Dark room, zoo noturno, show à luz de vela: escuridão vira turismo em SP

admin
31 Dec, 2025
É só uma chuva com vento que a energia cai, e o paulistano já se acostumou a horas no escuro. E parece que pegou gosto: agora até paga para ficar no breu. Jantares com olhos vendados, teatro cego, festas com dark room, concertos à luz de velas, trilhas na mata estão na programação noturna que o "mercado de experiências" oferece atualmente na cidade. Sessões de pintura na penumbra e de conversa nas trevas também entram no chamado "entretenimento imersivo". Instintivamente, a noite é o lugar do perigo para o ser humano, que dominou o fogo e inventou os circuitos elétricos para controlar esse temor. Hoje, pode-se andar no escuro entre rugidos de leões e pumas à espreita no passeio mensal do zoológico das 18h30 às 22h30. Ou encarar outro tipo de fauna "selvagem" na festa trimestral Blecaute na casa de swing Spicy Clube. Teatro no escuro "Ok, produção?", pergunta o diretor. "Ok, foi" é a resposta. Segundos depois vem o grito "Não atira!" e um disparo de arma. O público se agita nas cadeiras. Estamos no Teatro Cego. "A peça tem que ser movimentada para as pessoas não dormirem", brinca o idealizador Luiz Righi. O personagem toma banho, e a produção borrifa fragrância de sabonete nos corredores. Ele janta, e o cheiro de carne é espalhado. Há uma cena de tortura com afogamento, e jorros de água caem sobre a plateia. A única luz é o pontinho vermelho de led da câmera de infravermelho que controla todos os movimentos em uma salinha com monitor fora dali. Há um protocolo de segurança em que a pessoa levanta a mão, e a produção vai até o local e garante a saída imediata, enquanto a cena continua. Depois do medinho inicial de mergulhar na escuridão, o corpo se adapta, e a sensação é de conforto. "Nos apresentamos em vários eventos corporativos para aguçar a percepção e a intuição das pessoas. A principal lição é que nos adaptamos a tudo", sintetiza Righi. A série de sete espetáculos conta com um elenco de 12 atores cegos. Após ficarem em cartaz na cidade, as peças já rodaram o Estado de São Paulo em 2025, participaram do festival de Edimburgo (Escócia) e vão excursionar pelo Brasil no ano de 2026 graças a editais públicos. Sem foto dos pratos Descobrir os ingredientes servidos é o teste principal. Não derrubar comida é outro. E não fazer piadas com a situação insólita também é desafiador. "Peguei a baguete. Quer dizer, acho que é uma", brinca uma comensal para gargalhada geral. "Olha, que fique bem claro que logo vi que você era engraçadinha", dispara outro participante. As risadas voltam quando de repente se escuta uma bandeja cair no chão e todos querem fazer graça. São 40 clientes distribuídos em duas mesas compridas, e quatro garçons cegos servindo. Esse é o Jantar Cego, que acontece no subsolo do hotel Renaissance, nos Jardins, a cada dois meses. A refeição começa com instruções do lado de fora: desligar celulares e relógios digitais. Vestir avental. Não colocar blusas no encosto da cadeira, porque lá está o código braile que identifica se há alguma restrição alimentar e preferências do convidado. As pessoas não são vendadas porque a escuridão é total no salão. Os clientes fazem filas segundo a localização, entram colocando a mão no ombro do outro e atravessam porta e cortina para mergulhar no desconhecido. O couvert e a bebida já estão na mesa, e a entrada também - é só esticar o braço esquerdo e pegá-la no centro da mesa. Há uma distância de mais de um metro entre os participantes, o que evita que alguém se sirva do prato ou copo alheio. Os garçons entregam na sua mão a refeição principal e a sobremesa e não retiram nada - os pratos já usados podem ser empilhados no centro da mesa. A tentação de comer com as mãos para evitar trapalhadas é grande. Como ninguém está vendo, posso abandonar a postura elegante e me inclinar bem sobre o prato para evitar me melecar com os molhos e cremes. A cada etapa do jantar, os garçons fazem um número musical. E no final cantam e dançam usando acessórios neon enquanto são apresentados. Já do lado de fora e no claro, um telão apresenta os pratos. Os clientes ficam felizes que acertaram a maioria dos sabores, desde o patê de gorgonzola até o sorvete