Corinthians enfrenta ações trabalhistas que somam quase R$ 3 milhões por antiga equipe de eSports
26 Oct, 2026
Corinthians enfrenta ações trabalhistas que somam quase R$ 3 milhões por antiga equipe de eSports O Corinthians enfrenta uma série de disputas na Justiça do Trabalho relacionadas à antiga equipe de esportes eletrônicos. Mesmo com a gestão da modalidade sob responsabilidade de uma empresa parceira, o clube foi incluído em processos movidos por ex-atletas e funcionários que apontam irregularidades nas relações de trabalho. As ações identificadas ultrapassam R$ 2,8 milhões em valores atribuídos aos processos. O caso foi divulgado pelo ge.globo, que consultou registros dos Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs). A apuração encontrou 30 ações envolvendo o Timão e a CDS, empresa que administrava a operação de eSports. Até o levantamento, 13 processos já tinham decisões judiciais, enquanto os demais continuavam sem sentença. Nos casos analisados que chegaram a uma decisão, o Corinthians foi condenado de forma subsidiária junto à empresa em dez ocasiões. Isso significa que o clube pode ser chamado a cumprir obrigações trabalhistas que não foram pagas pela responsável direta pela contratação dos profissionais. As três decisões favoráveis ao Timão ocorreram na primeira instância. O principal argumento considerado nas condenações é que os jogadores atuavam em uma estrutura associada ao Corinthians e, por isso, o clube também teria se beneficiado dos serviços prestados. Em entrevista ao ge.globo, o advogado Helio Tadeu Brogna Coelho, que representa trabalhadores envolvidos nas ações, afirmou ao ge.globo que a utilização da marca e do projeto alvinegro tem sido relevante para esse entendimento. "Os atletas prestavam serviços dentro de uma operação que utilizava a marca, a estrutura e o projeto de eSports do Corinthians, ainda que a contratação formal fosse feita por uma empresa intermediária. O entendimento que tem prevalecido é de que o clube se beneficiou diretamente daquele trabalho e, por isso, pode responder subsidiariamente pelas obrigações trabalhistas não cumpridas pela empresa contratada", afirmou. Terceirização não impediu responsabilização O acordo firmado em julho de 2022 permitiu que a CDS utilizasse a marca do Corinthians no cenário de esportes eletrônicos. Além de representar o clube nas competições, a empresa assumiu a responsabilidade pela administração do projeto e pela contratação dos jogadores. A parceria foi encerrada em setembro de 2025, após uma série de denúncias relacionadas à administração da modalidade. Em julho daquele ano, o Meu Timão publicou uma reportagem sobre os relatos de atletas e ex-atletas que, ao longo de 2024, denunciaram atrasos salariais, pressão psicológica e condições precárias de trabalho. Em entrevista ao portal, Milson Januário, presidente da CDS, admitiu atrasos de até dois meses nos pagamentos e dívidas próximas de R$ 300 mil. Na ocasião, o dirigente se comprometeu a regularizar a situação em até 60 dias, mas a promessa não foi integralmente cumprida. Mesmo com o encerramento do contrato, as consequências da gestão da CDS continuaram chegando à Justiça. Em um dos casos analisados, a desembargadora Jane Granzoto Torres da Silva apontou o descumprimento de obrigações trabalhistas por parte da empresa e manteve a responsabilização subsidiária do Corinthians. Na avaliação da magistrada, o clube também deveria responder pelos direitos do ex-jogador, uma vez que contratou os serviços de uma companhia que não cumpriu integralmente seus compromissos. "É inequívoco nos autos não ter a reclamada CDS (ex-empregadora do reclamante) cumprido com as suas integrais obrigações trabalhistas, o que resultou na condenação imposta pelo juízo de origem. Assim, tendo o reclamado Sport Club Corinthians contratado empresa prestadora de serviços sem idoneidade para honrar seus compromissos trabalhistas, deve arcar com o risco inerente a tal pactuação, responsabilizando-se subsidiariamente pelos direitos dos empregados", escreveu. A responsabilização pode ter consequências práticas quando a empresa responsável não consegue quitar os valores determinados pela Justiça. Foi o que ocorreu em uma ação na qual um ex-atleta obteve uma condenação calculada em R$ 85.455,74 durante a fase de execução provisória. Como não houve pagamento pela CDS nem