Cannabis e saúde mental: promessas e lacunas nas evidências
7 Oct, 2026
As evidências sobre o uso medicinal de canabinoides em transtornos mentais ainda são escassas para a maioria das indicações e faltam estudos mais consistentes, com amostras maiores. Há sinais promissores para insônia, transtorno do espectro autista (TEA), síndrome de Tourette e transtorno por uso de cannabis, mas a qualidade geral das evidências é baixa ou muito baixa, e o uso rotineiro desses produtos seria “raramente justificado” com base nos resultados disponíveis. As conclusões são da maior revisão sistemática de estudos clínicos randomizados já feita sobre o tema, conduzida por pesquisadores das universidades de Sydney, Queensland e Melbourne, na Austrália, e Bath, no Reino Unido. Publicada em março na revista The Lancet Psychiatry , a metanálise avaliou a eficácia e a segurança desses compostos — derivados da planta Cannabis sativa , como o canabidiol (CBD) e o tetra-hidrocanabinol (THC) — em 54 ensaios publicados entre 1980 e 2025, com 2.477 participantes, acompanhados por cerca de cinco semanas. SAÚDE MENTAL A revisão analisou 54 ensaios clínicos, com 2.477 participantes, acompanhados por cerca de cinco semanas — o escopo da maior metanálise já feita sobre canabinoides OMS Mais de 1 bi de pessoas vivem hoje no mundo com problemas de saúde mental Segundo o artigo, não foram observadas comprovações significativas da eficácia do uso medicinal de canabinoides contra ansiedade, anorexia nervosa, transtornos psicóticos, transtorno de estresse pós-traumático e transtorno por uso de opioides. Também não havia dados suficientes para avaliar seus efeitos em casos de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e transtorno por uso de tabaco. Com a metodologia adotada, os autores tampouco localizaram ensaios clínicos randomizados sobre depressão, um dos transtornos mentais mais prevalentes do mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas vivem com problemas de saúde mental. “A metanálise não demonstra que os canabinoides não funcionam para os transtornos mentais. Na verdade, ela indica que, para uma parcela importante dessas condições, ainda não temos evidências clínicas suficientes para afirmar que funcionam e, principalmente, para recomendar seu uso rotineiro”, pondera Lucindo José Quintans Júnior, professor titular do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e coordenador do Laboratório de Neurociências e Ensaios Farmacológicos (Lanef). O mesmo vale para a segurança. “O estudo não mostrou que os canabinoides são perigosos. Mostrou que produzem eventos adversos e que esse custo precisa ser colocado na balança diante de benefícios que, para muitas indicações psiquiátricas, continuam incertos.” Essa assimetria — um evento adverso adicional a cada sete pacientes tratados, sem eficácia demonstrada — justifica a cautela dos autores, avalia José Luiz da Costa, coordenador do Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Campinas (Ciatox), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). E o resultado tem precedente. “O mesmo grupo australiano publicou uma metanálise semelhante em 2019, na própria The Lancet Psychiatry , com conclusões semelhantes: sete anos e dezenas de ensaios depois, o que cresceu foi o volume da base de evidências, não a sua qualidade”, diz. A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) teve sete trabalhos incluídos na revisão. O grupo do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento investiga o tema há décadas, em estudos pré-clínicos e clínicos, boa parte sob liderança do psiquiatra e neurocientista José Alexandre Crippa. Para ele, a revisão aponta sinais promissores em alguns transtornos, mas confirma a necessidade de ensaios maiores, bem controlados, com doses definidas, formulações padronizadas e acompanhamento mais longo. “A revisão não fala em evidências definitivas que possam ser usadas agora na prática clínica, embora aponte para alguma permissividade futura”, avalia. O pesquisador liderou recentemente um ensaio clínico randomizado com canabidiol em pacientes com Covid-19, financiado pela FAPESP. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) autoriza, desde 2022, o uso medicinal do óleo de canabidiol apenas contra formas graves de epilepsia refratária na infância e na adolescência e em pacientes com síndromes como Dravet, Doose e Lennox-Gastaut, além de esclerose tuberosa — condições fora do escopo da nova revisão, mas cujo tratamento com canabidiol encontra respaldo em ensaios clínicos randomizados. Em países como Canadá, Uruguai e Portugal, a prescrição é permitida para outras condições. “O que falta no meio do caminho, entre o CFM, o médico e o paciente, são estudos que comprovem a eficácia dessas medicações e autorizem suas prescrições”, afirma Crippa. Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP Mercado à frente da ciência Embora o debate sobre o uso medicinal da Cannabis sativa tenha ganhado força nos últimos anos, os pesquisadores consideram que a produção de evidências clínicas ainda não acompanhou o ritmo de expansão do mercado. “O apelo popular e o da indústria fizeram os produtos à base de cannabis chegar às farmácias antes das evidências, que ainda estão sendo construídas pela ciência”, analisa o psiquiatra José Diogo Souza, da FMRP-USP. Segundo ele, as publicações sobre canabidiol cresceram, mas os ensaios clínicos são recentes e envolvem grupos pequenos de pacientes. “Precisamos de mais pesquisas em humanos, de fases 2, 3 e 4”, afirma. Quintans Júnior faz uma leitura semelhante. “O entusiasmo clínico e comercial correu mais depressa que os ensaios clínicos. Agora cabe à boa ciência alcançar o que a prática já colocou na rua. Até lá, a posição cientificamente mais correta não é condenar nem celebrar os canabinoides”, recomenda. O descompasso entre uso e conhecimento preocupa o psiquiatra Luís Fernando Tófoli, coordenador do Laboratório de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Leipsi) da Unicamp. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e um estudo de seu grupo, publicado em 2025 no International Journal of Drug Policy , “apontam que transtornos mentais estão entre as principais razões para o uso medicinal de cannabis, embora sejam justamente algumas das indicações para as quais tenhamos evidências mais fracas”, diz. O levantamento, com 1.335 pacientes ou cuidadores, identificou cinco perfis de usuários — sinal de que não existe um único perfil de paciente e de que é preciso formular perguntas clínicas mais específicas, em vez de misturar pacientes, produtos e indicações. Para ele, “não há base para uso rotineiro, mas há necessidade de mais pesquisa, não de um encerramento da questão”. Crippa ressalta que esse cenário não significa a ausência de pesquisas nacionais. O grupo da FMRP-USP é pioneiro na testagem de canabidiol em transtornos como esquizofrenia, ansiedade patológica e doença de Parkinson e, mais recentemente, passou a investigar aplicações no TOC e no TEA, além de novas formulações combinando diferentes canabinoides. Muitos desses estudos ficaram fora da revisão por não usarem placebo ou não atenderem a outros critérios dos autores. A transição para grandes ensaios clínicos, sugere o psiquiatra, depende de mais investimentos. “Os estudos universitários são iniciais, pequenos, limitados e com poucos recursos. Apontamos uma direção para que, posteriormente, o mercado possa avançar de outras formas. Esse é o papel da indústria, e o lucro que as farmacêuticas teriam já justificaria conduzir essas pesquisas”, analisa. O atual interesse pelo uso medicinal de canabinoides ganhou impulso com o caso de Charlotte Figi, menina norte-americana com síndrome de Dravet cujas crises convulsivas diminuíram após o início do tratamento com um extrato rico em CBD. A história ganhou projeção internacional em 2013, quando foi apresentada no documentário Weed , da CNN Limites da revisão e expansão do mercado Nem todos os pesquisadores, porém, interpretam a revisão da The Lancet Psychiatry da mesma forma. Para o neurocientista Sidarta Ribeiro, um dos fundadores do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a metanálise é bem-vinda, mas reúne estudos diversos, o que dificulta conclusões definitivas. “Ela junta estudos com canabidiol e THC isolados, combinados, óleo, extrato, diferentes doses, formulações, vias de administração, duração dos tratamentos, e joga tudo no mesmo balaio. As amostras são pequenas, há disparidade de gêneros”, afirma. Produzir ensaios em larga escala, acrescenta, é caro e exige “interesse da sociedade, das universidades e dos cientistas”. Enquanto a produção de evidências avança lentamente, o mercado de produtos derivados da cannabis cresce de maneira rápida. No Brasil, o acesso ocorre por vias regulamentadas pela Anvisa: medicamentos registrados, produtos de cannabis com autorização sanitária e importação para uso próprio mediante prescrição. A agência registra um medicamento à base de canabidiol e THC para a espasticidade da esclerose