Pesquisa clínica no Brasil passa de 18ª para 12ª posição no ranking
2 Nov, 2026
Costa Rica - O Brasil subiu da 18ª para a 12ª posição no ranking global de pesquisa clínica. O avanço foi um dos destaques do 14º Roche Press Day – Saúde como Investimento, encontro com a imprensa realizado em San José, na Costa Rica, no início de outubro. Para Lorice Scalise, presidente da Roche Farma Brasil, o resultado mostra a força do setor e tem efeito direto na economia. Ela lembrou que a pesquisa clínica é uma atividade produtiva, paga e reembolsada, que desenvolve os centros de pesquisa e beneficia os pacientes. fotogaleria "A população beneficiada pelo estudo é atendida gratuitamente, e o centro recebe um valor. Existe um payback, não é só um gasto", afirmou. Segundo ela, a Roche investiu em pesquisa clínica no país cerca de 15% do faturamento bruto de 2025: "Eu vendi R$ 4 bilhões e investi R$ 600 milhões no Brasil". Demanda por profissionais A projeção de crescimento de novos estudos, segundo Lorice e Waleuska Spiess, diretora de Pesquisa e Operações Clínicas da Roche Farma Brasil, tem motivado quem atua na área. Segundo Waleuska, o cenário aproxima centros de pesquisa, organizações representativas de pesquisa clínica (CROs) e laboratórios. Ela acredita que levar estudos clínicos para fora do eixo tradicional das grandes capitais como Rio e São Paulo ajuda a aliviar os custos das operadoras e do SUS, já que as farmacêuticas arcam integralmente com as despesas dos tratamentos e exames dos pacientes elegíveis. "Com essa projeção e a vinda de novos estudos, existe a necessidade de formar profissionais, tanto médicos para escrever protocolos quanto coordenadores que trabalham nos centros de pesquisa", afirmou. Ela citou ainda o incentivo do governo à inovação radical, que deve impulsionar iniciativas de capacitação. Já Scalise defendeu mudar a forma como se discute o preço de medicamentos inovadores. Em vez de focar apenas no valor da terapia, propôs comparar com o custo de não tratar, que inclui internações, invalidez e a perda de renda das famílias. "Qual é o custo de não dar a vacina? Quanto gastamos hoje para tratar esses pacientes? Há muitos custos que ninguém vê: o paciente não trabalha, entra no sistema, a mãe deixa de trabalhar para cuidar do filho", disse. A executiva também defende o modelo de pagamento por desfecho. Usando a hemofilia como exemplo, explicou que, se a criança em tratamento voltar a sangrar, o governo pode não pagar aquele ciclo até entender o motivo. "Hoje falamos muito de volume e desconto. Talvez o desfecho seja outra forma de negociar", afirmou. Sobre terapias gênicas para doenças raras, questionou a lógica de comparação: "É uma dose. Você não trata mais esse paciente por um tempo. Quanto custa um paciente crônico, tratado a vida inteira, para o sistema? Fizemos essa comparação?”, indaga. Preço sigiloso e cenário regulatório Em relação à política de preços sigilosos adotada pelo governo, Scalise disse ter dois sentimentos. Como cidadã, valoriza a transparência do país. Do ponto de vista geopolítico, porém, considera o sigilo uma estratégia adequada diante da política americana que busca fixar o menor preço praticado no mundo. "Quando o nosso preço é público, os outros países se beneficiam em suas negociações. Hoje a transparência pode ser uma barreira", disse. Segundo ela, o sigilo pode abrir espaço para condições melhores, dado o volume e o tamanho da população brasileira. Na área regulatória, a profissional elogiou a Anvisa, que classificou como uma das agências mais renomadas do mundo, e afirmou que o problema se restringe às filas de análise. Para ela, o principal desafio está na etapa de incorporação, na Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) e no Ministério da Saúde, onde a questão orçamentária pesa. Mais uma chance Em novembro de 2002, a vida da professora primária Iris Arias, da Costa Rica, mudou. Aos 40 anos, foi diagnosticada com câncer