Para crescer na ciência, mulheres ainda precisam enfrentar cobranças além da pesquisa

admin
10 Oct, 2026
Para crescer na ciência, mulheres ainda precisam enfrentar cobranças além da pesquisa Décimo quinto episódio do Uma por Uma versa sobre a participação das mulheres em áreas majoritariamente ocupadas por homens Clique aqui e escute a matéria A ciência está presente em todas as esferas do cotidiano. Da tecnologia usada no celular, passando pelos avanços na saúde e chegando nos alimentos que consumimos. O questionamento do 15° episódio do videocast Uma Por Uma, do SJCC, busca entender quem participa da produção do conhecimento e como é o ambiente científico para as mulheres. Apresentado pela jornalista Natalia Ribeiro, o episódio recebeu a doutora em Agronomia Erika Valente, vencedora do Prêmio Mulheres do Agro 2026 na categoria Ciência e Pesquisa, e Patrícia Tedesco, doutora em Ciência da Computação e professora do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (CIn/UFPE). A conversa também contou com a participação de Julliana Brito, repórter do Jornal do Commercio e da coluna João Alberto. Assista ao videocast Uma por Uma #15: Quem faz ciência? Os caminhos das mulheres na produção do conhecimento Carreira desigual A presença feminina nas universidades não significa, necessariamente, igualdade de oportunidades ao longo da carreira. Erika Valente apresentou números que evidenciam essa diferença entre o ingresso na pós-graduação e o reconhecimento nos níveis mais altos da pesquisa. As mulheres representam cerca de 56% dos estudantes de mestrado e doutorado. Quando o recorte passa para as bolsas de produtividade em pesquisa, a participação feminina cai para 36%. No nível mais alto dessa categoria, as pesquisadoras correspondem a apenas 23%. "Como é que pode essa pirâmide ser tão desleal assim?", questionou. Para a professora, parte do problema está nos critérios de avaliação da produtividade, que nem sempre consideram as condições em que homens e mulheres desenvolvem suas pesquisas. A maternidade e as responsabilidades de cuidado, por exemplo, podem reduzir o tempo disponível para produzir artigos, participar de eventos e disputar oportunidades. Julliana Brito concorda e defende mudanças na maneira como a sociedade retrata mulheres bem-sucedidas, frequentemente descritas como "guerreiras" e "batalhadoras". "A gente quer chegar do mesmo jeito que os homens chegam", disse. Incentivos na infância As barreiras começam antes mesmo da universidade. Para Patrícia Tedesco, o incentivo familiar e a liberdade para explorar diferentes interesses podem fazer diferença na escolha profissional, sobretudo em áreas como Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), nas quais os homens ainda são maioria. Na infância, Patrícia gostava de brinquedos ligados à tecnologia e se interessava por objetos como calculadoras. Ela contou que teve apoio dos pais para seguir esses interesses, sem ser limitada por expectativas sobre o que seria considerado adequado para uma menina. Essa experiência contrasta com situações em que meninas são desencorajadas a explorar ou crescem sem referências de mulheres que trabalham com ciência e tecnologia. Foi justamente para enfrentar parte dessas dificuldades que surgiu o CIntia, grupo de mulheres do Centro de Informática da UFPE, que Patrícia faz parte da coordenação. O grupo promove atividades, eventos, projetos e ações de incentivo à participação feminina. A professora também destacou a importância de ampliar a presença feminina entre docentes e pesquisadoras. Para ela, encontrar mulheres em posições de referência ajuda estudantes a perceber que também podem construir uma trajetória naquele campo. Diversidade e investimento Patrícia também apontou a necessidade de políticas públicas contínuas e de mais recursos para a pesquisa. Ela destacou que, em alguns países, projetos científicos recebem financiamentos muito superiores aos valores que pesquisadores brasileiros conseguem acessar e defendeu incentivos que considerem também o impacto das pesquisas, além da quantidade de artigos publicados. As duas professoras reconheceram ainda que, iniciativas voltadas às mulheres, incluindo editais específicos para pesquisadoras e ações destinadas a mães, precisam ser criadas e fomentas. Erika ponderou que essas medidas devem ser entendidas como uma forma de reparação diante de desigualdades já existentes, e não como uma vantagem indevida. Para a jornalista Julliana, as conquistas atuais não eliminam automaticamente as desigualdades e podem vir acompanhadas de novas cobranças. "Conseguimos, mas temos muito ainda a conquistar", e lembrou que o acesso das mulheres a espaços como a política e a universidade é uma conquista relativamente recente. Ao longo do episódio, as convidadas defenderam que ampliar a presença feminina na ciência exige mais do que celebrar histórias individuais de sucesso. É necessário garantir condições para que meninas ingressem nessas áreas, que pesquisadoras permaneçam na carreira e que mulheres possam ocupar posições de liderança sem enfrentar questionamentos adicionais sobre sua capacidade. O debate também apontou a importância de envolver os homens na construção de relações mais igualitárias e de cobrar dos gestores públicos políticas de incentivo à ciência, à diversidade e à formação de novas gerações de pesquisadores.