Por que o Nordeste retratado nas novelas ainda parece preso ao passado?

admin
8 Nov, 2026
A gente manda. Você recebe. Depois manda a real pra todo mundo. ESPECIALISTA COMENTA Reprodução/TV Globo Lá na Minha Terra, nova novela da Globo, levanta discussões sobre representações do Nordeste Uma mulher andando a cavalo. Fogão a lenha. Fotos desbotadas. Nenhum celular. Essas são algumas das imagens que aparecem no trailer de Lá na Minha Terra, novela das seis que a Globo estreia nesta segunda-feira (9). São representações que podem, sim, ser reais, mas que se repetem e apagam a diversidade urbana da região Nordeste --que, em muitas cidades, traz um estilo de vida que pouco difere do visto no eixo Rio-São Paulo. Mas, afinal, por que o Nordeste retratado nas novelas ainda parece preso ao passado? Para o jornalista João Pedro Ramalho Martins, estudioso de como a dramaturgia representa o sertão, existe um dualismo da própria sociedade, que mantém interesse em oposições entre interior e capital, entre rural e urbano. Prova disso é que Lá na Minha Terra trabalha o contraste entre a simplicidade da fictícia Lavra Seca e o movimento cosmopolita de São Paulo. "Na minha visão pessoal, é mais difícil ter um imaginário televisivo nas capitais [do Nordeste], nos centros urbanos, porque não se tem interesse de criar histórias sobre isso, de mostrar, de fato, que existem outros cenários e realidades possíveis. Justamente, para marcar uma diferença entre o que seria urbano e rural", avalia ele, em entrevista ao Notícias da TV. Em seu mestrado, realizado na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Ramalho se dedicou a estudar imagens da teledramaturgia sobre o sertão através de Onde Nascem os Fortes (2018), da Globo. Com o professor Marcelo Bolshaw Gomes, escreveu um artigo que revisitou o sertão nordestino na ficção audiovisual brasileira. O especialista defende que trazer um Nordeste mais contemporâneo para as telas também representaria uma espécie de "perda" para o Sudeste, ainda retratado como principal referência de perfil metropolitano. "A partir do momento que você tira dos grandes centros do Sudeste o local do urbano, eles, talvez, percam um pouco. Eu poderia contar uma história de Manoel Carlos [1933-2026] que, em vez do Leblon, se passa em Boa Viagem, no Recife, ou Cabo Branco, em João Pessoa? Poderia, com as devidas adaptações. Mas perde-se um pouco desse local de privilégio dos grandes centros", pontua o estudioso. A escolha do sertão como um símbolo de representação tem explicação histórica, segundo o jornalista: o Primeiro Congresso Regionalista do Nordeste. Em meados dos anos 1920, o sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) liderou um movimento para valorizar a identidade nordestina contra a massificação de elementos do Sudeste e até estrangeiros. "Foi, justamente, o que ajudou a criar uma ideia de Nordeste a partir de determinados discursos, na literatura, na música, na sociologia e no cinema depois", destrincha Ramalho. "Quando essas imagens são exportadas, tem dois locais principais: o Nordeste do sertão e um Nordeste de Jorge Amado [1912-2001], de litoral baiano, de cacau e cana-de-açúcar. Mas não era um Nordeste urbano, um Nordeste cosmopolita, como Recife e Salvador já eram no começo do século passado. Exportaram essa imagem que acabou se cristalizando nas construções que vieram posteriormente a esse Congresso Regionalista", completa. Lá na Minha Terra é a terceira novela seguida de Mario Teixeira ambientada no Nordeste. Ele também foi o principal autor de Mar do Sertão (2022) e de No Rancho Fundo (2024). Em entrevista ao portal Gshow, o escritor declarou que a obra quer mostrar "um Nordeste novo", "pouco visto", principalmente "em termos de modernidade". No entanto, as primeiras cenas divulgadas podem colocar em dúvida essa proposta, na visão de Ramalho. "Tem algo que me chamou a atenção, pelos trailers da novela, é que essa tecnologia do sertão me parece um pouco tímida. Quase não vi