Os institutos de pesquisa erraram?

admin
8 Nov, 2026
Clique aqui e escute a matéria Os institutos de pesquisa não erraram na última eleição presidencial, em especial, no segundo turno, ao identificar tendências eleitorais. A prova desta assertiva é que o agregador do UOL, que reúne pesquisas com diferentes metodologias, mostrou, no primeiro turno, o crescimento de Flávio Bolsonaro na intenção de voto a partir do início de setembro. No segundo turno, o referido agregador e o meu mostraram o crescimento do presidente Lula logo após o início da disputa. Considerando ambos os turnos e apenas a intenção de voto, o que os agregadores mostraram? O crescimento de Flávio no primeiro turno representava uma tendência, posteriormente confirmada, pois o candidato do PL terminou essa etapa em primeiro lugar. Movimento semelhante ocorreu no segundo turno: Lula cresceu. Portanto, os gráficos dos agregadores sugeriam dois cenários em ambos os turnos: 1) Favoritismo do candidato que liderava; 2) Ascensão do segundo colocado. Nos dois turnos, predominou o segundo cenário. Há muito tempo faço três alertas: 1) As pesquisas tradicionais de intenção de voto são o retrato do momento; 2) A variável intenção de voto é limitada para mostrar movimentos futuros do eleitor; 3) As pesquisas de intenção de voto precisam ser interpretadas com o auxílio de outras perguntas do questionário e de pesquisas qualitativas. Infelizmente, em toda eleição, a imprensa e a opinião pública cobram que os institutos antecipem, com exatidão, o percentual das urnas. Por trás dos números, existem sentimentos e hábitos. Quaest, Ideia, MDA, Ipespe, Datafolha, dentre outros, têm apresentado perguntas, além da intenção de voto e da avaliação da administração, que possibilitam uma interpretação mais sofisticada do comportamento presente e futuro do eleitor. A Quaest traz, por exemplo, o sentimento de medo. O Ipespe, os sentimentos de mudança e esperança. Vários institutos investigam quando o eleitor decide seu voto. Muitos decidem no dia da eleição. As perguntas que retratam sentimentos e hábitos dos votantes são úteis para a construção de previsões. No primeiro turno, Mauricio Moura, do Instituto Ideia, alertou para o antipetismo de chegada. O cientista político Alberto Carlos Almeida destacou a baixa aprovação do governo Lula. Os cientistas políticos Antonio Lavareda e Felipe Nunes mencionaram que a taxa de abstenção poderia favorecer algum candidato no turno final. Portanto, quem olhou apenas para a intenção de voto desconsiderou os alertas feitos por variados analistas. Desde o ano passado, através do Método Qualitativo SEP da Cenário Inteligência, alertei que o medo explicaria a eleição presidencial. No dia do segundo turno, frisei que a virada de Lula era um cenário remoto. Todavia, o medo de Flávio Bolsonaro poderia incentivar os eleitores a votar em Lula. E isso ocorreu! É neste ponto que faço um alerta: as pesquisas qualitativas devem integrar a análise eleitoral. A simples análise da intenção de voto não permite compreender um eleitor complexo, que recebe fortes incentivos para reforçar ou mudar seus sentimentos. As pesquisas qualitativas, particularmente as entrevistas em profundidade, podem antecipar movimentos eleitorais motivados por sentimentos, inclusive aqueles que podem ocorrer no próprio dia da votação. Adriano Oliveira – Cientista político. Professor da UFPE. Sócio da Cenário Inteligência: Método Qualitativo SEP (Sentimentos – Estratégia – Previsão) & Estratégia.