Enquanto o eleitor priorizava a economia, Trump só pensava em outras coisas

admin
7 Nov, 2026
Meras 15 horas antes da abertura das urnas para as eleições de meio de mandato esta semana, na segunda-feira (2), o presidente americano Donald Trump fez uma aparição pública no Memorial de Lincoln, em Washington, D.C. Em quase uma hora de discurso, ele só mencionou as eleições após 23 minutos. Suas prioridades eram outras. “Estou feliz de anunciar a abertura oficial do Espelho d’Água do Memorial de Lincoln”, disse de partida o mandatário, que está com 80 anos. “Estávamos considerando seriamente mudar o nome para ‘Espelho d’Água de Trump’. (...) Não, estou brincando. É brincadeira. Por favor, não noticiem isso.” No registro em vídeo, ninguém riu da piada, que fazia referência a outras iniciativas do político, como mudar o nome do Golfo do México para “Golfo da América” e do Lago Ontário para “Lago América” — o nome original foi dado pelos nativos e registrado por jesuítas em 1641. No pronunciamento, Trump mencionou as eleições em três momentos. Deu mais prioridade às algas do espelho d’água, mencionadas 10 vezes, com duas fotos ilustrativas da praga de piscina. Os democratas riram por último, conquistando maioria em ambas as casas do Congresso, de onde farão oposição ferrenha a Trump em seus dois últimos anos de mandato. Trump é conhecido por fazer discursos com digressões e piadas. Mas o discurso do espelho d’água faz parte de um padrão de excentricidade crescente na postura pública do presidente, marcada por um distanciamento em relação às preocupações dos eleitores. Até aliados notaram. Após a derrota, Trump preferiu falar de novo Salão de Festas Na quarta-feira (4), após a derrota de seu partido nas eleições, Trump fez mais um discurso sobre seus projetos de reforma e construção. Dessa vez, sobre o novo Salão de Festas da Casa Branca. “Foi uma estrutura nunca vista em lugar nenhum. Estamos adiantados e gastamos menos que o orçamento”, disse o presidente no discurso de 27 minutos, no qual não mencionou o resultado do pleito. “Deste lado, vamos ter colunas magníficas, na parte externa. Bem parecido com a Suprema Corte. Na verdade, são mais altas e ainda mais magníficas. Estão sendo fabricadas agora. Esculpidas em um belo calcário e serão coríntias, no estilo coríntio, que é considerado a crème de la crème (a nata da nata)”, continuou Trump. O orçamento inicial do Salão de Festas foi de US$ 200 milhões. Este valor já foi gasto antes de aparecerem as colunas coríntias de Trump. A última estimativa da empresa de construção contratada foi de US$ 600 milhões, o que cobre uma reforma mais ampla da Ala Leste da Casa Branca. O espelho d’água também ultrapassou o orçamento inicial de US$ 2 milhões: a última projeção foi oito vezes superior. Em julho e agosto, Trump culpou vândalos pelo descolamento da pintura e a infestação de algas. Procedimentos de investigação foram iniciados contra o canoísta olímpico David Hearn, mas os promotores desistiram do caso e atribuíram o prejuízo à pressa e aos defeitos dos trabalhos de reforma. No discurso sobre o Salão de Festas, a menção à derrota eleitoral foi forçada na seção de perguntas. Um jornalista mencionou que o vice-presidente, J. D. Vance, culpou a guerra contra o Irã pelo mau resultado republicano nas urnas. “Bem, acho que é em grande parte verdade, porque subiu um pouco o preço da gasolina, no curto prazo. Ao mesmo tempo, se eu pudesse fazer de novo, teria feito de novo porque, no longo prazo, é a única resposta. Não se pode deixar o Irã ter uma arma nuclear”, respondeu o presidente. O preço da gasolina subiu 40%, segundo o Wall Street Journal. Vance havia publicado um texto [https://x.com/JDVance/status/2118004988433641835] na rede social X com reflexões sobre a derrota. Ele formulou três sugestões, além de defender um fim à guerra contra o Irã: “dar foco ao custo de vida e à inflação”, “colocar os EUA em primeiro lugar” e “mudar nosso relacionamento com Israel”. Na noite de segunda, Trump também mencionou a guerra do Irã, em uma entrevista por telefone à Fox News. Faltando menos de oito horas para a abertura das urnas, ele afirmou que “Não é uma guerra, é uma guerra muito branda”. Em pesquisa [https://yougov.com/en-us/articles/55702-inflation-hits-new-high-americans-top-issue-october-25-2026-economist-yougov-poll?utm_source=chatgpt.com] do instituto YouGov em parceria com a revista The Economist divulgada em outubro, a política externa foi a terceira área em que os eleitores americanos mais desaprovaram as decisões de Trump, depois do manejo da inflação e da economia em geral. Como as prioridades de Trump mudaram com o tempo A mudança nas prioridades de Trump em falas públicas não é apenas uma impressão. Em agosto, o site PolitiFact publicou uma análise [https://politifact.com/article/2026/aug/11/trump-construction-ballroom-reflecting-pool/] quantitativa de 84 aparições públicas do presidente nos sete primeiros meses de 2026 em que as construções eram mencionadas. A base de dados foi de quase 300 mil palavras. Os projetos de construção foram o assunto favorito de Trump após a guerra do Irã: ele dedicou 45 mil palavras (15%) ao tema do espelho d’água, do Salão de Festas e outros projetos, como um Arco do Triunfo maior que o francês, com custo estimado de US$ 100 milhões, que ainda não saiu do papel. Quando anunciou o arco, em outubro de 2025, Trump brincou que o monumento seria uma homenagem a ele próprio. A economia, principal preocupação dos americanos