de limão. O mais difícil de identificar foi o gosto suave da pupunha e da acelga presentes na salada. Um concorrente nesse nicho é o "Dinning in the Dark", que acontece todas as sextas às 20h no hotel Pullman, na Vila Olímpia. A clientela enche as mesas. Depois de uma contagem regressiva, todos colocam as vendas. Os garçons servem entrada, prato principal e sobremesa. A cada etapa, um mestre de cerimônia pergunta que ingredientes detectaram, e o chef revela seu menu misterioso. Na noite entre feras Desde meados de 2022, o Zoológico de São Paulo promove uma vez por mês passeio focado nos animais notívagos. Uma trilha fosforescente pintada no chão guia o visitante, e há monitores no caminho para contar detalhes desses bichos. O rugido dos leões se escuta ao longe. Um puma se aproxima do vidro atraído movimento humano na penumbra. Uma luz rosa ilumina um bando de flamingos. As aves e os símios já estão dormindo, mas dá para ver as silhuetas gigantes das girafas mastigando - o monitor explica que elas dormem só duas horas por dia. O passeio dura mais ou menos duas horas, e pode ser feito a pé ou em um carrinho elétrico. Cidade dos vagalumes O paredão cinza de São Paulo parece uma miragem emoldurada pela mata. Estamos na Pedra Grande, na serra da Cantareira, agora com gestão privatizada. Com periodicidade quase mensal, há uma caminhada noturna, especialmente indicada para mulheres, afinal, adentrar na mata durante a noite não é o programa mais tranquilo para elas. A saída acontece no Horto Florestal, às 15h30. Chega-se ao mirante para admirar o pôr-do sol. Lá no alto há um café para repor as energias com bolos e potes de açaí - afinal, o trajeto total é de 8 km. A descida é iluminada apenas pelas lanternas. As frestas da floresta cintilam. Não são vagalumes. São as luzes de São Paulo ao fundo. O guia vai na frente vestindo uma perneira, para evitar mordida de cobra. Fora as víboras, não há grandes perigos. O grito assustador do macaco bugio não se escuta mais desde o surto de febre amarela silvestre de 2016 - agora há um programa de repovoamento com a espécie na floresta da Cantareira. O guia pede para todas se sentarem, desligarem as lanternas e fazerem silêncio para escutar a mata por três minutos. Não fosse por isso, as trilheiras continuariam falando de brigas conjugais, fofocas na firma e últimas compras até o final do percurso. Show das velas As 1.200 velas acesas no palco criam o cenário instagramável. Elas duram seis horas seguidas, o que dá três apresentações na sequência. Mas não vá pensando que a cera vai escorrer no final: são velas de led, plástico e metal, carregadas com pilhas e um dispositivo no alto que imita o bruxulear da chama. Locais como a cripta da Catedral da Sé, o mosteiro de São Bento e o teatro São Pedro são os locais ideais para assistir a um concerto Candlelight porque a luz tem efeito redobrado em meio a arquitetura rebuscada. O público, a maioria de meia-idade, faz um silêncio cerimonial durante a apresentação, só interrompido pelos aplausos ao final de cada música. O repertório vai de versões orquestradas de popstar Bruno Mars até clássicos como Mozart e Beethoven. O clima passadista só é quebrado por um pequeno detalhe: na penumbra, os músicos têm de ler as partituras no tablet postado no pedestal diante deles. Apagão na orgia A cada hora, são desligadas as luzes da pista de dança por dez minutos. A trilha sonora fica mais safada. E os casais e solteiros se insinuam e se roçam mais. "A escuridão é a fantasia mais antiga. Você sai do mundo das aparências e libera suas mãos, sua boca e seu corpo todo para outros sentidos", teoriza Andressa Silva, frequentadora da casa de swing Spicy Club e de sua festa Blecaute. Ela e o marido encararam também o dark room . Os dois se trancaram em uma cabine esburacada, se despiram e começaram a interação. A leve penumbra de uma luz negra servia para atrair a curiosidade dos solteiros, que aproveitavam os " glory holes " (buracos da glória) para aproximar os olhos e outras regiões corporais do casal exibicionista. O Spicy Club promove várias festas temáticas para públicos específicos (bis, cornos, exclusivamente mulheres etc ). O diferencial da casa é uma cama de 20 metros quadrados para sediar orgias.