Bruxas, assombrações e folclore: o terror também tem sotaque maranhense

admin
31 Oct, 2026
Quando a noite cai sobre os casarões e becos do Centro Histórico de São Luís, histórias antigas parecem ganhar novos contornos. Carruagens misteriosas, serpentes encantadas e pedras consideradas mal-assombradas povoam o imaginário local. Enquanto o Halloween, celebrado em 31 de outubro, espalha fantasias de bruxas e fantasmas, o Maranhão guarda um repertório próprio de narrativas sobrenaturais. Para o historiador, jornalista e escritor Marcus Saldanha, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), esses relatos integram a memória coletiva e refletem a diversidade cultural da capital. “Os mitos e lendas acompanham a memória das pessoas e acabam fazendo parte da História de um lugar. Uma cidade marcada pela diversidade como São Luís não seria diferente”, afirma. Entre carruagens, serpentes e pedras mal-assombradas Uma das histórias mais conhecidas é a da carruagem de Ana Jansen, personagem do século XIX cuja imagem se tornou associada a relatos de assombração. Na leitura de Saldanha, a lenda não pode ser separada das disputas políticas da época e da resistência ao protagonismo feminino. “Ana Jansen tem cunho totalmente político das acirradas disputas do século XIX quando uma mulher detinha poder, mas não tinha direitos políticos”, analisa. Outra figura recorrente é a Serpente Encantada, presente em diferentes versões da tradição popular. Saldanha relaciona a serpente e o touro encantado a mitos encontrados em culturas ancestrais. Essas interpretações ajudam a compreender a circulação de símbolos e crenças, sem transformar elementos lendários em acontecimentos comprovados. Na Rua de São Pantaleão, a chamada pedra mal-assombrada também alimentou o medo de crianças que passavam à noite pelo Colégio Sotero dos Reis. Segundo o historiador, a pedra era parte de uma lápide do antigo Cemitério dos Ingleses que funcionou na área. O exemplo mostra como vestígios materiais podem receber significados sobrenaturais ao longo do tempo. O medo e a memória nas ruas da cidade Saldanha lembra que é preciso imaginar a São Luís de outros tempos: uma cidade sem iluminação elétrica, com acesso restrito à educação e circulação de notícias principalmente pela conversa entre moradores. Nesse ambiente, boatos, crenças e superstições podiam ganhar força. A tradição oral, contudo, também foi essencial para preservar saberes. Histórias contadas por familiares e vizinhos atravessaram gerações e passaram a ser registradas em livros e pesquisas. “Muito do que chegou a nós é uma pequena mostra de todo um universo rico que resistiu ao tempo. Por isso, conhecer é o primeiro passo para preservar e valorizar”, destaca. O universo das narrativas populares não se resume a assombrações. O historiador menciona São Raimundo dos Mulunduns, associado à proteção dos vaqueiros na região de Vargem Grande, e o Santo Barra, em Cantanhede, como exemplos de devoções populares. Para ele, a distinção entre aquilo que se chama de lenda e aquilo que se reconhece como fé também revela relações de poder e reconhecimento social. Halloween e cultura local podem dividir espaço A popularização do Halloween no Brasil está ligada à circulação de referências culturais estrangeiras, ao entretenimento e às comemorações em escolas e estabelecimentos comerciais. No material informativo da UniCesumar, a professora de História Verônica Karina Ipólito interpreta o fenômeno como adaptação cultural. “Não se trata de uma importação literal, mas de um deslocamento cultural. O Halloween brasileiro incorpora hábitos, comidas e formas de festejar típicas do nosso cotidiano”, explica. Saldanha também associa a expansão da data ao comércio e à globalização, mas lembra que personagens como Saci, Manguda, lobisomem e as chamadas visagens continuam presentes na memória de muitos maranhenses. “O interessante é observar o que permanece e o que vai sendo esquecido ao longo do tempo”, afirma. A convivência entre referências estrangeiras e tradições locais depende, segundo os especialistas, da existência de espaços para conhecer a cultura regional. A professora aponta o potencial pedagógico de abordar o Halloween junto ao folclore brasileiro; já Saldanha destaca o papel das escolas, dos artistas e dos meios de comunicação na circulação das histórias maranhenses. Preservar para que as histórias continuem Embora as rodas de conversa sobre visagens sejam hoje menos frequentes, redes sociais, publicações e atividades culturais oferecem novas formas de contar essas histórias. Para Saldanha, cinema, teatro, livros, feiras e exposições ajudam a impedir que uma única manifestação cultural ocupe todo o espaço. Ao defender a participação das famílias, das escolas e da comunidade na transmissão desse patrimônio, o historiador recorre a um provérbio africano: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Entre fantasias de Halloween e causos contados nas ruas, manter vivas as lendas maranhenses é também preservar modos de compreender a história, os medos e a identidade do próprio povo.