Cultura e esporte transformam vidas de moradores das favelas em Santo André
7 Nov, 2026
Cultura e esporte transformam vidas de moradores das favelas em Santo André Histórias de músicos, artistas e educadores mostram como iniciativas culturais e esportivas nas comunidades ampliam oportunidades, fortalecem vínculos e ajudam a transformar trajetórias A música expandiu os horizontes do morador da favela andreense Ipiranga II, no Parque João Ramalho, Higor Augusto dos Anjos Ribeiro Silva, 24 anos. Sua relação com a arte ganhou força durante a pandemia da Covid-19, quando decidiu aprender a tocar violino, uma paixão que se transformou em profissão. “Meu primeiro contato com a música foi na infância, em uma atividade escolar para um concerto. Eu ainda não sabia que gostava de música, mas a ideia de tocar um instrumento foi plantada. Na adolescência, cheguei a fazer aula de piano com um músico da igreja”, conta Silva. Aos 17, inspirado em uma vizinha que tocava violino, decidiu se dedicar ao instrumento de cordas. Em janeiro de 2020, entrou para o Projeto Bem (Brasil Essência Musical). “Dois meses depois, paralisaram por causa da pandemia e passamos a estudar on-line. Foi bem difícil, mas não desistimos. Chegamos a fazer aulas no parque, com distanciamento um do outro. Meu professor dizia que se queremos algo, não podemos desistir”, lembra Higor Silva. “A música me ajudou a superar aquela fase que estávamos vivendo e hoje estou vivendo dela. Quero repassar esse ensinamento que recebi para frente, para que outros tenham oportunidade”, enfatiza. A cultura também norteou a vida do percussionista Bebê do Góes e o levou para lugares antes inimagináveis. “Desde os 5 anos batucava em latinhas com meus amigos. Começamos ouvindo as rodas de samba, mas não podia entrar nelas. Então, a gente ouvia e replicava na latinha. Fui aprendendo sozinho”, conta o músico, que toca tamborim, surdo e pandeiro, inclusive, ao mesmo tempo. Bebê do Góes toca com os amigos Juninho Morada, 47, e Thiago Santos, 37, e hoje percorre o Brasil acompanhando músicos como Dudu Nobre e Zeca Pagodinho. Os três nasceram e cresceram na viela do Ipiranga II, onde também foi criado o Samba da Viela, que promove rodas de samba pelas comunidades de Santo André. “Já fomos em praticamente todas”, diz Bebê do Góes. “Essa viela tem muita história para contar”, enfatiza. FUNDAMENTAL Mais que lazer, a cultura e o esporte são instrumentos de expressão, inclusão e transformação social para as cerca de 100 mil pessoas que moram nas 76 favelas de Santo André, segundo Solange Araújo, que é uma das coordenadoras de projeto no MDDF (Movimento de Defesa dos Direitos dos Moradores em Favelas de Santo André). “Nas periferias, essas áreas funcionam como ferramentas de mobilização comunitária, fortalecimento da identidade periférica e também como espaços de acolhimento e resistência, que geram novas perspectivas de futuro, combatendo vulnerabilidades estruturais a partir da própria força dos moradores”, define. As oportunidades, porém, são escassas. A maior parte de parques, praças e quadras, assim como eventos culturais e esportivos, estão em áreas centrais da cidade, conforme aponta o cientista social e psicólogo Renato Alves, docente da Umesp (Universidade Metodista de São Paulo). A demanda acaba sendo suprida por iniciativas dos próprios moradores, de ONGs (Organizações Não Governamentais), movimentos sociais como o MDDF e igrejas. “Cultura, lazer e esporte são tão importantes quanto infraestrutura, água, luz, saneamento e alimentação, mas acaba ficando em segundo plano para o poder público. É uma forma de trazer cidadania, interação social e expandir os horizontes”, destaca Alves. A manicure do Jardim Cristiane, Aline Nunes Silva, 36, busca trazer um pouco de arte para a favela com a implementação de saraus, poesia teatral e dança. “Desde criança via pessoas dançando e fui observando e replicando, aprendi na raça. Gosto muito de escrever e de teatro. Como faço maquiagem artística, de terror, com poucos recursos como cola, utilizo também minha arte para trazer reflexão sobre temas como a violência contra a mulher, com a pintura representando os machucados”, conta. A Secretaria de Cultura de Santo André diz que conta com 30 equipamentos culturais descentralizados, próximo à população da periferia, e oferece atividades como zumba, skate, capoeira, futebol e judô em diversas favelas do município. FUTEBOL Nascido e criado na favela Jardim Cristiane, Márcio Antônio dos Reis, 44, aposentado por invalidez, encontrou no esporte uma oportunidade de reconstruir a própria vida e levar esperança às crianças e aos jovens da comunidade. Aos 17 anos, ficou paraplégico após ser atingido por quatro tiros. Além de lidar com as limitações impostas pela deficiência, enfrentou outros desafios, como o envolvimento com as drogas e o alcoolismo. Hoje, sua trajetória é marcada pela superação e pela busca de transformar vidas por meio do esporte. “Fiquei até 2006 nas drogas e bebidas e, em 2008, montei uma escolinha de futebol pelo projeto Mocidade de Ouro para ajudar as crianças a não cometerem o mesmo erro que eu. A atividade física ajuda muito na saúde, tirando-as das drogas e das coisas erradas. E felizmente fomos mais longe, revelando muitos jogadores para clubes e dando muita oportunidade deles realizarem o sonho de ser jogador de futebol”, afirma. Um dos destaques, entre os alunos de Marcinho, como é conhecido, é Heitor Pelegrini, 17 anos, que hoje está no Esporte Clube São Bernardo e acumula 90 medalhas conquistadas. Outro jogador é Hiago Felipe Egídio dos Santos, 15, do Grêmio Esportivo Mauaense. No Esporte Clube de Santo André estão Nicolas Augusto Amaro Matos e Jonatan Pietro Nogueira, 14, e Pedro Henrique, 15. “Sempre gostei de futebol e, no meu tempo de criança, não tinha oportunidade. O esporte é tudo, pois, além da saúde, as crianças ficam concentradas nos treinos para jogar no fim de semana e isso tira o foco das bebidas e das drogas”, define Marcinho. O professor de futebol ressalta ainda a contribuição da atividade para seu próprio processo de superação. “Para mim, foi muito importante, pois me deu vontade de acordar cedo e sair da cama. Nem posso pensar em beber ou usar drogas, porque acabo sendo um espelho para eles e o projeto me mantém firme para não cair novamente.” SÉRIE Essa reportagem faz parte da série Nas Quebradas, iniciada na última quarta-feira (4), Dia da Favela, e que traz todo domingo um recorte de histórias de moradores das comunidades do Grande ABC.