NELSON RODRIGUES E O PROMOTOR DE JUSTIÇA SUICIDA

admin
7 Nov, 2026
A obra de Nelson Rodrigues parece inspirada na vida real. Filho do jornalista Mário Rodrigues, nasceu, cresceu e morreu em redação de jornais. Suas histórias retratam vivência pessoal, marcada por acontecimentos trágicos, e coberturas jornalísticas. “A vida como ela é...” é uma coletânea de contos escritos por Nelson Rodrigues para o jornal Última Hora entre 1951 e 1961. Chegam a quase 2.000 contos. As narrativas retratam com intensidade o adultério, a hipocrisia da classe média, o ciúme e os desejos não explicitados no cotidiano. A coluna fora criada a pedido do dono de jornal, Samuel Wainer, visando a estampar as páginas do jornal com relatos de forte apelo popular e humano, por meio de abordagem de histórias de amor trágico, morte, culpa e, acima de tudo, pecados e relações de família. Nelson Rodrigues já escandalizara a classe média carioca na década anterior com as peças ‘A Mulher sem Pecado’, de1941, ‘Vestido de Noiva’, de 1943, e com os romances ‘Meu Destino é Pecar’, de 1944, ‘Escravas do Amor’ e ‘Minha Vida’, de 1944, ‘Núpcias de Fogo’, de 1948 e ‘A Mulher que Amou Demais’, de 1949. Se as peças teatrais haviam causado alvoroço quando encenadas, a publicação em jornal causou grande espanto pelo tom cru e realista das narrativas. Nelson Rodrigues mostrava o que se escondia atrás das portas fechadas dos lares brasileiros. No período em que publicava ‘A Vida como ela é...’, entre 1959 e 1960, Nelson Rodrigues publicou, também no jornal Última Hora, em forma de folhetim a obra ‘Asfalto Selvagem’. A obra marcou a primeira vez que assinou um folhetim com o próprio nome. Posteriormente ‘Asfalto Selvagem’ foi publicado em forma de livro com o título ‘Engraçadinha, seus amores e seus pecados’. A trama narra a trajetória da personagem Engraçadinha. Tudo começa com um escândalo e um segredo de família após a morte do pai da protagonista. A narrativa explora paixões proibidas, culpa religiosa, erotismo e os tabus da sociedade burguesa brasileira. Dr. Arnaldo, pai de Engraçadinha, noiva de Zózimo, se mata ao descobrir que a filha estava grávida de Sílvio. Tratado como primo, Sílvio era filho adulterino do Dr. Arnaldo, um promotor de justiça tão sisudo que seu semblante era de “fotografia de presidente ouvindo o Hino Nacional”. Era um homem tão íntegro e emanava uma tal autoridade que, eleito deputado, a própria tribuna parlamentar trepidava quando ele se pronunciava. Nelson Rodrigues, nascido em Pernambuco, tinha quatro anos quando o pai chegou ao Rio de Janeiro fugido de inimigos políticos na terra natal. No ano anterior o promotor de justiça Manuel Baptista Cepelos havia cometido suicídio e o motivo da morte ocupou nos anos seguintes as crônicas jornalísticas cariocas e as conversas nas rodas boêmias e familiares. Nelson Rodrigues cresceu ouvindo tal história e não sem razão dizia que quando criança era um anjo pornográfico, título da sua biografia escrita por Ruy Castro. A crônica rodrigueana é menos trágica que o caso real, que se refere ao político e senador paulista Francisco de Assis Peixoto Gomide, assassino da própria filha, Sophia Gomide, em 1906, e que se suicidou em seguida. O crime real ocorreu na Rua Benjamin Constant, no centro de São Paulo. Peixoto Gomide é nome de rua em São Paulo, mas - em razão da necessidade identitária de reescrever a história - tramita na Câmara Municipal de São Paulo um projeto de lei que propõe a alteração do nome da rua, como forma de apagar a homenagem ao autor do feminicídio. O fato real é este: em 1906, Francisco de Assis Peixoto Gomide, então presidente do Senado do Estado, cargo equivalente ao de governador atualmente, assassinou sua filha, de 22 anos, e se suicidou. O crime abalou a aristocracia paulistana e ganhou as manchetes de todo o país e foi assunto por longos anos. Reconhecido como político sério, articulado e respeitado, Peixoto Gomide, embora parecesse incapaz de tal barbárie, o fez de modo premeditado, silencioso e brutal. A filha estava sentada bordando, o pai se aproximou, encostou o cano de um revólver Smith & Wesson em sua testa e atirou. A mãe e os irmãos testemunharam a cena. Em seguida suicidou-se. O motivo do crime fora a proibição do casamento da filha com o poeta e advogado Manuel Baptista Cepelos. Desde que a filha se enamorara do poeta, o Dr. Peixoto Gomide vinha demonstrando sinais de melancolia e ansiedade. O namorado de Sophia, Manuel Batista Cepelos não compunha a aristocracia paulista, classe do assassino. Ele contara, ao longo da vida, com o apoio financeiro do Dr. Peixoto Gomide para sobreviver e estudar. Sem renda de capital, viveu trabalhando como policial da Força Pública paulista, depois advogado e por último como promotor público. Teve os estudos de Direito custeados pelo Senador Peixoto Gomide. A convivência e frequência à sua casa é que o levou a apaixonar-se pela filha do senador. Este, embora angustiado, não tinha motivo aparente para impedir o casamento da filha com o “apadrinhado” a quem tanto ajudava e com qual convivia. O motivo é que os noivos eram irmãos, tal como Silvio e Engraçadinha da obra rodrigueana. Chocado, Manuel Batista Cepelos mudou-se para o Rio de Janeiro. Poeta e romancista, um de seus livros, ‘Bandeirantes’, foi prefaciado por Olavo Bilac e está inserido no rol dos autores parnasianos da literatura brasileira. Tentou por três vezes, sem êxito, ingressar na Academia Brasileira de Letras. Em 1915 foi nomeado promotor público para Cantagalo, no Estado do Rio de Janeiro e suicidou no mesmo ano. Seu corpo foi encontrado junto às pedras da praia que existia entre os bairros da Glória e Catete. Há um paralelismo entre a tragédia paulista e a obra de Nelson Rodrigues. O senador Peixoto Gomide foi retratado como Dr. Arnaldo; Bonitinha é a vítima Sophia e o promotor público fluminense suicida Manuel Batista Cepelos é o personagem Sílvio. O romance retrata a vida como ela é! João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política pela UFF e professor associado da Uerj