Em qualquer onda, sempre Jorge Ben

admin
18 Oct, 2026
Jorge é o compositor da musicalidade relaxada. Não é isso. É o compositor que atingiu o à vontade da descontração. Quando eu vou compor, procuro um ambiente musical, uma estrutura. Êle não: já é tudo isso. Abre a bôca e já sai música. É o compositor mais espontâneo que eu conheço. Tom Zé sobre Jorge Ben, Jornal da Tarde, 10/1/1969 Jorge Ben Jor já tinha seis anos de carreira em 1969 quando o Jornal da Tarde publicou um perfil sobre uma nova fase do cantor e compositor. Naquela época ele era chamado de Jorge Ben. E o texto de Waldo Paoliello Jr. com fotos de Alfredo Rizutti tinha entre suas fontes o também compositor Tom Zé. Leia a transcrição da íntegra com a grafia original da época: Jornal da Tarde - 10 de janeiro de 1969 Em qualquer onda, sempre Jorge Ben Texto: Waldo Paoliello Jr. Fotos: Alfredo Rizutti A orquestra começa a tocar. Um rapaz de blusa amarela e calça de brim entra no palco da TV-Tupi em São Paulo. O público vala e aplaude. Êle sai reclamando: — É a terceira vez que isso acontece. Eu entrei com o microfone desligado. Não dá, né? Para multa gente, a vida dêste môço se resumiu em épocas de aplauso e épocas de vaias, muitas vaias: êle nunca foi — dizem — um sucesso consagrado, o grande sucesso. Mas o môço Jorge Menezes não se preocupa com isso, vai em frente, “eu tenho o meu público”. A explicação de Tom Zé sôbre o compositor Jorge Menezes: “Jorge é o compositor da musicalidade relaxada. Não é isso. É o compositor que atingiu o à vontade da descontração. Quando eu vou compor, procuro um ambiente musical, uma estrutura. Êle não: já é tudo isso. Abre a bôca e já sai música. É o compositor mais espontâneo que eu conheço. Jorge Menezes, carioca de 26 anos de idade, cinco anos de música séria — apesar de muitos críticos não considerarem isso. Quem é o público do compositor Jorge Menezes? — É em publico masculino, você entende? A explicação de alguns músicos: Jorge Menezes tem esse tipo de público porque a sua música não é para menininhas — elas não entendem o Jorge Menezes. Mas houve um tempo em que elas entendiam: foi em 1963, depois do “Festival da Balança” no Mackenzie e do “Fino da Bossa”, no Paramount — talvez o show de música brasileira, promovido por estudantes, mais importante de tôda aquela fase do Teatro Paramount. Naquele tempo Jorge Menezes era desconhecido. Acabara de chegar do Rio de Janeiro, onde abandonou o futebol com a turma da rua República do Peru, pôsto três-e-meio Copacabana. E no palco do Paramount havia um compositor que pronunciava o você de um outro modo — vochê. “Por causa do voché, bati em meu peito baixinho quase calado, coração apaixonado por vochê | meniná, menina | que não sabe quem eu sou | menina | que não conhece o meu amor, Mas vochê passa e não me lha | mas eu olho prá vochê | vochê não me diz nada | mas eu digo prá vochê...”. “Chove chuva/ chove sem parar. Chove chuva/ chove sem parar. Pois eu vou fazer uma prece/ prá Deus, Nosso Senhor/ prá chuva Parar de molhar o meu querido amor/ que é tão bonito, é mais que o infinito/ é puro e belo, inocente como a flor/ por favor chuva ruim não molhe mais, o meu amor assim”. Quatro anos depois dessa apresentação, Sérgio Mendes e o Brasil 66, conjunto que agora faz muito sucesso nos Estados Unidos — lugar garantido em tôdas as paradas de sucesso — gravava esta mesma música. E em tôdas as estações de rádio dos Estados Unidos se tocava “Chove Chuva”, musica do sr. Jorge Menezes. E Jorge passou a ter mais sucesso lá do que aqui. Para Jorge tudo começou com outra música. Bottie’s, uma boate do Beco das Garrafas, Rio de Janeiro, numa noite de 1963. Acabou o show dos Cariocas: apenas um casal, numa mesa do canto. Jorge sobe para o pequeno palco, o Copa-5 o acompanha e êle canta a música: “Mas que nada/ sai da minha frente que eu quero passar/ pois o samba está animado/ o que eu quero é sambar. Este samba, que é misto de maracatu/ é samba de prêto velho/ samba de prêto-tu. Mais que nada/ um samba como êste tão legal/ você não vai querer/ que eu chegue no final. ÔÔÔÔ Maria, aiô, obá, obá, obá”. Os dois únicos fregueses da boate pediram que êle tocasse de nôvo. Tocou. No fim, o diálogo: — Gostei — disse o freguês. Olha, êste é o meu cartão. Eu sou da Philips, passa lá amanhã. Jorge não foi. E á noite: — Por que é que vocé não foi? No dia seguinte, Jorge foi. E o seu compacto saía em cinco dias, tempo recorde. “Foi tudo por causa da Rosa”. Rosa era uma menina da turma da rua de Jorge que tinha a mania de falar “mas que nada”. Fêz a música, deu certo. Já não era mais Jorge Menezes, era Jorge Ben. Antes de “Mas que Nada”, antes de Rosa, antes do futebol da praia da rua Republica do Peru: Jorge Menezes no seminário São José, de batina, andando pelas procissões; Jorge Menezes no côro da igreja “eu gosto de música religiosa”. Aí vinham as férias “e eu aprendia todos os palavrões com a turma da cidade”. A volta ao seminário, e Jorge contando para todos os novos palavrões. Saiu do seminário, gostava daquilo, mas não tinha vocação. Vocação êle tinha — garantiu o diretor de futebol que o levou para treinar no Flamengo. E Jorge — ficou êsse nome mesmo — entrou em campo, camisa de listras horizontais vermelhas e pretas, numero sete branco nas costas. Foi bom jogador. “dava prá pegar o titular” — diz êle. Mas não deu, o Exército o chamou antes do Flamengo. Morava em Copacabana, mas tinha de apanhar um bonde para ir até a Central do Brasil, para depois tomar um trem, para o quartel. No primelro dia, voltou para casa com vergonha da farda que não era do seu tamanho. Mas, depois, conseguiu outra: era a farda mais bonita do quartel, diz: — Mandei ajustar tudo. E minha mãe mandava uma gominha na tunica. O negócio ficava quente. Naquela época estava na moda sapato do Motinha, uma loja do Rio. E lá ia eu pro quartel com sapato do Motinha. Quartel: trio medalhas para o soldado Jorge Menezes. uma porque o seu time de futebol de salão ganhara todos os jogos, de todos os times que apareceram pela frente. Outra: um tanque virou e se incendiou. Jorge e mais dois soldados conseguiram abrir o tanque e tirar de dentro um sargento e dois soldados. Receberam as medalhas da mão de um coronel, discursos, tropa reunida no pátio. — Foi bacana prá burro, eu gostava daquilo. A gente aprende muito. No quartel, ganhou um violão de sua mãe para não ficar muito sozinho. Método na frente, aprendeu. Ouviu os discos de Little Richards — era o tempo do twist — e uma noite, não se lembra quando, houve um show, só soldados, só twist. E Jorge tocava o violão. Ia de manhã para o quartel, trabalhava de tarde num cartório — na rua Graça Aranha, de onde saia ás quatro — com tempo para um joguinho de futebol. Uma noite, pela primeira vez, foi para uma boate, Bottle’s, no Beco das Garrafas. Jorge subiu num banquinho e cantou. — Passa amanhã na gravadora, diz um dos únicos fregueses da boate naquela hora. Seis dias depois, o primeiro disco de Jorge. Jorge Ben representou durante algum tempo o afro-samba na música brasileira, antes de Baden fazer o seu trabalho de pesquisa. Êsse tipo de música era muito diferente do que estava na moda, por isso é que Jorge diz hoje que “tenho meu público”. Quando TomZé diz que “Jorge improvisa seriamente músicas”, quer dizer que Jorge não se preocupa com a sua importâncla na História da Musica Brasileira: êle não faz musica pensando no capitulo que poderá ter num livro que ainda vai ser feito. Jorge não se preocupa com isso. — Ele quer é viver bem, tens namoradas demais. Vai tentar concorrer com êle em questão de amor. Não dá, meu filho — ri TomZé. Quem conhece realmente o compositor Jorge Menezes, um môço que já desfilou em carnaval na avenida Presidente Vargas, vestido de branco e vermelho, as cores do Salgueiro? Para muita gente, Jorge Ben é um sujeito que tentou a bossa nova, e desistiu. Tentou o programa de Roberto Carlos e desistiu. Está agora junto do grupo baiano. Vai dar certo? A contribuição de Jorge já foi dada, dizem os críticos: o seu sucesso no exterior é uma prova disso. TomZé, seu mais novo amigo, diz que as letras de Jorge não são feitas para um público-classe-média que gosta de poesia tradicional". Jorge é mais importante que isso.“ Divino, Maravilhoso, Canal 4, São Paulo. Jorge Ben canta a sua nova música entre valas aplausos: “Na dimensão azul e rosa / do Infinito celestial / da quinta galáxia / quem me dera eu ser um Intergalático / para estar dormindo nas estrelas / falando de amor com você. Mas eu sonhei com você, Barbarella. No meu sonho, o céu explodiu / com tamanha concussão 1 e nm asteróide danificou a minha bela astronave / me mandou de volta para a Terra. Mas eu sonhei com você, Barbarella. Barbarella / o meti dese-lo uma terrestre pra frente. Barbarella, vens em pessoa. No próximo foguete pra Lua / sou atrás de você. Mas eu sonhei com você, Bar-barella”. Jorge Menezes, 26 anos de idade, nascido no Rio Comprido, Tijuca, Rio de Janeiro, sai do palco, debaixo de vaias e aplausos. Explica a sua nova música, Barbarrella: “o meu público vai entender”, diz. Para Jorge, ela representa ama nova fase. Como “Mas que Nada” ou “Chove Chuva”. — Eu faço coisas por fases. Entende’ JORNAL DA TARDE Por 46 anos [de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012] o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira. Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação do Grupo Estado que protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo. Um exemplo é a histórica capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha. ACERVO ESTADÃO Veja o jornal do dia em que você nasceu Capas históricas Todas edições desde 1875 Páginas censuradas ESTADÃO CONTEÚDO Como licenciar conteúdos do Estadão