de mama do tipo HER2-positivo. Naquela época, era considerado um dos subtipos mais agressivos e rápidos da doença. Passou pela mastectomia radical (cirurgia para retirada total da mama) e sessões intensas de quimioterapia. Ainda assim, a perspectiva dos médicos era desanimadora: Iris tinha estimativa de vida de apenas dois anos. O que parecia ser uma sentença de fim virou uma história de superação graças ao acesso à inovação. Iris teve a oportunidade de participar de um ensaio clínico (pesquisa científica com novos medicamentos para o câncer). Através da ciência e da testagem de terapias-alvo inovadoras, ela não apenas venceu a estimativa inicial de dois anos, como transformou sua trajetória em um marco para toda a América Latina e hoje leva uma vida normal. Investimento estratégico para a saúde Em sua apresentação no painel Saúde é Investimento, Brad Herbig, diretor de dados de saúde e análise do McKinsey Health Institute e um dos pesquisadores do estudo "A Saúde das nações: Saúde mais forte, economias mais fortes" , mostrou os números do retorno econômico e social que um investimento estratégico e direcionado em saúde pode gerar até 2050. Ele disse também que a expectativa de vida aumentou, mas que as pessoas estão passando mais tempo com saúde ruim. Com investimento, esse cenário pode ser modificado. Os dados dividem-se em dois cenários, o impacto global e o recorte para o Brasil, e se baseiam nesse estudo. Segundo Herbig, aumentar os aportes de forma correta pode acrescentar mais de R$ 1 trilhão ao Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Em entrevista aos jornalistas, ele falou sobre o que pode ser feito para melhorar a saúde das nações de forma rápida e eficaz: "É uma combinação de ações no curto prazo com alguns investimentos de longo prazo em coisas como prevenção. Alguns exemplos seriam garantir que as pessoas tenham acesso a tratamentos comprovados e que possam ser diagnosticadas precocemente, quando esses tratamentos são mais eficazes. Intervenções de excelente custo-benefício, como anti-hipertensivos e estatinas, podem realmente reduzir o risco de doenças futuras, são muito viáveis economicamente e fáceis de aplicar; garantir que as pessoas tenham acesso e consigam obter isso cedo é fundamental", analisa Brad. Transformação é necessária Questionado sobre o investimento necessário na região, Herbig disse não ter um número exato para toda a América Latina. Para ele, o resultado completo exige uma mudança transformadora na escala de acesso a essas intervenções, com diagnóstico precoce. Mesmo que se avance apenas parte do caminho, afirmou, já há potencial de transformar a saúde. Por isso, defendeu que o foco seja menos o valor total e mais a forma como o dinheiro é gasto. "Acho que tudo começa entendendo como é o cenário de doenças no país: quais são as enfermidades que mais geram incapacidade e morte prematura, quais são os principais fatores de risco e, para cada um deles, pensar em como podemos tratar a doença que já está presente e prevenir que ela aconteça no futuro. Vai exigir uma combinação de ambas as abordagens e uma estratégia multidisciplinar”, disse. Herbig acrescentou que promover a saúde preventiva e expandir o acesso a cuidados primários de qualidade não apenas evita sofrimento desnecessário e mortes prematuras, mas transforma a sociedade. "Cuidar preventivamente da população permite que cada indivíduo ganhe mais anos de vida com plena disposição, reduz o desgaste de familiares que se desdobram como cuidadores informais e melhora o desempenho escolar e o futuro das crianças. Além do ganho humano imensurável, cada dólar investido na saúde do cidadão gera um retorno econômico direto de US$ 2,50, impulsionado por uma força de trabalho mais disposta, produtiva e presente. Cuidar da saúde das pessoas é o único caminho sustentável para o desenvolvimento social e financeiro da região”, finalizou. Enviada especial a convite da Roche Farma Brasil