Oposição a data centers cresce no Brasil e acende alerta em empresas
29 Oct, 2026
A rápida expansão de grandes data centers nos Estados Unidos tem transformado esses empreendimentos em alvos de protestos e da oposição de diferentes segmentos da sociedade. Pesquisas mostram que a maioria da população se opõe à construção dessas infraestruturas em seus bairros, e a resistência virou uma rara bandeira que une republicanos e democratas. No Brasil, o setor ainda é muito menor. Os EUA concentram 58% da capacidade instalada no mundo, segundo a consultoria Data Center Hawk, enquanto o Brasil responde por pouco mais de 1%. Mas o país entrou na rota de investimentos do setor, e movimentos de oposição começam a aparecer, o que passa a preocupar as empresas. A resistência brasileira se materializa de diferentes formas: ações do Ministério Público pedem a paralisação ou explicações sobre grandes projetos; moradores pressionam por mais detalhes; nas redes sociais, postagens questionam os empreendimentos, algumas capitaneadas por políticos de esquerda; e nos estados, projetos de lei propõem restrições ao setor. Por trás dos movimentos nos dois países estão preocupações em comum, como o intenso consumo de energia, o uso de água, a poluição sonora e o excesso de calor. Em uma pesquisa recente do Fórum Econômico Mundial com economistas-chefes, a maioria avaliou que o avanço dos data centers de IA será um motor de tensão no mundo, por aumentar o custo de energia e água sem impacto positivo na criação de empregos. Um levantamento da consultoria Innova Assuntos Públicos mapeou pelo menos 20 projetos de lei sobre data centers em assembleias legislativas. Nove propõem restrições e exigências, sete focam em incentivos e quatro são neutros ou mistos. O tema ganhou relevância em 2026. Só quatro das propostas foram apresentadas no ano passado, e apenas uma era restritiva. Para Andriei Gutierrez, sócio da Innova, o cenário decorre de um “efeito EUA”, com movimentos sociais usando a experiência americana para alertar sobre os riscos do crescimento desenfreado do setor. Ele também avalia que grandes anúncios foram feitos com o poder público sem aproximação prévia com as comunidades afetadas, o que impulsionou a opinião negativa. “O cenário está mudando, e as empresas vão precisar ter uma nova abordagem a partir de agora. Não é um sinal vermelho como nos EUA, mas é um sinal amarelo. É bom porque nos obriga a avançar com mais cautela, mas há uma janela de oportunidade para investimentos”, diz Gutierrez. Luis Tossi, vice-presidente da Associação Brasileira de Data Center (ABDC), observa empresas do setor tentando se aproximar de comunidades locais para negociar benfeitorias junto com a implementação de projetos. A americana Equinix, uma das maiores empresas do mundo em data centers e infraestrutura digital, que tem projetos no Brasil, vê a oposição como um fator a considerar. Segundo Eduardo Shuto, diretor de estratégia Latam da empresa, antes de anunciar projetos a companhia faz um trabalho nas comunidades, apresentando dados sobre uso de água e energia e estimativas de benefícios para a região. “Isso sempre foi um fator e agora vai ser mais do que nunca”, diz. Nos Estados Unidos, pelo menos 106 projetos de data centers foram bloqueados ou adiados por oposição de comunidades locais no primeiro semestre de 2026, segundo a consultoria 10a Labs. No Brasil, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública pedem na Justiça a paralisação das obras de um data center em Pecém (CE), previsto para atender o TikTok, até que sejam feitos uma consulta a uma comunidade indígena e um estudo de impacto ambiental. A Omnia, responsável pelo projeto, diz manter diálogo com o poder público e as comunidades e ter todas as licenças exigidas. Uma ação parecida do Ministério Público Estadual afeta um projeto da Elea Data Center em Belém, ainda em desenvolvimento. A empresa afirma colaborar com o órgão e seguir todos os processos de licenciamento. Em Campinas, o Ministério Público Estadual abriu inquérito sobre um projeto da Terranova. O Conselho Municipal de Meio Ambiente havia levantado suspeitas sobre liberação antecipada de alvarás e riscos na ligação de energia. A prefeitura diz que o licenciamento está em andamento. A empresa afirma seguir os ritos legais e ter investido em uma subestação