A exclusão digital que desconecta cidadãos
5 Nov, 2026
A internet cabe na palma da mão e é — utilizando uma expressão conhecida — uma enorme “mão na roda”. Com alguns toques na tela, é possível procurar emprego, fazer cursos, consultar benefícios sociais, marcar consultas médicas e até abrir um negócio. Para milhões de pessoas, porém, esse mundo permanece distante. Segundo dados do IBGE, cerca de 22 milhões de brasileiros ainda estão excluídos digitalmente. O problema não se resume à falta de sinal. Muitas vezes, falta dinheiro para pagar o plano de internet, comprar um computador ou trocar um celular antigo. Em outros casos, falta conhecimento para utilizar as ferramentas disponíveis. A conexão existe, mas nem sempre é suficiente para abrir as portas que a tecnologia promete. Estudos sobre o tema indicam que apenas 10% dos domicílios das classes D e E possuem computador, contra 97% dos lares da classe A. O celular quebra alguns galhos, mas não substitui inteiramente um computador para quem precisa estudar, elaborar documentos ou realizar tarefas profissionais. Para famílias de baixa renda, o custo dos equipamentos e da conexão disputa espaço com despesas muito mais urgentes, como alimentação, moradia e transporte. Há, ainda, quem não saiba utilizar a internet ou não reconheça sua importância. Entre as razões apontadas para a falta de acesso estão o desconhecimento sobre como navegar na rede, mencionado em 33,2% dos casos, o custo elevado, com 30%, e a percepção de que a conexão não é necessária, com 23,4%. Por isso, distribuir sinal não resolve tudo. É preciso ensinar a utilizar a tecnologia, identificar fraudes, proteger dados pessoais e distinguir informações confiáveis de notícias falsas. O letramento digital tornou-se uma necessidade para quem deseja estudar, trabalhar e participar da sociedade. Na escola, a falta de equipamentos e de uma boa conexão pode comprometer a aprendizagem. No mercado de trabalho, limita oportunidades de qualificação e dificulta o acesso a vagas que exigem conhecimentos digitais. Para pequenos empreendedores, significa menos condições de divulgar produtos, conquistar clientes e ampliar os negócios. Nas áreas rurais e nas periferias urbanas, a infraestrutura insuficiente agrava esse cenário. Enfrentar o problema exige políticas públicas que combinem expansão da rede, redução dos custos, distribuição de equipamentos e capacitação gratuita. Um exemplo é o Programa Internet Brasil, instituído pela Lei nº 14.351/2022, criado para oferecer acesso gratuito à internet móvel a estudantes da educação básica pública de famílias inscritas no Cadastro Único. Municípios também podem fazer sua parte, instalando pontos de Wi-Fi gratuito, criando laboratórios públicos de informática e oferecendo cursos em escolas, bibliotecas e centros comunitários. Idosos, estudantes, trabalhadores e pequenos empreendedores devem estar entre os beneficiados. E, enquanto a inclusão não chegar a todos, os serviços públicos precisam preservar alternativas de atendimento presencial e telefônico. Afinal, de pouco adianta transferir serviços para a internet se parte da população não consegue acessá-los. A modernização só cumpre seu papel quando facilita a vida das pessoas, em vez de criar novos obstáculos. Em uma sociedade cada vez mais conectada, ficar de fora significa perder oportunidades e, muitas vezes, ter direitos dificultados. Democratizar a internet é mais do que ampliar a cobertura das operadoras: é garantir condições para que todos possam aprender, trabalhar, empreender e exercer a cidadania. A tecnologia pode aproximar pessoas e reduzir distâncias; mas, sem políticas de inclusão, também corre o risco de ampliar desigualdades.