Hora ruim para vender? Por que preço de carro usado despencou no Brasil
19 Oct, 2026
Resumo A queda nos preços dos carros usados ganhou força no Brasil. Em outubro, 76,2% das referências de preços de automóveis da Tabela Fipe registraram redução em relação ao mês anterior. No mesmo período de 2025, essa proporção era de 68,3%, segundo levantamento da plataforma fipeX, que acompanha as variações mensais da tabela. Não foi apenas a quantidade de referências em queda que aumentou. As reduções também ficaram mais intensas: em outubro do ano passado, a mediana das variações era de -0,32%. Agora, chegou a -1,11%. Ao todo, 22.737 das 29.831 referências de automóveis comparadas tiveram redução de preço. Outras 6.743 subiram e 351 permaneceram estáveis. O movimento pode favorecer quem procura um carro usado, mas pesa principalmente no bolso de quem pretende vender o próprio veículo, especialmente para utilizá-lo como entrada na compra de outro. Isso porque os lojistas passaram a avaliar os carros recebidos na troca por valores menores, diante do risco de uma nova desvalorização. A pressão é mais evidente em algumas categorias, como os SUVs, que enfrentam uma concorrência crescente de modelos zero-quilômetro, sobretudo das marcas chinesas. SUVs estão entre os que mais perderam valor A redução dos preços não começou agora. Um levantamento da Tabela Auto B3, desenvolvido pela Trillia, unidade de dados da B3, em parceria com a Bright Consulting, mostra que os preços de transação dos veículos usados acumularam queda média de 3,9% nos 12 meses encerrados em agosto de 2026. Os SUVs e as picapes compactas apresentaram as maiores reduções, de 7,4% cada. Os crossovers vieram logo atrás, com recuo de 7,1%. Entre os sedãs, a queda foi de 2%, enquanto os hatches permaneceram estáveis. Veja a variação dos preços dos usados em 12 meses até agosto de 2026: SUVs: -7,4% Picapes compactas: -7,4% Crossovers: -7,1% Picapes médias: -2,5% Sedãs: -2,0% Picapes derivadas de automóveis: -0,6% Hatches: 0,0% Média do mercado: -3,9% Em agosto, os usados tiveram redução média de 0,1% em relação a julho, quando haviam recuado 1%. No mesmo período de 12 meses, os preços de transação dos veículos zero-quilômetro acumularam redução média de 1,1%. Os SUVs novos ficaram 2,5% mais baratos e as picapes compactas, 6,8%. Os números reforçam que a redução dos preços não se limita ao mercado de segunda mão. A concorrência com os modelos novos também influencia o valor de revenda dos seminovos, especialmente quando há descontos e condições comerciais mais agressivas. Carros chineses influenciam queda dos usados Não é coincidência que algumas das maiores reduções estejam nos segmentos em que as marcas chinesas mais avançaram entre os zero-quilômetro. Os SUVs e crossovers passaram a enfrentar uma concorrência mais intensa de veículos novos, especialmente das fabricantes chinesas, que apostam em preços competitivos, equipamentos e tecnologias híbridas e elétricas. A chegada desses veículos também aumentou a pressão sobre as montadoras tradicionais, que passaram a oferecer bônus, descontos e condições especiais de financiamento para disputar consumidores. Com isso, a diferença de preço entre um seminovo e um zero-quilômetro diminuiu em determinadas faixas do mercado. O reflexo já é sentido nas avaliações feitas pelas revendas. Lojistas e concessionários ouvidos pelo UOL Carros relataram que veículos antes aceitos na troca por cerca de 80% da Tabela Fipe passaram a receber ofertas próximas de 75%. Em alguns casos, como SUVs tradicionais, as avaliações chegaram a 73% da referência. Segundo Milad Kalume, especialista da consultoria K.Lume, a pressão não vem exclusivamente dos fabricantes chineses. Embora a chegada de novos concorrentes tenha contribuído para o movimento, os descontos e incentivos comerciais das montadoras tradicionais também ajudam a explicar a perda de valor dos seminovos. "Por qual motivo vou comprar um veículo usado ou seminovo por X reais se por X mais 10% eu compro um novo?", questiona Kalume. Quem vende perde mais Embora a queda dos preços possa parecer uma boa notícia para quem procura um carro usado, a situação pode ser menos favorável para quem pretende vender o próprio veículo, especialmente se a ideia for utilizá-lo como entrada na compra de outro. Isso acontece porque a desvalorização não chega da mesma forma às duas pontas da negociação. Enquanto a redução dos preços de venda ocorre gradualmente, as revendas podem diminuir mais rapidamente o valor que estão dispostas a pagar por um carro usado, para evitar prejuízos caso ele continue perdendo valor no estoque. Para ilustrar, um automóvel com valor de referência de R$ 100 mil, que antes seria recebido por R$ 80 mil, pode passar a ser avaliado em R$ 75 mil. São R$ 5 mil a menos na entrada do próximo veículo, mesmo sem considerar uma eventual redução da própria Fipe. Everton Fernandes, presidente da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), explica que a concorrência dos carros novos mudou a conta feita pelos consumidores. "Entre você comprar um carro usado a combustão em um preço quase no preço de um zero eletrificado, a gente vai ter que vender o usado mais barato", afirma. O problema é que o desconto obtido na compra de outro carro nem sempre compensa a perda na venda do atual. Quem já possui um veículo e depende dele para financiar parte da troca pode acabar precisando desembolsar mais dinheiro para fechar o negócio. Vendas de usados continuam crescendo Apesar da queda nos preços, o mercado brasileiro de seminovos e usados continua movimentado. De acordo com a Fenauto, foram negociados 14,2 milhões de veículos entre janeiro e setembro de 2026, crescimento de 5,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Em setembro, as vendas recuaram 1,6% em comparação com agosto, somando 1,67 milhão de unidades, mas o desempenho não foi igual para todas as faixas de idade. Os seminovos de até três anos foram os únicos a registrar crescimento mensal, de 1,2%, com 318.531 unidades comercializadas. No acumulado do ano, o avanço desse grupo chegou a 12,6%. O resultado indica que a procura por veículos mais novos continua forte, mesmo em um cenário de acomodação dos preços. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.