celulares com os personagens, não tem um vaqueiro de moto, é tudo de cavalo ainda --e poderia ter um vaqueiro de moto, como a gente já tem em muitos interiores do Nordeste hoje, tangendo seu gado de moto", retrata. Ele também faz reflexões sobre a trama de Lurdinha (Julia Dalavia), uma jovem que vai para São Paulo e funda uma startup voltada a soluções de tratamento e recuperação de água. Segundo a própria intérprete, a personagem "tem o desejo de levar tecnologia para a terra dela e implantar a pesquisa sobre reserva de água em Lavra Seca". "É comum associar essa chegada da tecnologia e a presença da modernidade como sempre algo vindo de fora. Não é uma tecnologia produzida ali. Quando a gente sabe que muitas tecnologias, como as cisternas e outras tecnologias de dessalinização da água, têm muito do que é produzido aqui, mesmo que haja conhecimento de outras pessoas", pondera. Coincidentemente, a Globo exibe atualmente outra novela que se passa em uma cidade fictícia do Nordeste: Roque Santeiro (1985). No X, comentou-se que o folhetim de Dias Gomes (1922-1999) e Aguinaldo Silva parecia retratar a região de um jeito mais contemporâneo do que a trama de 2026. Para Ramalho, parte do público pode ter essa impressão porque Roque Santeiro, embora ambientada no Nordeste, buscou trazer uma alegoria nacional. "O que é interessante em Roque Santeiro --e a própria Globo fala disso– é que a cidade cenográfica de Asa Branca e as referências são de lugares diferentes do Brasil." "Então, Asa Branca foi criada para ser um microcosmos do interior do Brasil, da fé, da religiosidade, da cultura popular brasileira. Por isso, dá essa impressão de que os personagens e conflitos não ficam presos a um imaginário de sertão. Isso reflete até na censura que a novela enfrentou", explica. O pesquisador reforça que não se trata de uma rejeição a determinadas imagens. "Não dá para fazer novela no sertão sem mostrar caatinga", exemplifica. Porém, a caracterização e os cenários podem fugir de alguns estereótipos. "Os personagens têm aqueles figurinos que parecem mesmo saídos dos anos 1950, os rostos que parecem sempre sujos e queimados de sol, o rádio antigo, o fogão a lenha, quando a pessoa já tem um fogão elétrico, a gás… Por exemplo, o filtro de barro acho fofo, porque a gente tem e usa. Ou seja, dá para manter muitos elementos, mas outros já estão mais cansativos de ver e dá para torná-los mais naturais, no sentido de parecer de fato com o que a gente é", pede. Ele também atenta para a importância de trazer novas narrativas, que podem ser agregadas ao contexto sertanejo. "Em Onde Nascem Os Fortes, você tinha coronel, religiosidade, mas tinha também figuras femininas fortes, personagem LGBT, algo pouco visto em novelas e séries passadas no sertão. Quando você traz essas imagens, mas acrescenta elementos que já são conhecidos em outras histórias, você ajuda a transformar aos poucos essa representação", acredita. Por fim, Ramalho alerta que a representação do sertão é apenas mais uma das que ainda caminham a passos lentos na TV brasileira. "Quando a gente fala sobre outras formas de representação, de outros grupos, como pessoas negras, mulheres, população LGBT, idosos… Seja qual for o recorte que você faça, esses grupos mudam mais fácil, digamos assim, do que o olhar do outro sobre eles --ainda mais quando falamos de produções de uma indústria cultural que é a televisão, interessada em audiência. Ela vai no que é mais confortável para ela, no que é mais fácil de vender", conclui. © 2026 Notícias da TV | Proibida a reprodução Resumo de Lá na Minha Terra: Capítulos da novela das seis da Globo - 9 a 14/11 Segunda, 9/11 (Capítulo 1) Lina enfrenta Raimundo Gerardo no sertão. Rosenda pede a Almerindo mais prazo para quitar o aluguel de sua casa. Almerindo admira Rosenda, que sente falta de Severino. Águeda comenta com Brícia sobre o olhar de Almerindo … Continue lendo Mais lidas Política de comentários Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.