múltipla, além de 52 produtos de cannabis autorizados. Entre 2015 e 2025, o número de autorizações para uso de canabinoides saltou de 850 para 194.682, aumento de quase 230 vezes. Segundo o Anuário da Cannabis Medicinal 2025 , da consultoria Kaya Mind , o mercado movimentou quase R$ 1 bilhão no ano passado. Para a farmacêutica Priscila Gava Mazzola, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp, a revisão é abrangente e metodologicamente rigorosa, mas deixa claras as limitações das evidências. “As amostras são pequenas e pouco representativas, há uma disparidade em relação a pacientes do sexo masculino. Quase metade dos estudos apresentou alto risco de viés, e em 20% ele estava relacionado a conflitos de interesse com a indústria. Quando os autores retiram das análises de sensibilidade esses estudos, vários efeitos positivos desaparecem ou perdem significância estatística”, argumenta. Ela destaca como ponto positivo o fato de a revisão analisar separadamente CBD isolado, THC isolado e a combinação dos dois, mas chama a atenção para a curta duração dos estudos e para a ausência de ensaios sobre depressão, uma das principais razões para o uso medicinal da cannabis. Os resultados, avalia, não autorizam concluir que os canabinoides sejam ineficazes. “Não curam nenhuma doença, mas podem aliviar sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.” Separar os compostos importa porque combiná-los nem sempre soma benefícios. Em estudo com camundongos apoiado pela FAPESP, na Unicamp, o doutorando Alexandre Barcia de Godoi comparou CBD e canabigerol (CBG), isolados e associados, em modelo de crises convulsivas. O CBD repetido protegeu os animais mesmo 24 horas após a última dose, o CBG teve eficácia limitada e a combinação, em doses equivalentes, associou-se a crises mais graves. “A premissa de que combinações de canabinoides seriam intrinsecamente superiores aos compostos isolados não se sustentou nas condições testadas. Controle de composição não é detalhe técnico: é variável determinante de eficácia e de segurança, com implicação direta sobre os produtos de ‘amplo espectro’ disponíveis no mercado”, explica Godoi. Publicar esse tipo de resultado é uma escolha deliberada, diz Costa. “O campo está espremido entre o entusiasmo militante e o ceticismo reflexo, e nenhum dos dois favorece a boa ciência. Resultados negativos ou incômodos tendem a ser menos publicados, o que enviesa as revisões sistemáticas seguintes. Achados negativos bem conduzidos são tão necessários quanto os positivos para que o campo saia do impasse.” Os entraves vão além. “O maior obstáculo continua sendo o preconceito contra a própria pesquisa com cannabis. Parte da falta de evidência existe porque, durante décadas, foi difícil estudar essas substâncias, e ainda há barreiras regulatórias, institucionais e financeiras para obter produtos padronizados e realizar ensaios maiores”, pontua Tófoli. Além das limitações dos ensaios clínicos, pesquisadores destacam que a área ainda enfrenta uma lacuna fundamental: o conhecimento sobre os mecanismos de ação dos fitocanabinoides permanece incompleto. Essa limitação dificulta compreender por que alguns compostos parecem beneficiar determinados pacientes ou transtornos, mas não outros, e torna mais difícil projetar estudos clínicos capazes de responder a essas questões. Para o neurologista Esper Abrão Cavalheiro, professor emérito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o problema começa antes: como se conhece pouco a causa da maioria dos transtornos neuropsiquiátricos, os tratamentos miram os sintomas mais visíveis, e um mesmo diagnóstico reúne pacientes com causas distintas. Ele lembra que o uso recente dos canabinoides começou “quase por acaso”, com o caso de Charlotte Figi, menina norte-americana com síndrome de Dravet cujas crises diminuíram com uma formulação artesanal rica em CBD, divulgado pela CNN em 2013. “Do uso no controle das crises epilépticas ao uso em outras doenças neurológicas e psiquiátricas, foi apenas questão de anos — uma expansão que, na maioria das vezes, se deu por pressão popular e midiática”, afirma. Para Quintans Júnior, é preciso mudar de escala. “A pergunta já não pode ser apenas ‘Cannabis funciona ou não funciona?’. Ela ficou pequena. Precisamos saber qual canabinoide, para qual doença, em qual formulação, dose, mecanismo e paciente. É esse refinamento que pode transformar um uso terapêutico milenar em evidência moderna, segura e capaz de dialogar com as políticas e recomendações em saúde.”