Beijo de língua gay em ‘Quem Ama Cuida’ sela a morte do galã machão na TV
6 Nov, 2026
GUILHERME LUIS SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) Os atores João Victor Gonçalves e Pietro Antonelli deram um beijão de língua no horário nobre da Globo. Foi numa cena da novela "Quem Ama Cuida", exibida na semana passada. Nela, Antonelli agarra Gonçalves pelo pescoço e o joga contra a parede. Após boa repercussão na internet, os atores agora vão gravar uma cena de sexo. Será a primeira entre dois homens numa novela das nove da emissora. Isso ilustra uma mudança na fábrica de galãs que é a televisão brasileira. Abertamente gay, Gonçalves, de 24 anos, está na pele de Mau Mau, um garoto que rapidamente ganhou a simpatia da audiência. É o primeiro grande papel dele nas telenovelas. Já Antonelli, que interpreta Felipe, vem sendo chamado de galã da nova geração. O ator é heterossexual, tem 21 anos e também está estreando na TV. Ser visto beijando outro homem era algo impensável para os mocinhos do passado. Rapazes que miravam uma carreira nas telinhas deviam seguir o modelo de masculinidade tradicional, demonstrando virilidade e despertando desejo nas mulheres, dizem empresários e atores. Reynaldo Gianecchini só declarou que já tinha se envolvido com homens 19 anos após estrear nas novelas em "Laços de Família", de 2000. O ator disse à reportagem que especulações sobre sua sexualidade o amedrontavam. "Sentia calafrios e um peso na nuca, como se algo estivesse me oprimindo", afirmou Gianecchini quando lançou a peça "A Herança", sobre um romance gay, há três anos. Algo parecido aconteceu com Marco Pigossi. Seu primeiro personagem de destaque numa novela foi o Cássio de "Caras e Bocas", em 2009, famoso pelo bordão "estou rosa-chiclete". Pigossi disse à revista Piauí que também sentia calafrios ao imaginar que o público desconfiava que ele era gay como Cássio. Logo depois, Pigossi virou galã ao interpretar uma série de protagonistas másculos. Longe das novelas há oito anos, ele se casou com o produtor italiano Marco Calvani e foi viver em Los Angeles. Passou a se dedicar ao cinema. Carmo Dalla Vecchia também saiu do armário em 2021. Fez isso na TV Globo, emissora que o contratou 26 anos antes para a novela "Cara & Coroa". Seu papel de maior destaque foi o mocinho de "A Favorita", de 2008, trama escrita por João Emanuel Carneiro, com quem o ator estava casado em segredo desde 2006. Eles seguem juntos e têm um filho. "Já ouvi que nenhum diretor ou autor iria me querer nas novelas se eu contasse ser gay", diz Dalla Vecchia. "Mas vejo avanços. Caminhamos para o momento em que a orientação sexual do ator não vai definir os papéis dele." Além de João Victor Gonçalves e Pietro Antonelli, a novela "Quem Ama Cuida" quer emplacar também outro jovem ator por meio de um personagem bissexual. Pedro Alves, de 33 anos, interpreta Fernando, que ameaça formar um triângulo amoroso com Mau Mau e Felipe. "Adoraria fazer um galã, embora não fique preso nessa ideia porque mexe com o ego", afirma Alves, que também é bissexual. "Quem Ama Cuida" é o terceiro folhetim dele. Fez personagens LGBTQIA+ nas três obras. "Não tenho medo de ficar preso a um estereótipo. Sei interpretar heterossexuais e meu personagem atual pode abrir caminhos", diz. Ele lembra o ator Amaury Lorenzo, que fez o capataz Ramiro em "Terra e Paixão", de 2023. Bruto, o personagem termina casado com um rapaz afeminado. À época, ele declarou ser LGBTQIA+ como seu personagem. Depois, ele fez um homem heterossexual no folhetim "Três Graças" e agora encarna outro em "Por Você". Homens e mulheres elogiam o corpo musculoso dele nas redes. Antes, um homem só era considerado galã se tivesse olhos claros e parecesse o boneco Ken, o namorado da Barbie, diz o agente Leandro Alencar, que há 20 anos trabalha com atores no Rio de Janeiro. A cidade é polo da TV no país e sede dos estúdios da Globo. Segundo ele, a insegurança dos atores quanto à sexualidade fazia sentido no passado. "Principalmente quando se tratava de homens afeminados", afirma. Na década de 1970, Tarcísio Meira e Francisco Cuoco ajudaram a estabelecer o galã de novela, diz o pesquisador Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela Universidade de São Paulo. Os dois atores faziam sucesso com personagens ligados à masculinidade viril e à capacidade de proteger mulheres. Aos poucos, a televisão passou a aceitar homens mais sensíveis, capazes de demonstrar fragilidade. O próprio Cuoco ajudou nessa mudança, diz Alencar, quando topou interpretar um homem afetuoso no remake de "Pecado Capital", em 1998, distante dos machões que fazia antes. Parte do público estranhou o registro. Mas nessa época ainda não havia espaço para questionamentos sobre a heterossexualidade dos atores, afirma o pesquisador. "O herói tinha que gostar de mulher, ponto final." O cenário começou a mudar no final dos anos 2000, quando as redes sociais tornaram a rotina dos atores parte essencial da sua imagem pública. Mentir sobre a sexualidade ficou mais difícil. Um exemplo dessa transição é Johnny Massaro. O ator começou a carreira ainda aos 11 anos e passou 16 deles sem falar publicamente sobre sua homossexualidade. Há cinco anos, declarou ser gay e, mesmo assim, conseguiu um papel importante em "Terra e Paixão" dois anos depois. Além disso, a internet deu aos espectadores mais poder para pressionar por mudanças. "Histórias LGBT geram consumo, e os executivos estão vendo isso", diz Mauro Alencar. "Seria ignorância deixar isso de fora dos folhetins." Por isso, "Quem Ama Cuida" vai dar mais espaço ao triângulo amoroso entre Mau Mau, Felipe e Fernando. A emissora notou que a trama entre eles gera torcida e engajamento nas redes. Plataformas da Globo já publicaram no Instagram 16 vídeos envolvendo o trio desde a semana passada. Cinco deles tiveram mais de 1 milhão de visualizações. Os fãs esperam excitados pela primeira transa de Mau Mau e Felipe. Segundo pessoas ligadas à produção da novela, o teor sensual da cena deve ir até o limite permitido pelo horário, conforme instruído no roteiro. "Quem Ama Cuida" é recomendada para maiores de 14 anos. A gravação deve ocorrer nesta semana. Pedro Alves, o intérprete de Fernando, vê aí uma estratégia para atrair jovens à TV aberta. Hoje a Globo compete com plataformas de streaming internacionais que há anos povoam suas produções com casais LGBTQIA+. Existem histórias fofas, como a série "Heartstopper", da Netflix, e outras mais eróticas, caso de "Rivalidade Ardente", da HBO Max. "O streaming e as redes sociais fizeram a TV aberta se abrir para a representatividade. As pessoas querem se ver nas personagens, não mais os modelos de antes", diz o diretor de elenco Diogo Ferreira. Ele escolheu os atores do filme "Quinze Dias", romance gay lançado neste ano. O longa é protagonizado por Diego Lira e Miguel Lallo, que têm 21 anos e vêm sendo apontados como promessas. Lira interpreta Caio, um rapaz sarado e bom em esportes que se apaixona pelo vizinho. Lallo, por sua vez, encarna Felipe, que vive inseguro com seu corpo gordo. A surpresa da trama está na quebra da expectativa de que Caio, ligado à masculinidade tradicional, não seja heterossexual. Fora das telas, Lira reforçou o contraste entre o estereótipo de masculinidade e a sexualidade do seu personagem quando foi à pré-estreia do filme usando um espartilho, peça historicamente associada ao guarda-roupa feminino. Com uma calça larga da mesma cor, dava a impressão de que o ator estava usando vestido. "Sou privilegiado por ter um corpo mais aceito pela sociedade. Decidi me aproveitar disso. Quero que vejam esse corpo padrão, mas não de um jeito igual ao dos outros atores. Eu adoro me maquiar", afirma Lira. A mudança, porém, ainda está em curso. O diretor de elenco Diogo Ferreira conta que atores recuaram ao descobrir que "Quinze Dias" era uma história queer. "Diziam que não era o lugar de fala deles", diz o diretor. "Ué, a pessoa pode interpretar um bandido, mas não um homem gay?"