A encruzilhada depois do doutorado

admin
8 Oct, 2026
O dilema dos jovens pesquisadores, muitas vezes, fica entre caminhos instáveis e a fuga das universidades Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP Um momento decisivo da vida acadêmica é quando o pesquisador termina o doutorado. Para um número crescente de jovens pesquisadores, a questão é achar um caminho factível depois dele. Nos últimos anos, quem é recém-doutor tem de lidar com opções escassas. De um lado, as vagas permanentes em universidades e institutos de pesquisa não são suficientes para absorver a todos. De outro, ao menos em países como o Brasil, há um relativo desinteresse do setor privado na formação dessas pessoas. Há ainda a chance de fazer um pós-doutorado, caminho que também é temporário, durando apenas alguns anos. Sobre o estudo 1,3 milhão de publicações científicas analisadas Publicadas entre 2005 e 2020 Circulação, não fuga Dos brasileiros com experiência internacional no exterior 68% retornaram para o Brasil Poucos, mas produtivos Só 15% dos pesquisadores tiveram experiência internacional, mas eles foram responsáveis por 59% de toda a produção científica analisada “O pós-doc não é exatamente uma alternativa à carreira acadêmica, mas faz parte dela”, diz Stevens Rehen, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor). O neurocientista tem décadas de experiência com projetos que unem os setores público e privado. “O que estamos vendo hoje, no Brasil e fora dele, é que esse período deixou de ser uma etapa de transição relativamente curta e passou a funcionar, muitas vezes, como um período prolongado e inevitável da formação, mas também de incerteza.” A consequência de todo esse processo é uma geração que vive entre bolsas temporárias, vínculos frágeis e decisões profissionais cada vez mais difíceis. É possível continuar procurando vagas de pós-doutorado em diferentes instituições, por exemplo, já que não há um limite para o número desses projetos de pesquisa, mas não se trata de uma solução de longo prazo. Para muitos jovens pesquisadores, a escolha tem sido entre permanecer nesse ciclo sem muita saída ou buscar caminhos fora da universidade — no setor privado, no empreendedorismo, no serviço público ou no exterior. O fenômeno é global. Reportagem publicada em junho de 2025 na Nature, assinada por Diana Kwon, apontava que o número de doutores formados no mundo cresceu em ritmo muito superior à oferta de vagas na academia — cenário que vem pressionando universidades a repensar o modelo tradicional de formação de PhDs. Países como China e Índia lideram essa expansão. No gigante asiático, por exemplo, o número de estudantes matriculados em programas de doutorado dobrou em uma década: passou de cerca de 300 mil, em 2013, para mais de 600 mil, em 2023. O crescimento é impulsionado pela ampliação do acesso ao ensino superior e pela percepção de que títulos acadêmicos aumentam as chances de ascensão social e econômica. A pergunta “Onde você estudou?” entre os chineses é, muitas vezes, fundamental. O problema é que o mercado acadêmico não acompanhou esse avanço. O número de vagas em universidades e centros de pesquisa cresce em ritmo muito menor do que o contingente de doutores formados. Muitos estudantes ainda entram no doutorado pensando exclusivamente em uma carreira universitária, embora a realidade atual seja marcada por forte competição e poucas oportunidades permanentes na academia. Nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália, a maior parte dos doutores já trabalha fora do ambiente acadêmico. Uma pesquisa feita no país europeu com mais de 4.500 doutores, ainda segundo a Nature, mostrou que mais de dois terços atuam em empregos não acadêmicos. Em muitos casos, esses profissionais acabam em funções pouco relacionadas à área de especialização desenvolvida durante o doutorado. Na África do Sul, por exemplo, 18% dos doutores entrevistados em uma pesquisa afirmaram ter dificuldade para encontrar empregos ligados à própria área de expertise. Parte deles relata a sensação de sobrequalificação e subaproveitamento profissional. Apesar disso, a satisfação geral com a carreira permanece relativamente alta: mais de 90% dos doutores britânicos disseram estar satisfeitos com o trabalho atual. A diferença aparece principalmente entre áreas. Formados em ciências e tecnologia tendem a encontrar mais posições ligadas à pesquisa e inovação, enquanto profissionais das áreas de humanas e artes enfrentam maior dificuldade de inserção em empregos diretamente conectados ao doutorado. O texto também levanta uma questão cada