Temos terras raras: quem vai transformá-las em riqueza?
30 Oct, 2026
Há coisas que a gente encontra cavando. Outras, não. Lítio, terras raras, nióbio, grafite e tantos outros minerais estão debaixo da terra, esperando que alguém os retire de lá. Mas existe uma riqueza que não se extrai com máquinas, não se mede em toneladas e não aparece em mapas geológicos: o conhecimento. O Brasil tem reservas estratégicas de minerais críticos — um assunto que, inclusive, vem ganhando bastante espaço no debate eleitoral. Tem reservas, tem mercado e tem uma demanda mundial cada vez maior por tecnologias ligadas à transição energética. A pergunta é o que faremos com esse potencial. Porque tirar o minério do chão é apenas o começo da história. A cadeia produtiva do minério engloba geólogos, engenheiros, técnicos, pesquisadores, laboratórios, equipamentos, processos industriais e empresas capazes de transformar uma matéria-prima em algo que vale muito mais. Uma bateria, um componente eletrônico, um ímã permanente ou uma tecnologia de armazenamento de energia, por exemplo. É nessa transformação que mora boa parte do valor. Uma questão costuma ficar escondida atrás dos números grandiosos das reservas minerais: temos profissionais suficientes para fazer essa transformação? Conhecimento leva tempo. Não se compra pronto na prateleira e não se produz de uma hora para outra. É preciso formar gente. Universidades e centros de pesquisa precisam preparar profissionais para as novas demandas. Institutos federais e escolas técnicas precisam conversar com a indústria. Empresas precisam se aproximar das universidades. Laboratórios precisam existir. E os estudantes precisam encontrar oportunidades para aprender fazendo. Parece uma conta simples, mas não é. Uma política mineral que não caminhe junto com educação, ciência, tecnologia e indústria corre o risco de parar justamente quando começa a ficar interessante. Durante muito tempo, nossa relação com os recursos naturais foi marcada pela lógica de tirar, embarcar e vender. O mundo compra a matéria-prima e nos vende, depois, o produto pronto, com valor agregado maior. Por isso, não basta perguntar quanto minério temos — precisamos perguntar quantos pesquisadores podemos formar nos próximos anos, quantos laboratórios estamos criando, quantas empresas brasileiras estão desenvolvendo tecnologia e quantos jovens estarão preparados para ocupar os empregos que essa nova economia vai criar. Riqueza natural é uma vantagem. Transformá-la em desenvolvimento é uma escolha. No fim das contas, o maior patrimônio não é apenas aquilo que está debaixo da terra. É a capacidade de transformar o que está debaixo da terra em conhecimento, tecnologia, indústria, empregos e oportunidades para nossa gente.