Os peptídeos bons e os incertos

admin
2 Nov, 2026
Os peptídeos bons e os incertos Embora não exista uma regra química rígida, didaticamente definem-se peptídeos como cadeias curtas de aminoácidos, de 2 a 50, enquanto, a partir deste número, a estrutura é considerada uma proteína. O corpo humano produz naturalmente cerca de 7.000 peptídeos, cada qual com atribuições fisiológicas específicas, como hormônios, neurotransmissores e inúmeras outras funções. Muitos destes peptídeos são sintetizados em laboratório e aprovados pelas agências reguladoras para fins terapêuticos após longas e criteriosas fases de estudos, sendo a insulina, a semaglutida (Ozempic, Wegovy, Ozivy) e a tirzepatida (Mounjaro) os mais conhecidos pelo público em geral. Porém, o que tem gerado enorme preocupação são os peptídeos produzidos e vendidos nos Estados Unidos e no mundo sem a validação das agências reguladoras, o que está causando grande repercussão nas redes sociais e, lamentavelmente, influenciando muita gente. São comercializados como “moléculas milagrosas” para inúmeros fins, com destaque para a promessa de rejuvenescimento, queima de gordura e ganho de massa muscular. Contudo, estas substâncias, habitualmente injetáveis, não foram submetidas ao crivo de estudos rigorosos, tendo sido testadas em modelos animais e, inadvertidamente, oferecidas com base em resultados não comprovados em seres humanos. O BPC-157 é um exemplo deste absurdo fenômeno comercial, com todo o conhecimento acerca desta substância proveniente de pesquisas com ratos e camundongos, nas quais demonstrou forte capacidade de regenerar tendões cortados, curar úlceras estomacais e acelerar a cicatrização de ligamentos. O TB-500 é outro composto deste grupo que promete recuperação sistêmica acelerada e regeneração tecidual para toda sorte de insultos, mas foi testado apenas em ensaios laboratoriais e em experimentos com ratos, camundongos e cavalos. Entre os mais famosos destes peptídeos estão CJC-1295 e Ipamorelina, utilizados para estimular a secreção do hormônio do crescimento (GH), visando ao ganho estético e à queima de calorias. Tanto o CJC-1295 quanto a Ipamorelina foram submetidos a pesquisas cuidadosas, mas nunca foram aprovados devido a falhas nos testes clínicos, riscos graves à segurança e à consequente falta de interesse comercial em financiar investigações adicionais. E é nesse cenário inacreditável, já com algumas mortes relatadas, que estas moléculas estão sendo vendidas e espalhadas pelas zonas cinzentas de academias e clínicas de bem-estar, também em nosso País. Cabe lembrar o velho provérbio: a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória!