Hélio Ziskind, o compositor que não precisa gritar para ser ouvido por milhões de pessoas

admin
7 Nov, 2026
Hélio Ziskind, o compositor que não precisa gritar para ser ouvido por milhões de pessoas Autor das canções do Castelo Rá-Tim-Bum e do Cocoricó, o músico paulistano conta ao Trip FM por que música para criança não precisa gritar, lembra os tempos do Grupo Rumo e explica que compõe a partir de uma certa melancolia, e não da alegria da infância Hélio Ziskind / Créditos: Divulgação/Sesc Publicidade No décimo andar de um prédio paulistano, alguém ouve um som tão baixo que fica em dúvida se ouviu mesmo. Passa um segundo de silêncio, as duas notas da flauta voltam a ecoar entre os edifícios e a pessoa enfim entende que o caminhão de gás está na rua. A cena é descrita por Hélio Ziskind para explicar o raciocínio por trás da melodia que compôs em 1989 para a Ultragaz, encomendada para substituir a buzina dos caminhões. A ideia era um som que chegasse mais longe do que a buzina e soasse mais delicado. Segundo ele e a própria empresa, as vendas dobraram em Heliópolis e no Morumbi depois da trilha. Em 1991, uma lei municipal acabou proibindo a buzina dos caminhões de gás em São Paulo. Em 2017, um garoto pôs batida de funk embaixo da melodia de Ziskind, acrescentou um “ó o gás” e o resultado virou hit de Carnaval. Ziskind nasceu em 1955 em Pinheiros, na Rua Teodoro Sampaio, onde os pais tinham uma loja. Estudou composição na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e, em 1974, fez parte da turma reunida por Luiz Tatit que deu origem ao Grupo Rumo, um dos nomes centrais da Vanguarda Paulistana, em atividade até 1992 e onde Ná Ozzetti começou a carreira, em 1979. Ainda com o Rumo na estrada, começou a trabalhar na TV Cultura nos anos 1980, compondo vinhetas, temas institucionais e aberturas de programas como Jornal da Cultura, Repórter Eco e Nossa Língua Portuguesa. Dali passou aos infantis: Glub Glub, X-Tudo, Rá-Tim-Bum, o Castelo Rá-Tim-Bum, onde foi consultor de música e assinou os passarinhos de “Que Som É Esse?” e o ratinho que toma banho, e o Cocoricó, cujas canções compôs de 1996 a 2008. Um conceito atravessa toda a entrevista com Ziskind: o de que a criança não precisa de barulho para ser tocada pela música. Ele aparece na crítica ao que o compositor chama de festa permanente da TV infantil, na saudade da vitrolinha no quarto e até no cuidado com a própria voz, que aos 71 anos reaprende a usar com uma fonoaudióloga. Ziskind recusa, no entanto, a imagem de adulto que nunca deixou de ser criança. Diz que compõe a partir de outro lugar, uma melancolia que vem da infância, o tal do blues. Hoje vive de direitos autorais, é a própria gravadora e a própria editora, produz com o parceiro Ivan Rocha os vídeos do Canal Zis, no YouTube, e compôs as nove faixas do audioguia infantil do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Abaixo, os melhores momentos da conversa com Ziskind. Você também pode ouvi-la completa no play desta página, no Spotify, Deezer, YouTube, Apple Podcasts e em outras plataformas de áudio. E tem mais: as entrevistas do Trip FM voltaram, com grande alegria, aos agora 107,9 MHz da Eldorado FM. Trip FM: Uma coisa na sua biografia que me chamou atenção é a sua ligação com Pinheiros, bairro onde eu também estudei nos anos 1970. Você já nasceu aqui? Como era a sua família? Hélio Ziskind: Eu nasci em Pinheiros, no cruzamento da Rua Teodoro Sampaio com a Cunha Gago. Meus pais tinham um comércio por ali, uma loja que vendia relógios, alianças, joias. E era muito interessante crescer ali, porque a vivência judaica em Pinheiros não tinha nada a ver com a dinâmica de ser judeu no Bom Retiro, por exemplo. Estudei a vida inteira na Escola Estadual Professor Alves Cruz, que era um colégio público formidável. E o melhor de tudo naquela época, cara, era pegar a bicicleta com uns 13 ou 14 anos, descer a Cunha Gago e pedalar em direção à USP. O caminho todo até o campus era praticamente um matagal sem fim. Trip FM: E a influência judaica, foi definidora ou foi se diluindo com as gerações? Hélio Ziskind: Hoje em dia é completamente diluído: sou o judeu mais fajuto que se pode imaginar, não sobrou nem Deus. Agora, durante a infância, para os meus pais o pertencimento comunitário e as tradições eram coisas muito importantes. Eu fiz o meu bar mitzvah na Congregação Israelita Paulista. Eu adorava cantar e aprendi todas as melodias tradicionais para a cerimônia. Lembro do chazan, o cantor litúrgico, me ensinando a ler o texto sagrado: entre as letras em hebraico, no papel da Torá, há os sinais de cantilação que indicam as notas, a hora em que a voz sobe, a hora em que a entonação desce. Depois dessa fase, eu cheguei até a cantar um tempo na sinagoga: era uma espécie de “cantor bossa nova de sinagoga”, com uma levada mais suave. Trip FM: Quem observa a sua obra tem a impressão de que você já veio com o software instalado de fábrica, plug and play. Foi assim, ou exigiu muita ralação? Hélio Ziskind: Cara, eu nunca fui plug and play, vou te confessar. Foi na base de muita ralação. É evidente que existia algum talento inato, uma via de comunicação direta entre a música e a matéria de que sou feito. Mas eu sempre fui muito disperso, muito “borboleteante”, me interessando por mil coisas ao mesmo tempo. O que virou a chave para mim foi a chegada do computador na produção musical e, sobretudo, a oportunidade de trabalhar diretamente para a TV Cultura, compondo trilhas e canções em lotes industriais, uma atrás da outra. Isso ligou o meu motor de vez. No Rumo, compus apenas três canções autorais. Na TV Cultura, mergulhei de cabeça no universo infantil e compus quase duzentas músicas. Alguma comporta se abriu dentro de mim, uma conexão profunda com o imaginário da infância que destravou tudo. Trip FM: Você se tornou conhecido nacionalmente pelo trabalho na TV Cultura, das aberturas de programas como o Roda Viva às canções infantis que viraram hinos. Como foi parar lá, e como era o processo? Hélio Ziskind: Eu entrei na TV Cultura na época em que a Beth Carmona estava lá, foi através dela. Comecei fazendo as trilhas dos programas adultos, as vinhetas de abertura e a identificação sonora da emissora. Aos poucos, foram chegando as encomendas de aberturas para os programas infantis, e ali era um espaço de piração total. Depois, começaram a surgir os pedidos para compor canções para dentro dos episódios, e aí o modo de fazer explodiu de vez. O Cao Hamburger é quem exercia esse papel de interligação total. No quadro dos passarinhos, o Que Som É Esse?, os atores vinham gravar o áudio aqui no meu estúdio primeiro e, depois, dublavam a própria voz durante a gravação na TV. Já o quadro do ratinho tomando banho era diferente: as animações chegavam mudas e prontas aqui para a gente sonorizar. Éramos um consórcio de oito músicos dividindo aquela demanda enorme. Trip FM: Vi você dizer que considera o Cocoricó o seu trabalho mais importante na TV. Por quê? Hélio Ziskind: Porque ali eu tive muito espaço. Era uma equipe muito pequenininha, num estúdio menor, mas todos com um timing absurdo. No começo do trabalho, eu achei que eu mesmo ia cantar as músicas todas, tanto que, na primeira música, a minha voz ainda está lá. Mas depois decidimos: “Não, os próprios personagens é que vão cantar”. E, se eles iam cantar, os bonequeiros teriam que vir ao meu estúdio uma vez por semana para gravar. Então começou um processo incrível: os atores foram encontrando a voz definitiva dos personagens durante a gravação e foram cantando cada vez melhor. No Castelo Rá-Tim-Bum, as faixas tinham que durar um minuto; no Cocoricó, o tempo passou para três, e cheguei a fazer músicas de oito minutos. Essa expansão de tempo musicalizou o programa de barba e cabelo. A única chateação era o modelo de contrato da TV Cultura: eles fechavam pacotes de 13 ou 23 episódios, contratavam todo mundo e, quando a temporada acabava, demitiam a equipe inteira. Ficava aquele pisca-pisca. Trip FM: Tem uma história sua sobre o Fernando Gomes, criador e manipulador do Júlio, e a dificuldade dele para encontrar o tom. Hélio Ziskind: O Fernandinho era uma figura! Quando ele ia gravar com a voz do Júlio, a gente precisava aproveitar o primeiro ou o segundo take. A partir do terceiro, ele começava a racionalizar demais, perdia a referência e desafinava completamente. E eu ficava pensando nisso em relação às crianças, porque a afinação é um mistério fascinante: há crianças que afinam com naturalidade absoluta e há crianças que têm enorme dificuldade. Nas escolas de música, costumam chamar essas crianças de “zumbidoras”. Eu sempre tive uma obsessão bonita por compor canções que ajudassem a criança a encontrar o tom. Um belo dia, estávamos gravando aqui no estúdio a música “O Rio e os Pingos”. A canção começava com uns pinguinhos caindo, que iam se juntando até formar o rio, e o rio era simbolizado por uma nota longa e contínua. De repente vinha o sol, secava a água, a música mudava de atmosfera e, compassos adiante, voltava a chover e o rio reaparecia. Ou seja: o cantor precisava guardar na memória aquela nota que tinha ficado em silêncio por um tempão. Cara, todos os atores e manipuladores do Cocoricó que estavam no estúdio deram as mãos e fizeram uma roda em volta do Fernando, todos de olhos fechados. Quando a harmonia preparou a volta do rio, a turma inteira se concentrou emanando energia para ele. E o Fernando cravou a nota no centro exato da afinação! Parecia final de Copa do Mundo, todo mundo pulando e comemorando como se fosse um gol de placa. E foi só aquela vez, porque no take seguinte ele já desandou de novo. Trip FM: Conversando com você, fica a sensação de que você não permitiu que o mundo te impedisse de ser criança. Faz sentido essa leitura de que você se recusou a ser encaixotado? Hélio Ziskind: Olha, vou te confessar uma coisa: não sinto que volto a ser criança quando estou criando. Às vezes, quando começo a fazer palhaçadas e brincadeiras corporais, até dou uma risada de mim mesmo. Mas a pulsão de compor, de encontrar as imagens poéticas e de construir pontes através da melodia, eu não associo isso à infância. Eu associo isso ao blues, no sentido da melancolia. Eu não fui uma criança especialmente feliz; eu tenho dentro de mim um blues daquele período. Mas eu tenho um fascínio imenso por esse estado em que você se concentra profundamente, é capturado por uma ideia e se deixa transportar por ela. Quando consigo atingir esse transe, é quase como pegar uma onda. Eu não surfo, mas imagino que seja muito parecido: você entra no fluxo da água, segue aquela linha e aquilo te leva para um lugar inédito. Dali nasce uma canção, a gente grava, lança no mundo e já parte para a próxima. E as crianças parecem embarcar com muita verdade nessa viagem. Os pais sentem prazer em proporcionar isso aos filhos. É um lugar muito generoso e bonito de habitar. Trip FM: Você costuma dizer que não é o excesso de decibéis que toca a sensibilidade infantil. De onde vem essa mania de achar que conteúdo para criança precisa ser um comercial histérico em ritmo de micareta? Hélio Ziskind: Criou-se uma convenção na indústria de que a música para a infância tem que ser permanentemente festiva, histérica, com uma batida acelerada que nunca pousa, nunca respira, nunca oferece silêncio. E a criança é plenamente capaz de ter curiosidade pelo som puro, de se encantar com um detalhe tímbrico. Na época do Castelo, mães me ligavam contando, maravilhadas, que seus filhos de 2 anos estavam pedindo para aprender a tocar harpa, porque tinham ficado hipnotizados pelo timbre do instrumento em uma das canções. O drama atual é que somamos o alto-falante minúsculo e mequetrefe do celular ao fato de a música ter sido aprisionada dentro de uma tela. A criança perdeu a autonomia de ter no próprio quarto uma vitrolinha, onde ela pudesse pegar o seu disquinho, colocar na agulha, escutar a faixa favorita e trocar na hora em que bem entendesse. Tenho a impressão de que, se colocássemos uma vitrolinha analógica no quarto de cada criança, muitas coisas voltariam para o seu devido lugar. Essa histeria da festa permanente foi moldada pela era das apresentadoras de auditório dos anos 1980 e 1990, que transformavam a infância numa espécie de matinê eletrônica ininterrupta. Eu não sei se a minha música atinge multidões, mas ela instaura um clima: um espaço de acolhimento e delicadeza onde pais e filhos se encontram. LEIA TAMBÉM: O peso que um entregador carrega nas costas Trip FM: Vamos aos caminhões de gás. Antes deles, era buzina sem dó pelos bairros. Como nasceu a ideia de fazer o caminhão chegar de mansinho? Hélio Ziskind: Havia um inventor paulistano que queria vender uma ideia para a Ultragaz: instalar um chip de áudio nos caminhões. Naquela época, as frotas que tentavam tocar algum som usavam toca-fitas cassete, mas os aparelhos viviam quebrando com o sacolejo dos paralelepípedos e não aguentavam duas semanas. Ele me procurou e disse: “Queria que você compusesse a música”. Comecei a teorizar: “Esse som precisa alcançar mais longe do que uma buzina, mas precisa soar infinitamente mais delicado. E vou tentar usar o próprio som do bujão de gás!”. Fui para o estúdio tentar gravar a batida no bujão de metal. Ficou horrível: o bujão tem um ataque percussivo estridente, mas não tem corpo. Comecei a fuçar nos sintetizadores e, partindo da emulação de um steel drum caribenho, cheguei a um timbre arredondado. Pensei: “Isso aqui vai virar uma marimba do Steve Reich!”. Compus aquela melodia com flauta bem aguda, intercalando duas notinhas com pausas generosas de silêncio. Cerca de 45 dias depois, a diretoria me ligou: “As vendas dobraram no Morumbi e em Heliópolis ao mesmo tempo!”. A música tinha dialogado com a cidade inteira. Pouco tempo depois, eles me procuram aflitos: “Hélio, vamos precisar colocar voz na música!”. A prefeitura tinha proibido o buzinaço dos caminhões de gás, e os concorrentes começaram a gravar o nosso jingle da rua e instalar nos caminhões deles. Convidei a Vânia Bastos, que tem uma voz límpida, angelical, e gravamos: “Ul-tra-gaz”. Só que o chip daquele tempo não conseguia processar a fricativa do “S”. Tocava tudo perfeitamente, mas quando chegava no final ficava “Ul-tra-gá”. Aí entrou um engenheiro genial no projeto com um microchip dedicado exclusivamente a processar o “S”. Gravamos apenas a consoante isolada com a Vânia e ele fundiu os circuitos na placa. Foi um casamento perfeito entre pesquisa de composição, concepção estética e gambiarra tecnológica de ponta. Leia também: Como educar meninos na era Red Pill Trip FM: Você está com 71 anos, como já mencionou aqui. Como tem sido habitar esse trecho da estrada? Hélio Ziskind: Eu estou tentando decifrar essa página; o horizonte não é exatamente nítido. Tenho buscado desacelerar o ritmo, mas a vida cotidiana cobra muitas tarefas: cuido da minha mãe idosa, tenho filhos, tenho netos… É um volume de demandas que vai subindo pelos pés e não dá trégua. Ao mesmo tempo, tenho buscado uma reconexão profunda com o meu próprio corpo. Estou fazendo fonoaudiologia e investigando com muita curiosidade essa nova voz que tenho hoje. Não sinto uma diminuição na energia vital; sinto, na verdade, uma vontade madura de permanecer mais tempo focado na mesma coisa, com calma e profundidade. Trip FM: Você comentou que está fazendo fonoaudiologia. Trabalho com a voz há 42 anos no rádio e outro dia levei um susto ouvindo um comercial que gravei em 1988. A voz, como a musculatura, envelhece melhor ou pior dependendo do cuidado? Hélio Ziskind: Sem dúvida. As bordas das pregas vocais, que vibram e se encostam para produzir as notas, são feitas de músculo e mucosa. Com o avançar da idade, se você não exercitar, a musculatura fica flácida e desenvolve fendas, pequenas aberturas por onde o ar escapa antes da hora. O resultado prático é a perda de tessitura: você já não alcança os mesmos agudos de antigamente. Hoje, para cantar várias das minhas canções em shows, preciso transpor até dois tons abaixo do registro original de estúdio. Há um exercício clássico feito com um canudinho minúsculo, de pirulito: você sopra fazendo um glissando contínuo do agudo para o grave. Isso me fez perceber exatamente o ponto onde a minha voz mudava de registro. Eu precisei ser guiado por uma fonoaudióloga para redescobrir o meu aparelho sonoro aos 70 anos. E são exercícios em que você parece um bobo fazendo, não dá nada por eles, mas que funcionam de um jeito assombroso. Enquanto nenhuma doença grave interceptar o caminho, a gente vai tocando a vida com alegria. LEIA TAMBÉM: Pra que serve a arquitetura? 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