Defesa de Vorcaro aponta arquivos criados após apreensão de celular
30 Oct, 2026
A defesa de Daniel Vorcaro apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma análise técnica que questiona a integridade dos dados extraídos do celular do ex-banqueiro, investigado no caso Banco Master. O documento aponta registros de criação de 436 arquivos e de modificação de outros 657 na data seguinte à apreensão do aparelho, em novembro de 2025. O levantamento também identificou arquivos com registros de alteração meses depois da extração pericial. LEIA MAIS: PF indicia Vorcaro e mais 14 investigados no caso Master LEIA MAIS: MP pede condenação de Renato Cariani por tráfico e lavagem de dinheiro Elaborado pelo professor Marcos Monteiro, assistente técnico contratado pela defesa, o relatório foi entregue em 26 de outubro e integra uma contestação dos procedimentos utilizados para obter e processar as informações do iPhone 17 Pro de Vorcaro. A análise aponta lacunas na documentação da apreensão, na identificação dos equipamentos e no registro dos procedimentos realizados pela Polícia Federal (PF). A apresentação do documento ocorre um dia depois de a PF indiciar Vorcaro e outros 14 investigados pelas suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o Banco Regional de Brasília (BRB). Segundo a corporação, as operações com carteiras de crédito irregulares do Banco Master teriam provocado prejuízo de aproximadamente R$ 2,7 bilhões. A defesa dos investigados contesta as acusações. Arquivos foram modificados após apreensão Entre os principais achados da análise estão 657 arquivos com registros de modificação em 18 de novembro de 2025, quando o celular já estaria sob custódia policial, segundo a cronologia apresentada pelo assistente técnico. Desse conjunto, 59 são bancos de dados que podem armazenar informações de aplicativos e registros de utilização do aparelho. O levantamento também identificou 436 arquivos com registros de criação na mesma data. Entre eles estão 222 arquivos de configuração do sistema, 94 imagens no formato HEIC, utilizado pelo iPhone, e cinco bancos de dados. Outro ponto destacado é a existência de 340 arquivos com registros de modificação em 13 e 14 de maio de 2026, quase seis meses depois da extração pericial realizada em novembro do ano anterior. O relatório, porém, não determina a origem de todos esses registros nem demonstra que os arquivos tenham sido alterados intencionalmente para modificar provas. A conclusão do assistente é que os dados disponibilizados não permitem esclarecer de forma independente a origem e a extensão das alterações. Banco de dados do WhatsApp entrou na análise Um dos registros examinados envolve o arquivo ChatStorage.sqlite, associado ao armazenamento de informações do WhatsApp no iPhone. Segundo o relatório, o arquivo apresenta um registro de modificação às 1h48min14s de 18 de novembro de 2025. Poucos segundos antes, às 1h48min01s, o aparelho havia registrado uma conexão pela porta USB. O assistente técnico também identificou outros eventos de conexão durante a madrugada. A proximidade entre os registros foi apontada como um dos elementos que precisam ser esclarecidos. A análise, entretanto, não comprova que a conexão USB tenha provocado a modificação do banco de dados, nem identifica quem teria manuseado o aparelho naquele momento. O documento registra ainda 33 ativações da câmera frontal entre a noite de 17 de novembro e a madrugada do dia seguinte. O dado não permite concluir que tenham sido tiradas fotografias, uma vez que a câmera também pode ser acionada por recursos do próprio sistema, como o reconhecimento facial. Defesa questiona cadeia de custódia Além dos registros digitais, o assistente técnico aponta falhas na documentação da apreensão e da extração dos dados. Segundo o relatório, o termo de apreensão não detalha informações como número de série, IMEI e estado de funcionamento dos dispositivos, e há questionamentos sobre os registros dos lacres utilizados para acondicionar os equipamentos. A análise também aponta que o laudo oficial não informa a versão da ferramenta GrayKey utilizada na extração do iPhone nem apresenta todos os dados técnicos necessários para reproduzir o procedimento. Outro questionamento envolve o acesso aos arquivos originais da coleta. De acordo com o assistente, o material disponibilizado à defesa inclui um relatório no formato UFDR, produzido a partir do processamento dos dados, mas não os arquivos brutos necessários para comparar o conteúdo apresentado com o material originalmente extraído. Ao reprocessar os dados com uma versão mais recente do programa IPED, o assistente identificou 9.026.036 arquivos categorizados, contra 8.808.596 na versão anterior. A diferença foi de 217.440 itens. O próprio relatório ressalva que a divergência entre versões de um software não comprova erro ou adulteração. O questionamento é que, sem acesso aos dados originais e aos registros técnicos completos, a defesa afirma não conseguir verificar de maneira independente a integralidade do conteúdo. PF já havia afirmado que aparelho estava preservado Em setembro, a Polícia Federal informou ao STF que o aparelho original permanecia sob custódia da corporação, acondicionado em envelope de segurança lacrado, sem registro de rompimento ou novo manuseio. Segundo a manifestação, os dados extraídos também foram preservados em mídia física lacrada e em servidor institucional, em arquivo compactado e protegido por senha. Na ocasião, a PF afirmou que a cópia encaminhada ao gabinete do ministro André Mendonça havia sido entregue mediante solicitação formal e que a corporação tinha condições técnicas de produzir cópias idênticas e certificadas do material. O tema também chegou a provocar movimentações no Supremo. Em setembro, o ministro Cristiano Zanin pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, acesso à íntegra dos dados extraídos do celular de Vorcaro. O pedido ocorreu em meio à discussão sobre o compartilhamento de documentos da Operação Compliance Zero e às informações da investigação que relacionavam o ex-banqueiro ao ministro Alexandre de Moraes. A nova análise da defesa amplia o debate sobre a possibilidade de verificação independente dos dados, mas não representa, por si só, uma conclusão judicial sobre a validade das provas. Investigação do Banco Master avança Na quarta-feira (28), a Polícia Federal indiciou Vorcaro e outros 14 investigados na primeira fase da Operação Compliance Zero. A corporação atribui ao ex-banqueiro participação nas operações envolvendo carteiras de crédito consideradas irregulares e sustenta que ele ocupava posição central nas decisões do grupo investigado. Entre os indiciados estão o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. A investigação apura suspeitas de gestão fraudulenta de instituição financeira, organização criminosa e lavagem de dinheiro. A reportagem de O DIA entrou em contato com a assessoria da Polícia Federal e não obteve resposta até a publicação. O espaço está aberto para posicionamentos.