Como o “New York Times” retalhou a entrevista de Flávio Bolsonaro
7 Nov, 2026
Ouça este conteúdo Conta a lenda grega que Procusto, salteador da estrada que levava a Atenas, oferecia pouso aos viajantes numa cama de ferro. Se o hóspede era maior que o leito, cortava-lhe os pés. Se era menor, esticava-o até caber. Teseu pôs fim ao método aplicando-o ao próprio inventor. A posteridade, menos expedita, preferiu convertê-lo em manual de instrução. Ou, em Nova York, de redação. Nesta semana, o New York Times publicou a primeira entrevista de Flávio Bolsonaro desde que o senador deixou o Brasil rumo a Miami, no dia seguinte à derrota no segundo turno. A matéria saiu com o título “Como Flávio Bolsonaro fugiu do Brasil? ‘Vou levar isso para o túmulo’, diz ele”. O canal de Eduardo Bolsonaro no YouTube, por sua vez, publicou a gravação completa da conversa, coisa de 75 minutos. Basta pôr um texto ao lado do outro para assistir ao velho Procusto em plena atividade, apenas reencarnado numa jornalista nova-iorquina prafrentex. Comecemos pelo leito. O enredo estava pronto antes da primeira pergunta: um político derrotado que não aceita o resultado, foge da Justiça e – como todo líder de direita no mundo – conspira no exterior à sombra de Donald Trump. Não há veículo da mainstream media que não considere a direita uma aberração não condizente com aquilo que chamam de “democracia”. Tudo o que cabia nessa cama foi preservado. Tudo o que sobrava foi amputado. Dos 75 minutos, o jornal reteve com especial carinho os trechos sobre a saída do país, que Flávio se recusou a detalhar. O silêncio sobre o itinerário virou manchete e tudo o que ele disse sobre o resto virou silêncio Sobrou, para começar, a arquitetura do próprio argumento. Na versão publicada, Flávio “insiste em alegações infundadas de fraude eleitoral” e questiona a vitória de Lula “sem apresentar provas”. O leitor americano conclui que tem diante de si mais um negacionista eleitoral de catálogo, tal como, na visão do Partido Democrata, o próprio Trump. Na gravação, contudo, o senador separa com nitidez as suspeitas que expõe “a nível argumentativo” da estratégia que de fato adotará. E é taxativo: “A parte jurídica, esquece, não vou questionar, não vou pedir a anulação das eleições”. O caminho escolhido são as ações por abuso de poder político e econômico. O Times registra apenas que ele “reclamou longamente dos gastos do governo” e que tentará “contestar judicialmente a vitória de Lula”. A distinção, que o entrevistado repetiu várias vezes justamente para não ser mal compreendido, evaporou. Evaporou também a substância da queixa. Flávio enumerou o reajuste do Bolsa Família em plena campanha, a antecipação do pagamento às vésperas do segundo turno, a promessa de estender o Pé-de-Meia aos universitários e de dar R$ 5 mil a cada microempreendedor individual – tudo, segundo ele, sem previsão na lei orçamentária enviada ao Congresso semanas antes. Lembrou dois governadores cassados por muito menos, no Rio de Janeiro e em Roraima. E resumiu o conjunto numa imagem que qualquer torcedor entende: “Foram vários gols de mão que o Lula fez”. Nada disso chegou ao papel. Pode-se contestar cada cifra. Mas, para contestá-la, é preciso antes publicá-la. Quando a repórter lembrou que Jair Bolsonaro também ampliara o Auxílio Brasil em ano eleitoral, o senador respondeu que aquilo se dera na pandemia, com autorização do Congresso, quando “o mundo parou, as pessoas não podiam sair na rua”. A objeção foi feita. A réplica não foi publicada. Eis o jornalismo procustiano em estado puro, no qual a pergunta do entrevistador vira premissa do texto e a resposta do entrevistado vai para o cesto. VEJA TAMBÉM: A amputação mais grave poupou, curiosamente, o ministro Alexandre de Moraes, o cada vez mais “Careca do Master”, que a reportagem prefere designar, protocolarmente, como “o ministro do Supremo Tribunal Federal que mandou prender seu pai”. Flávio relatou que a ordem para reter seus passaportes saiu sete minutos após o anúncio do resultado, sem manifestação do Ministério Público. E fez uma acusação que, verdadeira ou falsa, qualquer redação digna do nome correria a checar: a de que o próprio Moraes figura como investigado no processo em que decidiu contra ele. “Ele é investigado neste processo e tá [sic] tomando decisão no processo.” Falou ainda das relações do procurador-geral da República com o dono do Banco Master. Mas o Times, que encontrou espaço para atribuir a “autoridades americanas” e a fontes sem rosto os detalhes do jato e do aeroporto argentino, não encontrou espaço para uma única linha sobre isso. Ficou de fora, por fim, o trecho que mais embaraçaria o enredo. Flávio perguntou como se explica que os partidos que o apoiaram tenham feito 286 dos 513 deputados, 34 das 54 cadeiras em disputa no Senado e 19 governos estaduais, enquanto o candidato desses mesmos partidos perdia a Presidência. É uma pergunta, não uma prova. Mas é exatamente o tipo de pergunta que o jornalismo existe para formular, e não para esconder. Eric Voegelin identificou, no coração das ideologias modernas, aquilo que chamou de “proibição de perguntar”. O sistema não refuta a questão incômoda. Declara-a ilegítima e a retira de circulação. A entrevista inteira gira em torno desse ponto. “Não é permitido investigar no Brasil”, repete o senador. O Times poderia ter discutido a frase, contestado, desmentido com dados. Preferiu confirmá-la, aplicando ao entrevistado o mesmo veto que ele denunciava. Carimbou suas dúvidas com o “já desmentido” do tribunal eleitoral e deu o assunto por encerrado. Um jornal que entrevista um opositor no exílio e devolve ao leitor, ponto por ponto, a versão do regime do qual ele escapou não faz reportagem Há um detalhe saboroso. A certa altura, a repórter fez questão de proclamar o seu credo profissional: “o nosso dever e nossa preocupação é sempre com os fatos e a verdade”. Os fatos, ao que parece, vinham com cláusula de seleção. Dos 75 minutos, o jornal reteve com especial carinho os trechos sobre a saída do país, que Flávio se recusou a detalhar para não expor pessoas que, segundo ele, nem sabiam quem viajava ao seu lado. A recusa veio com ironia: “eu saí nadando pra África, peguei uma bicicleta pra Europa e vim andando para os Estados Unidos”. O silêncio sobre o itinerário virou manchete e tudo o que ele disse sobre o resto virou silêncio. Obviamente, ninguém exigia que o Times concordasse com Flávio Bolsonaro. Exigia-se apenas que o ouvisse. Um jornal que entrevista um opositor no exílio e devolve ao leitor, ponto por ponto, a versão do regime do qual ele escapou não faz reportagem. Faz, sem perceber, a contraprova da tese do entrevistado. Logo no início da conversa, o senador agradeceu a chance de falar nos Estados Unidos sem precisar “medir mais as palavras”. E, de fato, falou sem medi-las. Quem as mediu foi o jornal. Procusto, afinal, também se tinha na conta de bom anfitrião. Flávio Gordon é doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor do best-seller “A Corrupção da Inteligência: intelectuais e poder no Brasil” (Record, 2017), que possui mais de 35 mil exemplares vendidos. É também autor das obras “Ideologias de Massa e suas Metamorfoses” e “O Mínimo sobre Gnosticismo (Cedet, 2024)”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.