K-pop: como a Coreia do Sul criou o maior fenômeno cultural da década
7 Nov, 2026
Você provavelmente viu o BTS em todos os lugares nos últimos dias. Entre shows históricos e uma mobilização de fãs capaz de articular até mesmo um encontro com o presidente Lula, o grupo sul-coreano é a ponta de lança de um fenômeno sem precedentes. O que talvez passe despercebido é a dimensão estatística desse sucesso: o catálogo do BTS no Spotify ultrapassou a marca de 50 bilhões de audições. O número quase equivale à soma de reproduções do Nirvana, dos Beatles e da Madonna juntos. Nada disso é fruto do acaso. Existe uma inteligência mercadológica poderosíssima operando as engrenagens do K-pop, uma indústria que transformou a Coreia do Sul —um país com território equivalente ao do estado de Pernambuco— em uma potência cultural global. A invasão da onda coreana Para entender o K-pop, é preciso ir além dos fones de ouvido. A música pop sul-coreana acumula mais de 70 recordes no Guinness Book e tem liderado uma invasão cultural sistemática. Nos últimos anos, grupos como Stray Kids, Katseye e Riize não apenas lotaram estádios brasileiros, mas também dominaram a grade da televisão nacional. Os reflexos dessa expansão são sentidos em múltiplas indústrias. No Brasil, o coreano é atualmente o idioma que mais cresce na plataforma Duolingo. O setor de turismo também colhe os frutos: a Organização do Turismo da Coreia identificou o mercado brasileiro como o de maior crescimento na América Latina em interesse por viagens ao país asiático. Até mesmo a indústria do alto luxo precisou se curvar aos "idols" (como são chamados os membros desses grupos). Hoje, cada integrante do BTS e grandes nomes de bandas como Blackpink e Stray Kids ostentam o título de embaixadores globais de marcas como Gucci, Louis Vuitton, Dior, Tiffany, Chanel e Cartier. Faz sentido comercial: o mercado global de K-pop é avaliado em cerca de US$ 10 bilhões. A fábrica de idols e o peso da perfeição A primeira geração do K-pop despontou em 1992. Desde então, a indústria refinou seu método de criação de estrelas. O processo, conduzido por gigantescas agências de entretenimento, está muito mais próximo de um treinamento olímpico do que da formação orgânica de uma banda de garagem. A engrenagem começa com um planejamento de conceito: o mercado precisa de um grupo masculino ou feminino? Com quantos membros? A partir daí, audições reúnem milhares de jovens. Os aprovados, chamados de trainees, passam a morar, comer e ensaiar juntos, em jornadas que frequentemente ultrapassam 12 horas diárias. Esse treinamento rigoroso engloba canto, dança, idiomas e comportamento midiático, e pode durar até dez anos antes da estreia oficial, o aguardado debut. No entanto, a busca incessante pela perfeição tem seu preço. A saúde mental dos "idols" é uma crise velada. As agências exercem controle ferrenho sobre o que os artistas vestem, falam e postam, além de estipularem cláusulas restritivas sobre relacionamentos amorosos e até consumo calórico. Joon Park, por exemplo, revelou no documentário "K-Pop Evolution" ter sido expulso de seu grupo aos 30 anos de idade simplesmente por começar a namorar. O poder (e a pressão) dos fandoms Apesar do pragmatismo corporativo das agências, o coração do K-pop bate na devoção de seus fãs. Ser fã, antes de tudo, é uma experiência emocional coletiva. Cada grupo possui um fandom com nome e identidade próprios. O "ARMY", como são conhecidos os fãs do BTS, é o exemplo definitivo de mobilização moderna. Eles não apenas organizam mutirões digitais para colocar seus artistas no topo das paradas, como também articulam campanhas de doação de sangue e mobilizações políticas, a exemplo do incentivo ao voto jovem nas eleições. Contudo, essa relação parassocial —o laço psicológico unilateral com a celebridade, intensamente fomentado pelas agências— pode ultrapassar limites. Quando a "idol" Karina, do grupo aespa, anunciou um relacionamento com o ator Lee Jae-wook, enfrentou protestos agressivos. Fãs alugaram painéis eletrônicos exigindo desculpas, ameaçando boicotar a venda de álbuns. Poucas semanas depois, o casal rompeu, e Karina publicou uma carta de desculpas escrita à mão. O episódio gerou debates dentro da própria comunidade, com muitos fãs, especialmente brasileiros, criticando a exigência de reciprocidade afetiva que aprisiona a vida pessoal dos artistas. Um reinado em expansão A sede global por conteúdo sul-coreano continua longe de ser saciada. As produções ganham cada vez mais complexidade visual e coreográfica, e o Brasil figura como um dos protagonistas dessa recepção. Nos recentes shows do BTS em São Paulo, mais de 250 mil pessoas estiveram presentes, enquanto o sistema de bilheteria registrou quase 2 milhões de acessos na fila de espera virtual. A influência asiática promete cifras ainda maiores. Um relatório de 2025 da McKinsey estima que o impacto econômico da cultura pop asiática no Brasil poderá ultrapassar os US$ 2 bilhões até 2028. Quando se soma o K-pop aos k-dramas, à k-beauty e à gastronomia, o cenário é evidente: a Coreia do Sul conseguiu exportar sua identidade de forma definitiva. E, ao que tudo indica, esse reinado está apenas começando. Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.