Com a IA, o matemático passará de explorador a turista

admin
8 Oct, 2026
Em 1993, Andrew Wiles anunciou a prova do Último Teorema de Fermat, problema que derrotara gerações de matemáticos por mais de três séculos. Houve champanhe e primeira página no jornal The New York Times. Na terça-feira (6), a OpenAI publicou centenas de manuscritos com resultados novos em diversas áreas da matemática, obtidos, pasmem, por uma IA interna. Postos a ranquear as maiores descobertas dos últimos três anos, dois sistemas de IA atribuíram a esse lote 81% do topo da lista. Os juízes são parentes dos réus, é verdade. Mas, ainda que tenham exagerado, o dia não tem precedentes. Se houver quem escreva a história deste século, as guerras e eleições desta década caberão todas numa nota de rodapé; o 6 de outubro de 2026 terá um capítulo. O avanço mais impressionante envolve a hipótese de Riemann, de 1859, sobre os números primos. Os primos parecem espalhados ao acaso, mas Riemann apostou que seguem uma regra média da qual se desviam o mínimo possível. Em 167 anos, o progresso foi modesto. Agora, ainda que não tenha chegado à meta de Riemann, a IA deu o maior salto do século, mostrando que o desvio é relativamente pequeno. Não são curiosidades de especialista. A teoria dos números primos protege as senhas e as transações bancárias na internet, enquanto outros resultados divulgados pela OpenAI afetam campos práticos tão distintos quanto a fusão nuclear e os algoritmos de otimização usados em logísticas e redes, para ficar em poucos exemplos. O cético dirá que a máquina só recombina truques que os humanos já inventaram. Quem examinou as provas discorda. O matemático Joshua Zelinsky estudou três delas e concluiu que alguns métodos não se parecem com nada que os especialistas vinham tentando. De acordo com ele, a IA parece estar "inventando técnicas novas por conta própria". Por que a IA chegou primeiro à matemática, a rainha das ciências? Porque nela é fácil saber se uma resposta está certa. Inventar uma prova é dificílimo; conferi-la é mecânico, e há programas que checam cada passo, como o Lean, cocriado pelo brasileiro Leonardo de Moura. Com um corretor infalível, a máquina pode tentar milhões de vezes e ir melhorando sozinha, ajustando suas conexões para aumentar a chance de sucesso, como os programas que aprenderam xadrez jogando contra si mesmos. Para boa parte dos matemáticos, desta vez não houve champanhe; o anúncio soou como um amargo prenúncio. O prazer do ofício era passar meses, ou mesmo anos, perdido num território desconhecido até que, quem sabe um dia, acrescentar um trecho ao mapa. Agora o trabalho será cada vez mais ler o que uma máquina produziu e outra conferiu. O matemático passará de explorador a turista: ainda poderá admirar a paisagem, mas o mapa já terá sido desenhado. Prevejo uma debandada das universidades. O passo seguinte me parece questão de tempo. As máquinas farão descobertas usando estruturas que nenhum ser humano domina por inteiro. De tempos em tempos, pediremos que comprimam partes da fronteira do conhecimento em princípios que caibam numa cabeça humana; no fim, até a escolha dessas partes será delas. O anúncio da OpenAI marca o momento em que passamos a receber explicações escolhidas e mastigadas por um intelecto maior que o nosso. O que sobra para nós? Não é a primeira vez que máquinas nos superam. Fora do esporte, ninguém vive dos músculos desde que os motores assumiram o trabalho pesado. Mesmo assim, as academias vivem lotadas, por saúde e, admitamos, para impressionar possíveis parceiros. Se vale para o corpo, por que não para a mente? Os matemáticos devem sair da academia, mas talvez a matemática vá parar na academia.