Exposição na capital convida público a descobrir o Cerrado
6 Nov, 2026
Terra de diferentes regiões do Cerrado, ervas medicinais, cupinzeiros e referências à fauna e à flora do bioma compõem as obras de “Cerrado Cósmico”, exposição individual do artista visual e professor Lemuel Gandara, na The Gallery Fernanda Curado, na Asa Norte. Resultado de dez anos de pesquisa e imersões pelo território, a mostra propõe uma experiência que ultrapassa a observação tradicional da arte, com trabalhos que convidam o público a explorar texturas e aromas, especialmente pessoas cegas e com baixa visão. Desde 2016, Lemuel percorreu mais de 7 mil quilômetros em diferentes regiões do Cerrado. O processo de criação envolve viagens, observação, silêncio e conversas com moradores, além do contato direto com a natureza. O artista busca compreender as diferentes formas de vida que constituem o bioma e as relações que se estabelecem entre elas. “Minha metodologia é imersiva. Eu vou para lugares do Cerrado, vivencio o lugar, faço um processo de escuta, de imersão, de silêncio, de conversa com a natureza e com as pessoas”, conta. Essa investigação aparece em trabalhos que incorporam elementos encontrados pelo artista durante as viagens. Terras de diferentes localidades, cupinzeiros e referências a árvores nativas ajudam a construir uma representação do Cerrado que não se limita às imagens mais conhecidas do bioma. A intenção é chamar a atenção também para aquilo que costuma passar despercebido. A relação de Lemuel com esse território, no entanto, começou ainda na infância. Nascido em Goiânia, o artista cresceu em uma região rural, cercado por áreas de Cerrado preservado. As mudanças entre os períodos de chuva e seca, a terra vermelha, o cheiro das flores e a presença de pequenos animais marcaram suas primeiras experiências com a natureza. “Meu corpo é um corpo de Cerrado. Eu comecei a pensar sobre isso e me senti parte dessa rede de interdependência”, afirma. Para ele, a vida urbana e a rotina cada vez mais concentrada nas telas e nos escritórios contribuem para o distanciamento das pessoas em relação ao ambiente natural. A exposição também nasce do desejo de provocar essa reconexão. Memória e ancestralidade Entre as referências que atravessam a mostra está a avó materna do artista, que era benzedeira e raizeira. Os conhecimentos tradicionais transmitidos por ela, especialmente sobre o uso de ervas medicinais, fazem parte da construção de algumas obras e aproximam a produção artística da memória familiar. Uma das instalações, intitulada “A Pedra, a Terra e a Reza”, retoma essa herança por meio de elementos ligados às práticas da avó. As ervas utilizadas na composição remetem aos ensinamentos que Lemuel recebeu e à relação entre natureza, cuidado e espiritualidade. A proposta é que a exposição também funcione como um espaço de acolhimento e reflexão sobre as experiências individuais. Ao incorporar essas referências afetivas, o artista busca aproximar a ancestralidade presente na história de cada visitante daquela que reconhece na própria terra. “Minha avó me ensinou a trabalhar com essas ervas, e eu trouxe isso para a exposição. Quero que as pessoas levem esperança e uma abertura para se curar, porque a cura nasce primeiramente em nós e depois se manifesta”, explica. Arte para além da visão A presença de obras táteis e olfativas também está relacionada a uma investigação pessoal do artista sobre outras formas de perceber o mundo. Lemuel conta que o interesse por experiências sinestésicas ganhou força durante um processo de terapia, quando foi incentivado a explorar os sentidos para além da visão. A experiência como professor também teve influência nessa mudança. Ao conviver com estudantes cegos, passou a refletir sobre como a percepção do ambiente pode acontecer de diferentes maneiras. Uma conversa com um aluno, que o provocou a mudar a posição dos ouvidos para perceber outros sons ao redor, ficou marcada em sua trajetória. “Quando fui me abrir para outros tipos de sentir o mundo, parece que o mundo se expandiu. Existem tantas formas de sentir, de ver e de tocar que podemos trabalhar mais isso para a arte não ficar refém só do olhar”, relata. Na exposição, essa reflexão se materializa em obras que permitem o contato direto com diferentes materiais. Para Lemuel, o toque também representa uma forma de troca entre o visitante e o trabalho artístico. Ele acredita que as mãos carregam energia e que cada pessoa deixa um pouco de sua experiência ao interagir com as obras. Brasília nas obras e na trajetória Radicado na capital desde 2013, Lemuel chegou à cidade para cursar o mestrado em Literatura na Universidade de Brasília (UnB). O início da trajetória, porém, foi marcado por dificuldades. Sem ter onde ficar, chegou a dormir na Rodoviária do Plano Piloto enquanto frequentava as primeiras aulas. A lembrança é acompanhada pelo carinho que desenvolveu pela cidade. O artista conta que acreditava que a mudança valeria a pena e que encontrou em Brasília um lugar onde poderia construir sua trajetória. Essa relação aparece em referências como o Pirá-Brasília, pequeno peixe encontrado na região e que inspirou uma das obras da exposição. O céu da capital também está presente em “Portal”, trabalho que abre a mostra e foi inspirado nas cores do pôr do sol de junho no Lago Paranoá. Outra obra reúne uma história de perda e resistência. Uma cagaiteira com a qual Lemuel mantinha uma relação de aproximadamente 11 anos foi cortada e incendiada. Ao saber do ocorrido, o artista recolheu os galhos queimados e utilizou o material na composição de uma instalação. No interior da obra, um ninho com ovos dourados representa a possibilidade de renovação mesmo depois da destruição. Ao falar sobre o que espera dos visitantes, Lemuel destaca que cada pessoa poderá estabelecer uma conexão própria com as obras, seja pela memória, pelo contato com os materiais ou pelas sensações despertadas durante a visita. “É uma ponte entre a arte e a ancestralidade que habita em cada um de nós e essa ancestralidade que pulsa na terra”, define. Serviço Cerrado Cósmico – Exposição individual de Lemuel Gandara Período: Até 18 de dezembro de 2026. Local: The Gallery Fernanda Curado. Endereço: SCLN 307, Bloco A, lojas 5 a 7, Asa Norte, Brasília. Entrada: gratuita Acessibilidade: conjunto de obras táteis e olfativas, com atenção especial a pessoas cegas e com baixa visão. Programação: exposição, visitas guiadas mediante agendamento e oficina de produção artística sustentável e escrita criativa.