foram encontrados bens da companhia para bloqueio, a cobrança foi direcionada ao clube. Uma ex-jogadora também precisou recorrer à Justiça para receber valores de um acordo firmado com a empresa. Dos R$ 58 mil previstos, a CDS quitou somente R$ 20,5 mil. Com a inadimplência, o Corinthians teve de assumir R$ 42,9 mil, considerando a atualização dos valores. Nesse processo, a decisão também reconheceu questões relacionadas ao vínculo empregatício, aos atrasos salariais e a indenizações por danos morais. O ge.globo tentou contato com Milson Januário, último administrador da CDS, mas não obteve retorno. Ações envolvem diferentes valores e reivindicações Os pedidos apresentados pelos trabalhadores variam de acordo com cada caso. Entre as principais reivindicações estão o reconhecimento de vínculo empregatício e o recebimento de salários pendentes, além de outras verbas e compensações previstas na legislação trabalhista. A maior parte das ações tem valores atribuídos entre R$ 30 mil e R$ 100 mil. Sete processos, contudo, ultrapassam essa faixa. O maior valor identificado no levantamento foi apresentado por uma ex-coordenadora da divisão, que ingressou na Justiça com uma causa estimada em R$ 460.257,32. A ex-funcionária conseguiu o reconhecimento de parte de seus pedidos em primeira instância, resultando em uma condenação estimada em aproximadamente R$ 200 mil. O processo não envolve somente Corinthians e CDS: dois antigos responsáveis pela área de eSports e empresas relacionadas a eles também são réus. A quantia definitiva ainda depende de cálculo judicial. Os valores indicados no início de uma ação não correspondem necessariamente ao montante que será pago ao final. A Justiça pode acolher todos os pedidos, reconhecer apenas parte deles ou rejeitá-los. Depois da decisão, a fase de execução define o total devido, com a inclusão de eventuais juros e correção monetária. Para o advogado Wagner Dias, que atua na representação de atletas ao lado da advogada Layla Rodrigues, o risco está na soma das diferentes disputas, mesmo que os valores individuais sejam relativamente baixos diante das cifras movimentadas pelo departamento de futebol. "O valor de cada ação é pequeno para o porte do Corinthians, e o impacto financeiro isolado é limitado. O problema é o efeito acumulado: muitas ações do mesmo tipo, com o clube respondendo por uma dívida que não administrou", analisou ao ge.globo. O especialista também avalia que empresas responsáveis por operações licenciadas devem ser acompanhadas de perto pelos clubes. Entre as medidas preventivas apontadas por ele estão a análise da situação financeira da parceira, a verificação periódica dos pagamentos aos funcionários e a inclusão de garantias contratuais. Clube afirma ter cobrado empresa responsável Procurado pelo ge.globo, o Corinthians informou que já formalizou uma cobrança de R$ 439,7 mil contra a CDS. O clube argumentou que as decisões judiciais não eliminam a responsabilidade da empresa que administrava a operação e que permanece preservado seu direito de buscar a recuperação dos valores envolvidos. "O Corinthians considera particularmente grave que sua marca e sua credibilidade sejam associadas às consequências de uma operação cuja gestão administrativa, financeira e trabalhista havia sido expressamente confiada a terceiros", disse o clube — confira a íntegra do texto no final da matéria. O Timão também manifestou preocupação com os efeitos das ações sobre sua imagem, uma vez que a gestão administrativa, financeira e trabalhista da equipe havia sido atribuída contratualmente a terceiros. Na avaliação do clube, não seria adequado associar sua reputação a problemas de uma operação cuja condução estava sob responsabilidade da licenciada. Confira a íntegra da nota do Corinthians enviada ao ge.globo O Sport Club Corinthians Paulista esclarece que a operação de suas antigas equipes de esportes eletrônicos foi objeto de contratos de parceria comercial e licenciamento de marca celebrados, a partir de 2022, com a CDS E-Sports e Entretenimento Ltda. Nos termos desses instrumentos, a CDS assumiu expressamente a gestão das equipes, a contratação e remuneração de atletas e profissionais, os encargos trabalhistas e os demais custos e riscos da atividade, obrigando-se a manter o Clube isento dessas responsabilidades e a ressarci-lo por eventuais