pessoal de IA chamado Muse, a empresa também lançou o Muse Charm, um aparelhinho em formato de chaveiro com tela. Parece um tamagotchi com IA e rosto de Labubu, mas o que ele pretende é materializar — e personificar — a ideia dos agentes pessoais de inteligência artificial. Os usuários poderão acessar e usar o Muse de diversas maneiras, mas ter um dispositivo dedicado é um dos caminhos para a empresa tentar diminuir a dependência dos sistemas operacionais de concorrentes (especialmente iOS e Android) para distribuição. Além disso, o formato e a fofura do personagem tentam diminuir as barreiras do público mais jovem para a adoção dos agentes pessoais, um tipo de serviço que, tanto quanto pode ser útil, também é assustadoramente invasivo. Você poderá ter um mini assistente no bolso para carregar por aí e te servir a qualquer momento. Se isso vai ganhar público, não se sabe, mas o ponto é que agora, além da ideia de conectar os objetos que já usamos no dia a dia, há intenção de desenvolver novos aparelhos que se tornem desejáveis para consumo. De certa forma, gostamos de ter coisinhas nas mãos para manusear e materializar a experiência digital que ainda nos parece misteriosa. Essa proliferação de mais e mais "objetos conectados" nos cercando não contraria a visão de Larry Page. Acredito que seja justamente a conexão de todas as coisas que vai permitir, em pouco tempo, que passemos a prescindir deles para estarmos ligados à internet porque, afinal, quase tudo estará conectado. Será o fim dos obstáculos — tanto físicos quanto de aprendizagem — quando uma inteligência artificial pessoal se tornar uma assistente que antecipa nossas necessidades e atua proativamente na execução de tarefas que gostaríamos de não precisar fazer. Ainda usamos esses serviços através de interfaces (seja um site, seja um objeto), mas, como previu meu antigo chefe, isso pode estar perto de se tornar uma opção e não uma condição para seu uso. Veja bem, eu não gosto muito dessa ideia. É importante dizer isso antes que a comunidade de pais da escola Waldorf me queime em uma fogueira na festa das lanternas. Mas eu sou um velho cujas manias estão arraigadas em papel, bonecos Playmobil, cheiro de sabonete Phebo e traumas de quatro décadas atrás. E, se cabe a esta coluna algum tipo de função, é a de ser um espaço para que sejam feitas questões acerca de como a tecnologia afeta nosso comportamento e cultura. E uma pergunta que tenho me feito com frequência é: como será nossa sociedade quando a internet se tornar algo tão onipresente e transparente quanto a energia elétrica ou o saneamento básico e estiver em nossas rotinas de forma que já nem percebamos a dependência (quase) existencial que temos? O apagar e acender de luzes em casa, espetar o cabo do aspirador de pó na tomada, abrir uma torneira, dar a descarga? serviços essenciais ao cotidiano para boa parte das pessoas foram incorporados no último século de tal modo que já se misturam ao nosso estilo de vida e chegam a definir um tanto da identidade da nossa sociedade. Em muito pouco tempo, a interconexão no ambiente digital entre nossas intenções e necessidades estará entremeada no modo como vivemos e afetará a maneira como nos comunicamos, nos relacionamos, consumimos, nos movemos e fazemos escolhas. Com o agravante de que essa camada invisível continuará sendo habitada (e controlada) por empresas e agentes com interesses comerciais, de vigilância e intenções que nem sempre estão ali para servir aos nossos interesses. Não sabemos ainda as consequências, mas há um efeito rebote quando as tecnologias que desenvolvemos se enraízam de tal modo em nossa cultura que passam a influenciar nossa visão de mundo. A criação molda o criador. Eu posso murmurar rabugices em uma roda de nostalgia regada a discos de vinil, mas essa internet onipresente parece uma direção inevitável à medida que o acesso ao que é digital transborda para o espaço originalmente analógico. O que se pode fazer, ainda, é ajustar a rota para que o caminho seja trilhado em vias mais seguras e que promovam o bem comum, para que, assim como outros serviços, ela se torne direito e não privilégio. Para tanto, governos e autoridades precisam se debruçar para aprender e legislar a respeito desses temas com alguma coerência, propriedade técnica e em diálogo com a sociedade e com os laboratórios à frente dessas pesquisas. Não é o que está acontecendo, infelizmente. Se isso será feito, por quem, quando e de que jeito é um outro conjunto de perguntas que precisam continuar a ser feitas. Minha filha tem um tamagotchi. É daqueles antigos, que voltaram à moda recentemente e, volta e meia, apitava com fome, sede ou alguma necessidade que ela precisava correr para atender. Começou a irritar a casa toda e foi esquecido depois de um tempo. Hoje cedo, fuçando na pequena cesta sobre a estante da sala onde deixamos as chaves de casa e outras tranqueiras, vi o brinquedo azul e amarelo jogado ali no meio. Lembrei do Muse Charm e peguei-o para ver se ele podia ser hackeado e programado com algum agente de IA para responder meus emails atrasados, mas ele não tinha mais vida. Morreu de fome há alguns meses e precisa de baterias novas para ressuscitar. Tenho as baterias para isso, mas resolvi não colocar. O falecido tamagotchi está pendurado num suporte à minha frente como lembrete público de quem, afinal, está no controle por aqui. Por enquanto. (Se quiser continuar a conversa, me escreva. Estou no Instagram e no Substack). [refs] Essa semana, li sobre pontuação na era dos robôs, li sobre não conseguir ler e, às vésperas de mais uma prova, li mais sobre tênis e corrida de rua do que o limite do razoável. Assistimos The Pitt e aquele pronto-socorro agora virou a novela das nove aqui em casa (e esse texto deixa tudo ainda mais legal). Li sobre a escrita literária com IA sendo feita com IA e, depois de ler esse texto, criei uma rotina para revelar as fotos da família e voltarmos aos velhos tempos de álbuns impressos. Escutei sobre o "Choque da China 2.0", comprei livros sobre a China por causa disso e, por mania, passei a acessar diariamente o Global Times. Escutei também, repetidas vezes, Keith Jarret no álbum The Koln Concert que é a coisa mais linda e embala essa coluna. No final de semana vamos para o interior e reinstalei o app do Night Sky para tentar caçar planetas e constelações com minha filha. Temos que olhar para o céu. Até! Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.