vez mais presente no debate internacional: o doutorado ainda traz vantagens salariais claras em relação ao mestrado? Um estudo citado pela reportagem mostra que doutores britânicos, em média, ganham mais por hora do que mestres — mas isso não ocorre em todas as áreas. Em campos como direito, economia e gestão, doutores chegaram a receber ligeiramente menos do que profissionais que tenham apenas mestrado. Quando o tempo de experiência profissional é considerado, mestres passam a apresentar rendimento médio um pouco superior. Diante desse cenário, pesquisadores e formuladores de políticas públicas defendem uma reformulação dos programas de doutorado. A ideia é que eles deixem de funcionar apenas como treinamento para a carreira universitária e passem a preparar estudantes para diferentes setores da economia. Países como Japão, Alemanha e Reino Unido já começaram a implementar mudanças, incluindo estágios remunerados em empresas e modelos de “doutorado industrial”, realizados em parceria com o setor privado. As habilidades desenvolvidas durante o doutorado — como pensamento crítico, capacidade analítica e inovação — continuam valiosas no mercado, mas as universidades precisam adaptar a formação à nova realidade profissional dos doutores. Inclusive no Brasil, como afirma Elizabeth Balbachevsky, especialista em políticas públicas e ensino superior. “A pós-graduação brasileira ainda é muito calcada na lógica do produto acadêmico”, afirma. Segundo a cientista social da Universidade de São Paulo (USP), embora a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tenha começado a demonstrar preocupação com o destino profissional dos egressos, o sistema continua fortemente orientado para a reprodução da própria carreira acadêmica. “Uma pós-graduação que só pensa na formação dos futuros acadêmicos é uma coisa do século passado. Não existe mais.” Uma abordagem que busca enfrentar esse problema é a criação de mestrados e doutorados profissionais, os quais enfatizam, por exemplo, consultorias e estágios aplicados em empresas ou órgãos públicos. Para a pesquisadora, o problema não está apenas no número limitado de vagas universitárias, mas em uma lógica histórica, que formou doutores quase exclusivamente para permanecer dentro da própria universidade. “Você entra numa dinâmica autofágica do sistema”, afirma. O desafio se torna ainda mais evidente porque a pesquisa acadêmica é cara e, por definição, não consegue se expandir indefinidamente. Sem canais robustos de absorção em empresas, instituições públicas, terceiro setor ou ecossistemas de inovação, parte dos pesquisadores acaba presa em trajetórias profissionais precárias ou pouco conectadas à produção de conhecimento. Balbachevsky avalia que o país avançou pouco em políticas voltadas à formação continuada e à integração entre pós-graduação e outros setores da sociedade. Em países europeus, por exemplo, universidades de ciências aplicadas e programas de requalificação profissional aproximam pesquisa, Estado e mercado de trabalho. No Brasil, esse espaço permanece fragmentado. O setor privado ainda pesquisa pouco Toda a complexidade da vida de quem sai do doutorado também revela uma característica estrutural da economia brasileira: o baixo investimento privado em pesquisa e desenvolvimento. Em economias mais intensivas em inovação, deixar a universidade não significa necessariamente abandonar a ciência. Empresas de tecnologia, farmacêuticas, centros de pesquisa aplicada e startups absorvem parte importante dos doutores. No Brasil, essa ponte ainda é limitada, apesar de algumas áreas, como a do agronegócio, chegarem a encaminhar algumas soluções. Isso ajuda a explicar por que muitos pesquisadores enxergam o exterior como alternativa mais atraente. Além de salários mais altos, universidades e centros internacionais oferecem infraestrutura mais robusta, redes globais de colaboração e maior previsibilidade institucional. Mesmo assim, a chamada “fuga de cérebros” talvez não seja o conceito mais adequado para entender o fenômeno atual. Um estudo publicado na edição de 2 de abril deste ano da revista Quantitative Science Studies analisou mais de 1,3 milhão de publicações científicas de pesquisadores brasileiros das áreas de saúde e ciências da vida entre 2005 e 2020. O levantamento mostrou que 68% dos cientistas brasileiros que tiveram experiência internacional retornaram ao país. Os dados ajudam a fortalecer uma ideia que vem ganhando espaço no debate internacional segundo o neurocientista Stevens Rehen: a da “circulação de cérebros”. O problema não seria simplesmente sair do