condenações e despesas decorrentes da operação. Não se trata de mera divergência comercial. A CDS acumulou inadimplementos financeiros e pendências trabalhistas em uma operação que administrava de forma independente, expondo o Corinthians a ações judiciais, despesas e desgaste institucional. Seus administradores e representantes receberam reiteradas cobranças formais, sem que as pendências fossem solucionadas. O Corinthians, por sua vez, não permaneceu inerte. Durante a vigência contratual, promoveu reuniões, cobranças e renegociações, chegando a formalizar instrumento de reconhecimento e parcelamento de dívida e a apresentar alternativas para regularização das obrigações. Apesar dessas iniciativas, persistiram os descumprimentos e aumentaram os prejuízos relacionados à operação. A situação se tornou insustentável em 2025, especialmente diante da repercussão pública das denúncias de atrasos salariais, condições inadequadas de trabalho e exclusão de competições, amplamente divulgadas pela imprensa. Após notificação extrajudicial e ausência de regularização dos descumprimentos, o Corinthians declarou, em 27 de agosto de 2025, a rescisão imediata e motivada dos contratos, posteriormente comunicada à imprensa e à torcida por meio de nota oficial. Mesmo após a rescisão, o Clube manteve abertas as tratativas com representantes legais e procuradores da CDS, buscando uma composição para as pendências financeiras e trabalhistas. As alternativas discutidas, contudo, não produziram solução concreta, e o Corinthians não poderia admitir que negociações indefinidas prolongassem os prejuízos à instituição. Em fevereiro de 2026, após novas tentativas de composição, o Corinthians reiterou formalmente a cobrança de R$ 439.705,10, conforme apuração dos débitos contratuais atualizados até então, sem prejuízo das obrigações trabalhistas e demais responsabilidades da CDS. Não houve, contudo, solução efetiva para as pendências apontadas pelo Clube. A gravidade do quadro também se evidencia nas próprias demandas judiciais. Em uma das reclamações trabalhistas ajuizadas em 2026, por exemplo, além da CDS, figuram como reclamados Milson Januário, Ivana dos Santos Araújo e as empresas Mirvana Consultoria em Gestão Empresarial Ltda., MIV Global Trade Ltda. e Custom Serviços em Comércio Exterior Ltda., apontadas pela reclamante como integrantes de um mesmo grupo econômico. Nessa ação, são atribuídas aos referidos gestores e empresas decisões relacionadas à contratação, direção dos trabalhos, pagamentos e administração financeira, além de alegações de confusão patrimonial, cuja apuração compete ao Poder Judiciário. Todavia, é especialmente preocupante que, diante desse cenário, o Corinthians continue sendo chamado a responder judicialmente por obrigações que, por expressa disposição contratual, competiam à CDS. O Clube respeita as decisões judiciais e os direitos dos trabalhadores, mas ressalta que o eventual reconhecimento de sua responsabilidade subsidiária na esfera trabalhista não afasta a responsabilidade contratual da empresa gestora, tampouco o direito do Corinthians de exigir o ressarcimento integral dos prejuízos que lhe sejam imputáveis. Não é admissível que a CDS e os responsáveis pela condução de suas atividades, procurem se eximir das obrigações assumidas, enquanto o Corinthians permanece exposto a demandas judiciais, despesas de defesa, cobranças e danos à sua reputação. O Corinthians considera particularmente grave que sua marca e sua credibilidade sejam associadas às consequências de uma operação cuja gestão administrativa, financeira e trabalhista havia sido expressamente confiada a terceiros. O Clube não aceitará que o descumprimento de obrigações por seus antigos parceiros seja tratado como se decorresse de sua própria gestão, nem que os verdadeiros responsáveis deixem de responder pelos prejuízos causados. Por fim, o Sport Club Corinthians Paulista reafirma que continuará adotando as medidas jurídicas cabíveis, tanto para defender seus interesses nas reclamações trabalhistas quanto para exigir da CDS e de quem mais venha a ser juridicamente responsabilizado o cumprimento das obrigações assumidas e a reparação dos danos causados. A instituição não se furtará às suas responsabilidades legais, mas tampouco renunciará ao direito de responsabilizar aqueles cuja atuação deu origem a essa situação.