Música em tupi antigo desaparecida há mais de 400 anos ganha versões após pesquisa da USP
14 Oct, 2026
Uma canção atravessou séculos com parte de sua história preservada, mas sem um elemento essencial: a melodia. Agora, pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Yale, nos Estados Unidos, recriaram três versões possíveis de uma música em tupi antigo apresentada em Lisboa em 1619. Batizada de Chorus Brasilicus, a composição foi reconstruída a partir de documentos históricos e do trabalho conjunto de especialistas em música, história e línguas. A proposta não foi recuperar uma melodia original desaparecida, mas explorar como ela poderia ter soado há mais de quatro séculos. Música em tupi antigo apresentada em Lisboa em 1619 A história começa em agosto de 1619, quando a canção integrou a peça teatral El Rey Don Manuel Conquistador de Oriente, apresentada no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, durante uma visita de Filipe III, rei da Espanha, a Portugal. O espetáculo tinha como objetivo exaltar as conquistas portuguesas no Oriente, mas também incluía uma cena relacionada ao Brasil. Nela, indígenas do território americano anunciavam a chamada “descoberta” do Brasil ao rei Manuel I, de Portugal, usando o tupi antigo. Embora a apresentação tenha acontecido no século 17, a descrição da peça e a letra da música foram preservadas em um livro publicado em 1620 pelo sacerdote e escritor português João Sardinha Mimoso. O problema é que a partitura não foi encontrada. Sem melodia original, os pesquisadores precisaram recorrer a outras fontes históricas para imaginar como a canção poderia ter sido executada. Como os pesquisadores recriaram a canção? O trabalho envolveu especialistas da USP e da Universidade de Yale, além dos musicólogos portugueses Irene Brigitte e Hugo Sanches, responsáveis por compor três versões: Solo & Chorus, Contrafactum e Basso Sostenato. Uma das referências utilizadas foi a melodia de uma música composta em Coimbra, Portugal, em 1640. Os pesquisadores substituíram o texto original pela letra em tupi antigo, com apoio de Kian Arad Sheik, pesquisador da USP que colaborou com a tradução e a pronúncia. A equipe também considerou as características sonoras da língua para adaptar as palavras às composições. Como não existe registro conhecido da melodia original, o resultado foi apresentado como um conjunto de possibilidades musicais, e não como uma reconstrução definitiva. Apresentação aconteceu na USP em 2026 As três versões foram apresentadas em maio de 2026, durante o evento “Ressonâncias Coloniais”, realizado no Museu de Arte Contemporânea da USP, em São Paulo. A organização ficou a cargo de Íris Kantor, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e de Lisa Voigt, professora de literatura e cultura da América Latina na Universidade Yale. A equipe demonstrou interesse em levar a apresentação a outros espaços, incluindo o Colégio de Santo Antão, onde a música foi executada originalmente. Lisa Voigt também pretende apresentar o projeto a comunidades indígenas falantes de tupi que manifestaram interesse em conhecer o trabalho.