país, mas a capacidade — ou incapacidade — de transformar mobilidade internacional em ganho científico, tecnológico e econômico para o sistema nacional. O estudo traz outro dado revelador: embora apenas 15% dos pesquisadores analisados tenham tido experiência internacional, eles responderam por 59% das publicações científicas. “Isso sugere que a mobilidade é um ativo desde que exista um ecossistema doméstico capaz de capitalizar essas conexões”, afirma Rehen. “Sem isso, a circulação tende a se converter, na prática, em perda.” Thea Severino / Revista Pesquisa FAPESP Empreender com ciência profunda Nesse cenário, o empreendedorismo científico passou a aparecer como alternativa possível para parte dos pesquisadores. O crescimento de startups de biotecnologia, de soluções para saúde e iniciativas de deep tech (que buscam transformar descobertas científicas relevantes em tecnologias que possam ser patenteadas) abriu novas perspectivas para doutores interessados em transformar pesquisa em produto. Mas o caminho está longe de ser simples. “O empreendedorismo é um caminho possível, mas ainda bastante desafiador no contexto brasileiro, especialmente nas áreas biológica e biomédica”, explica Rehen. Segundo o cientista brasileiro, existe um desalinhamento estrutural entre o tempo da ciência e a lógica predominante do mercado financeiro. Enquanto investidores acostumados ao universo digital esperam retornos rápidos, pesquisas científicas profundas exigem validação experimental, testes regulatórios e ciclos longos de maturação. “Isso torna o ambiente menos favorável para iniciativas de deep tech e acaba desestimulando parte dos pesquisadores”, diz. Na prática, muitos cientistas precisam aprender simultaneamente pesquisa, gestão, captação de recursos e desenvolvimento de negócios — em um ecossistema que ainda é marcado por burocracia, financiamento instável e baixa integração entre universidade e setor privado. A decisão individual Por trás dos indicadores, existe também uma dimensão pessoal difícil de medir em estatísticas. A trajetória prolongada de formação frequentemente empurra decisões fundamentais da vida adulta para mais tarde. Estabilidade financeira, planejamento familiar e consolidação profissional acabam adiados por anos. “O ponto crítico costuma aparecer na transição entre o doutorado e os primeiros anos de pós-doc”, diz Rehen. “A diferença entre permanecer ou sair do país deixa de ser apenas uma questão vocacional e passa a ser, cada vez mais, uma questão estrutural, de perspectiva de vida.” Balbachevsky concorda que a nova geração já avalia a pós-graduação de maneira diferente. “O jovem hoje olha para o mundo e pergunta: ‘E aí? O que eu vou fazer?’.” Para ela, o próprio conceito de formação precisa mudar. Em vez de enxergar educação como uma etapa encerrada no início da vida adulta, países mais desenvolvidos passaram a tratá-la como um processo contínuo, capaz de acompanhar diferentes momentos profissionais. O pós-doc, hoje, ou mesmo o mestrado e o doutorado, voltou a ser opção para profissionais que deixaram a universidade há mais tempo. “O nosso departamento passou a receber, pouco tempo atrás, delegados da Polícia Federal e oficiais da polícia militar que fizeram mestrado em ciência política. É algo extremamente rico. É um item, inclusive, que precisa entrar na avaliação da Capes”, pondera Balbachevsky. Apesar das dificuldades, ambos os pesquisadores evitam uma visão totalmente pessimista. Há sinais de mudança dentro do sistema acadêmico brasileiro. Alguns programas de pós-graduação já tentam oferecer uma formação mais flexível, aproximando alunos do setor público, de empresas e de trajetórias profissionais diversas. Do ponto de vista da sociedade, segundo Balbachevsky, o ganho existe em diferentes caminhos. “Uma pós-graduação polivalente, que produza pessoas para a vida acadêmica e também para a vida profissional, é muito importante para o país.” O desafio brasileiro talvez já não seja apenas formar cérebros. O problema passou a ser criar condições para que eles consigam circular, permanecer, inovar e produzir conhecimento sem transformar a própria carreira em um exercício permanente de incerteza, em tempos em que o aprendizado se torna obsoleto em anos, mas o conhecimento e a experiência vão se acumulando ao longo da vida profissional. É permitida a republicação desta reportagem em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. É obrigatório o cumprimento da Política de Republicação Digital de Conteúdo de Pesquisa FAPESP, aqui especificada. 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