como reforço ao sistema elétrico. Setor em expansão e gargalo elétrico Mesmo pequeno, o setor brasileiro ficou seis vezes maior desde 2012, segundo a multinacional de serviços imobiliários JLL, e 2026 caminha para recorde de novas entregas, com investimentos previstos de US$ 8 bilhões. O tamanho do mercado consumidor, a demanda global puxada pela IA e a matriz elétrica majoritariamente limpa colocaram o Brasil como potencial polo de atração. O tema apareceu até no discurso de vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no domingo (25). A Brasscom, associação de empresas de tecnologia da informação, projeta que o mercado deve triplicar até 2031, com potencial de R$ 92 bilhões em investimentos. Aprovada recentemente, o Redata, legislação de incentivo ao setor, isenta de impostos federais a importação para equipamentos e exige uso de energia renovável ou de baixa emissão. O setor cobra também a desoneração do ICMS pelos estados, mas ela depende da regulamentação federal, travada em parte por divergências sobre a inclusão do gás natural entre as fontes de energia que dão acesso ao incentivo tributário. Nos EUA, o setor é majoritariamente alimentado por combustíveis fósseis. Aqui, os empreendimentos são apresentados como solução para o excesso de energia solar e eólica nos horários de maior geração, que impõe cortes para proteger a rede, o chamado curtailment. Mas essas fontes não garantem energia 24 horas por dia, como esse tipo de operação exige. Os data centers já disputam espaço na rede com outras indústrias. No primeiro leilão da Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (Pnast), em outubro, três data centers em São Paulo levaram todos os 228 MW disponíveis. O acesso a energia é hoje o principal entrave para a expansão. “Até 2021, o gargalo era a conectividade de fibra ótica. De repente vem a IA, que precisa processar muito mais dados, e o mercado toma outra dimensão. A energia passou a ser o principal gargalo”, diz Luciano Fialho, vice-presidente sênior da Scala Data Center, que constrói, desenvolve e opera data centers. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta que a demanda dos data centers deve crescer em média 13,7% ao ano até 2036, ante 1,8% do consumo total do país. “Você precisa investir em infraestrutura de transmissão para garantir a conexão desses projetos. Esse custo é um custo rateado por todos os usuários”, diz Daniel José Tavares de Souza, consultor da EPE. O desafio, segundo ele, é dimensionar a expansão sem criar infraestrutura ociosa que pese na conta de luz. A reação à reação A resistência começa a mobilizar as empresas, que questionam as comparações diretas entre as realidades americana e brasileira. Os EUA têm mais de cinco mil projetos de data centers, dos quais cerca de 1.500 estão em planejamento ou construção. O Brasil tem 218 em diferentes etapas, segundo o site Data Center Map. Lá, empreendimentos antigos usam tecnologias que demandam muita água para resfriamento. Aqui, segundo a Brasscom, 80% dos data centers usam circuito fechado, sistema de refrigeração em que a mesma água circula repetidamente para retirar o calor dos servidores, e o setor gasta o equivalente a 0,003% do consumo hídrico do país. Tossi, da ABDC, atribui isso à expansão em meados da década de 2010, durante a crise hídrica em São Paulo, que concentra os empreendimentos no país. “O mercado americano é muito mais liberal, é uma realidade muito diferente do Brasil”, diz. Para ter acesso ao Redata, os projetos precisarão de eficiência hídrica igual ou inferior a 0,05 litro por kWh. A regulamentação também deve fixar um índice de eficiência energética, que pode variar conforme o clima de cada região. O setor consome 1,7% da eletricidade brasileira, fatia que deve dobrar para 3,6% até 2029, segundo a Brasscom. “O que é grande não é o consumo de energia em si, mas a velocidade de crescimento dessa demanda. É um ciclo de expansão mais rápido que o ciclo normal de capacidade dos setores elétricos do mundo todo”, diz Affonso Nina, presidente executivo da entidade. As associações também destacam que o Brasil é deficitário em serviços digitais e “importa” processamento de dados, o que levanta preocupações de soberania digital. O Redata prevê que as empresas beneficiadas destinem ao menos 10% do processamento de dados ao mercado interno.