antes das eleições de meio de mandato, ficou em quarto lugar entre os assuntos mais comentados por Trump até julho. Entre janeiro e março, era o segundo assunto, abaixo de política externa. Outra análise quantitativa dos discursos de Trump, publicada [https://www.washingtonpost.com/politics/2026/05/21/profanity-is-hallmark-trumps-more-combative-second-term/] em 21 de maio pelo jornal The Washington Post, diz respeito à vulgaridade. “Seu uso de linguagem vulgar, de insultos pessoais e da retórica de autoglorificação aumentou marcadamente em seu segundo mandato”, disseram os autores do levantamento. Nos dois primeiros anos de seu primeiro mandato, ainda segundo a análise, cerca de 40% dos discursos do presidente americano continham ao menos um termo vulgar. No segundo mandato, subiu para 93%. Já o número de postagens vulgares ou com insultos nas redes sociais triplicou entre os dois mandatos. Segundo a inteligência artificial Grok, em análise de postagens na rede social em que ela é nativa, o X, envolvendo tanto a conta oficial de Trump quanto uma conta que clona suas postagens na Truth Social, há “um aumento notável de reclamações pessoais longas e de imagens autoelogiosas geradas por IA”. No mês anterior à eleição, a postagem mais longa já feita por Trump na Truth Social, com 1.300 palavras, foi uma longa reclamação contra o humorista e apresentador Bill Maher. “Vamos falar desse fracassado total e completo, Bill Maher”, escreveu Trump, em seu texto mais longo já postado desde 2011. Segundo o presidente, Maher tem “um programa de baixa audiência no canal de também baixa audiência HBO”, é “um baita maconheiro”, “covarde”, “salafrário”, “irrecuperável”. O texto termina com “não me ligue mais” e com a promessa de que Trump nunca mais assistirá ao programa de Maher, porque é “fake news”. No Dia do Trabalho, Trump postou 60 vezes num intervalo de dez horas. Muitas das postagens eram imagens de IA com o próprio Trump em situações como uma cavalgada com George Washington e um duelo no hockey contra o primeiro-ministro canadense Mark Carney (durante tensões comerciais reais entre os dois países). “Simplesmente esquisito” Há, ainda, as gafes. Também em outubro de 2026, Trump resolveu tratar repetidamente do quanto ele gosta de atributos físicos masculinos. Foram 11 falas do tipo. Num comício do dia 1º, em Oklahoma, pediu que três homens subissem ao palco. “Não dá para não notar esses garanhões grandes, fortes e bonitos de Oklahoma”, disse o presidente. O senador Jon Husted foi alvo de cinco comentários em eventos diferentes: “Comecei a observar seu corpo, olhei a bunda dele” (Ohio, dia 12); “Fiquei bem ali e observei a bunda dele, nunca fiz isso com um homem antes” (Kentucky, dia 17); “Nunca manjei o corpo de um homem antes, não é do meu feitio” (Carolina do Norte, dia 20); “A bunda dele é como um pedaço grande de músculo, os pés são enormes, as mãos, os dedos pareciam salsichas” (Michigan, dia 25); “Cometi o erro de dizer que comecei a olhar a bunda dele” (Texas, dia 27). Husted respondeu em entrevista à CBS News: “Minha esposa e eu tratamos com senso de humor”. Karl Rove, estrategista político republicano, viu de forma diferente em entrevista à Fox News Radio: “Ele dispara a falar do traseiro do senador Jon Husted e eu fico pensando, que tipo de mensagem é essa? É simplesmente esquisito.” Para ser justo, Trump não direcionou esses comentários sobre a anatomia alheia exclusivamente a homens: durante um comício no Michigan, no dia 25 de outubro, ele também chamou a atenção do público ao falar abertamente sobre o traseiro da cantora Nicki Minaj, que estava presente. “É difícil de não notar!”, disse ele, pedindo que a artista ficasse de pé. Nem todas as manifestações de Trump no período imediatamente anterior às eleições foram sobre assuntos inconsequentes. As próprias eleições foram um tópico de postagens na Truth Social. Entre 28 de setembro e 19 de outubro, o presidente postou quatro vezes que ele apareceria na cédula eleitoral. Começou com dois pedidos de que seus apoiadores “fingissem” que seu nome apareceria. Em 4 de outubro, afirmou: “ESTOU NA CÉDULA ELEITORAL!” Às 11 da noite do dia de votação, quando a derrota estava clara, recuou: “Eu não estava na cédula eleitoral e, se estivesse, TERÍAMOS VENCIDO DE LAVADA!” Sete vezes entre setembro e outubro, Trump também prometeu que daria US$ 5 mil a cada cidadão americano caso o Partido Republicano continuasse com maioria na Câmara e no Senado após as eleições. Ele nunca esclareceu de onde sairia o dinheiro para custear a promessa, cujo montante total seria de US$ 1,2 trilhão, valor a ser adicionado a uma dívida pública de US$ 40 trilhões. Naquele mesmo discurso do espelho d’água, Trump repetiu a promessa. Don Bacon, deputado republicano que representou o Nebraska desde 2017 e está se aposentando, comemorou um aspecto do discurso: “Pelo menos ele não estava falando sobre os traseiros dos homens”, disse ele ao Wall Street Journal. Segundo investigação do mesmo jornal, com fontes anônimas no entorno do presidente, Trump fez tudo conscientemente e se justificou dizendo a seus assessores que falar do traseiro de Husted tornava o senador mais atraente para os eleitores. “Trump disse a assessores que ele não se importava com as eleições de meio de mandato”, disse o jornal. “O presidente estava cansado de se preocupar com assuntos políticos domésticos, que ele achava menos importantes que a política externa e o seu legado”, afirmou um membro sênior do governo.