Tecnologia ajuda idosos e pessoas com deficiência a recuperar autonomia

admin
4 Oct, 2026
Resumo Novas tecnologias têm ajudado pessoas idosas e com deficiência a recuperar ou ampliar a autonomia em atividades do dia a dia. Recursos de acessibilidade em celulares, aplicativos, eletrodomésticos e dispositivos vestíveis permitem ler, estudar, trabalhar, cuidar da casa e realizar tarefas que, em alguns casos, antes dependiam da ajuda de outras pessoas. Para escolher a roupa da filha, a criadora de conteúdo Mellina Reis, de 43 anos, fotografa as peças e pede ao aplicativo Be My Eyes que descreva cores e estampas. O mesmo recurso ajuda a separar pares de meias. Com perda total da visão há 29 anos, causada por uma degeneração na retina, ela usa o celular para realizar tarefas que antes exigiam a ajuda de outra pessoa. O leitor de tela permite navegar por mensagens, redes sociais e aplicativos. Outros recursos ajudam a ler embalagens e controlar aparelhos domésticos. "Hoje a tecnologia é minha grande aliada", afirma Mellina. Na máquina de lavar, por exemplo, ela acessa pelo celular comandos que teria dificuldade de identificar no painel sensível ao toque. Essa independência, porém, nem sempre vem pronta com o produto. Quando comprou a máquina, Mellina descobriu que o aplicativo não funcionava adequadamente com seu leitor de tela. Procurou a LG e participou dos ajustes que permitiram usar o aparelho sozinha. Ler, estudar e cuidar da rotina A juíza aposentada Maria da Gloria Reis, de 76 anos, combina diferentes equipamentos para continuar lendo e estudando. Ela tem degeneração macular, com perda da visão central, mas ainda preserva a visão periférica. Seu celular é de um modelo que oferece uma tela maior quando aberto. Aplicativos ajudam na leitura de livros e no reconhecimento de dinheiro, lugares e pessoas. Uma lupa digital amplia textos impressos, enquanto os óculos com recursos da Meta permitem gravar vídeos, receber notificações e ouvir música. "Com esses equipamentos consigo ler, estudar, ver TV, bem como tenho autonomia nas tarefas domésticas e pessoais", relata. Durante sua atuação no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, um grupo de acessibilidade também indicou aplicativos para facilitar o acesso aos processos e a elaboração de decisões. As necessidades variam conforme a pessoa, mesmo entre usuários com deficiência visual. Maria da Gloria utiliza a visão periférica e a ampliação de imagens. Mellina depende da leitura em voz alta e da descrição de elementos visuais. Aplicativos e funcionalidades Para consultar informações em embalagens, Mellina usa o Seeing AI, aplicativo da Microsoft que permite ouvir textos captados pela câmera do celular. O recurso ajuda a ler instruções de uso e outras informações do produto. Na televisão Samsung, um leitor de tela integrado permite navegar pelos menus. Mas as dificuldades aparecem em ferramentas de trabalho, como o site Canva, quando ela tenta editar um material de apresentação profissional. Embora tenha tido uma resposta positiva da fabricante da máquina de lavar, isso não se repete em todos os serviços. Segundo Mellina, poucas empresas retornam quando comunica problemas de acessibilidade. Ela cobra que os desenvolvedores considerem a presença de pessoas cegas entre os usuários de seus aplicativos. A barreira pode estar no desenho do produto, e não na capacidade de quem o utiliza. Letras pequenas, pouco contraste, comandos difíceis de identificar e etapas demais para concluir uma tarefa podem impedir o acesso. "Se várias pessoas encontram dificuldade no mesmo ponto, talvez o problema esteja muito mais no produto do que nelas", diz Renata Mafra, professora de Psicologia e coordenadora do projeto Arnaldo 50+, do Centro Universitário Arnaldo Janssen, em Belo Horizonte. Atualizações e senhas dificultam o uso Entre as pessoas que acompanha, Mafra observa diferentes graus de familiaridade com o celular. A troca de aparelho e as atualizações estão entre os obstáculos: um comando que antes era conhecido muda de lugar, e o caminho precisa ser aprendido novamente. Senhas, recuperação de acesso e validações por reconhecimento facial também geram dificuldades. O receio de apagar informações ou cair em golpes pode levar a pessoa a desistir antes de tentar. "Às vezes, esse medo limita mais do que a dificuldade técnica propriamente dita", afirma Mafra. Antonieta Ozzett, especialista em Geriatria pelo Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, observa problemas relacionados à visão, à audição e aos movimentos. "Teclados pequenos dificultam a digitação, especialmente para quem tem tremores", diz. Nas verificações por foto, ler as instruções e executar os movimentos pedidos pode ser um obstáculo. Mesmo ajustes de acessibilidade podem exigir adaptações. Aumentar as letras facilita a leitura, mas pode dificultar a visualização da página inteira. Para quem não consegue ouvir mensagens de áudio, a transcrição pode ajudar. Quando ela não está disponível, enviar o conteúdo por escrito é uma alternativa, orienta Ozzetti. Ensinar sem assumir o controle Pedir um carro, agendar uma consulta ou fazer compras pelo celular pode reduzir a dependência de familiares. Mas possuir o aparelho não significa saber utilizar seus recursos. A orientação precisa acompanhar a necessidade de cada pessoa. "É muito diferente alguém pegar o celular, fazer tudo rapidamente e devolver pronto, ou ensinar devagar, deixando a própria pessoa repetir o caminho", diz Mafra. Ozzetti recomenda evitar termos técnicos, verificar se a explicação foi compreendida e, quando necessário, deixar instruções por escrito. A falta de tempo e de paciência de quem ensina, segundo ela, está entre as dificuldades relatadas pelas pessoas idosas. O apoio também deve preservar senhas, privacidade e escolhas. Mafra observa que algumas famílias proíbem o uso de aplicativos bancários por medo de golpes, sem antes tentar ensinar formas mais seguras de acesso. Quando a ajuda se torna uma substituição permanente, pode restringir a autonomia. Aparelhos não substituem uma rede de apoio Dispositivos com alertas de queda podem ajudar a pedir socorro quando a pessoa está longe do telefone. Ozzetti ressalta, porém, que o equipamento não elimina a necessidade de prevenir acidentes em casa, com atenção à iluminação, aos pisos, aos tapetes e aos locais que precisam de apoio. Mafra, que não acompanha usuários habituais desses dispositivos, também pondera que eles não são garantia de segurança. Seu funcionamento depende de bateria, conexão e de alguém capaz de responder ao alerta. Ozzetti lembra ainda que a pessoa pode esquecer de usar o equipamento. Antes de escolher um produto, é preciso identificar a tarefa que se pretende realizar, a facilidade de uso e o suporte disponível. "Um recurso tecnológico só amplia a autonomia quando conversa com as necessidades, os desejos e a rotina de quem vai utilizá-lo", afirma Mafra. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.