‘Sabedoria é Dedicação’: Leia trecho de novo livro de Ryan Holiday, autor de ‘O Diário Estoico’

admin
31 Dec, 2025
Cortella guarda livros de Paulo Freire e obras clássicas, após doar parte do acervo; veja biblioteca O que sobrou no acervo de Cortella? "Especialmente obras de referência", ele diz; assista. O que é sabedoria? E como alcançá-la em um mundo em um mundo hiperconectado, onde tudo parece surgir e desaparecer em questão de minutos? É isso que se propõe a discutir o ex-publicitário e jornalista americano Ryan Holiday em Sabedoria é Dedicação , livro que conclui uma série de livros sobre as virtudes estoicas. A obra, que chega às livrarias pela Intrínseca em 2 de janeiro, é mais uma em que Holiday usa os ensinamentos do estoicismo e da filosofia antiga para refletir sobre o mundo moderno e como nos comportamos nele. Ele também é autor de O Ego é Seu Inimigo , Disciplina é Destino e do best-seller Diário Estoico , entre outros. Disciplina e estoicismo: Livro sugere caminhos para aprender a ter autocontrole; veja dicas O estoicismo está mais popular do que nunca. Pena que esteja tão incoerente agora; entenda Estoicismo cresce no Brasil com livros que simplificam filosofia e oferecem consolo em mundo caótico Em Sabedoria é Dedicação , Holiday defende a ideia de que a sabedoria é adquirida por meio do esforço, da leitura e da experiência. Ele alerta o leitor contra armadilhas da internet e os perigos da desinformação, cita exemplos como Joan Didion e Maya Angelou, e cita figuras como Elon Musk e Donald Trump. No capítulo abaixo, intitulado Converse com os mortos , Holiday faz um apelo pela importância da leitura. Ele usa a história de Zenão, filósofo pré-socrático, para construir um argumento sobre o que tempo e dinheiro que dedicamos aos livros versus o que dedicamos a outras partes da nossa vida. Confira. Publicidade Karnal: Quais os melhores livros para quem deseja começar na filosofia? PUBLICIDADE Ele tinha chegado da Fenícia. A viagem fora longa, de porto em porto Mediterrâneo afora, negociando corante púrpura, a cor dos mantos usados pelos gregos mais abastados. Naquele dia, porém, Zenão não viajava a negócios. Ao percorrer a Via Sagrada até o Templo de Apolo, sede do Oráculo de Delfos, ele iniciou o ritual sagrado, lavando as mãos na fonte sagrada. Acendeu um incenso. Ao longo do caminho, a luz trêmula das tochas o levava ao santuário interno, onde uma sacerdotisa aguardava sua pergunta. Qual é o segredo de uma vida boa? Publicidade “Serás sábio”, respondeu a sacerdotisa a Zenão, “quando começares a conversar com os mortos”. Foram necessários muitos anos e um terrível acidente para que ele compreendesse essa resposta. Aos 30 anos, Zenão se viu em Atenas, náufrago e sem um tostão no bolso. Passou por um vende dor de livros na ágora e ouviu uma história da vida de Sócrates. De repente, o sentido das palavras da sacerdotisa se revelou * . Já fazia anos que Sócrates estava no túmulo. No entanto, Zenão escutava-o como se o filósofo estivesse vivo. Conversas com os mortos. É isso o que os livros são! Naquela banca de livros, Zenão estava cercado pelos mortos... poetas e filósofos, dramaturgos e contadores de histórias. Naqueles textos, eles apresentavam sua sabedoria e suas experiências, ideias e reflexões. Quando ele pegava um exemplar de Platão ou de Xenofonte, de Eurípedes ou de Homero, de Aristóteles ou de Safo, conseguia ouvi-los... E, de seu punho, ele podia responder nas margens. Publicidade CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE De fato, atualmente nos referimos à leitura e ao estudo dessas obras, muitas das quais compõem o chamado “cânone ocidental”, como a grande conversa. No entanto, a maioria das pessoas opta por não participar dela ou só o faz de vez em quando. O indivíduo médio assiste a cerca de vinte horas de televisão por semana e passa quase cinco horas por dia no celular. Quase ninguém lê tanto assim. Enquanto isso, quando era presidente da França, Charles de Gaulle terminava de dois a três livros por semana e era notório por ler todos os ganhadores dos prêmios literários anuais. No cargo, a chanceler alemã Angela Merkel se dedicava a livros de história de 1.500 páginas sobre o século XIX e mergulhava em Shakespeare. Como secretário de Defesa dos Estados Unidos, o general James Mattis reservava uma hora por dia para “almoço/tempo de leitura”. Antes de ocupar essa posição, chegou a ler os estoicos e centenas de outros livros enquanto atuava em uma guerra. Napoleão levou 125 livros consigo durante a invasão do Egito. Franklin Delano Roosevelt conseguiu ler Mein Kampf [Minha luta] em alemão em 1933, pouco antes de se tornar presidente, em meio a uma crise econômica esmagadora e interminável. Todos nós temos tempo para ler. Publicidade Só não o fazemos o suficiente. Talvez essa seja a coisa mais absurda do mundo. Imagine possuir um superpoder, como ser capaz de falar com os mortos, e não o utilizar! Imagine ser capaz de conversar com as pessoas mais sábias que já viveram, como disse Tolstói, e não aproveitar essa oportunidade! Quando se pensa no alto preço pago pelas sofridas lições pessoais e históricas contidas em tantas biografias, livros de memórias e romances, é quase um insulto o quanto os livros são baratos. Eles não cabem no seu orçamento? Pois são gratuitos nas bibliotecas! Saber ler não importa. Quando não lemos, como disse o general Mattis, escolhemos ser analfabetos funcionais. Publicidade Existem muitos caminhos para a sabedoria, mas quase todos passam pelos livros. É possível conceber uma pessoa verdadeiramente sábia, mas que não lê? Você consegue pensar em algum conhecido seu que leia muito e não deseje poder ler ainda mais? Criado em uma cidadezinha de alguns milhares de habitantes, Harry Truman, que se tornaria presidente dos Estados Unidos, encontrou nos livros não apenas conhecimento como também uma válvula de escape, a capacidade de ir a mundos diferentes e de viajar no tempo. Ele calculava ter lido, na infância, quase todos os livros das duas salas da biblioteca municipal, a começar pela seção infantil. Aos 15 anos, já tinha lido a Bíblia do início ao fim três vezes, assim como “todas as histórias de líderes mundiais e narrativas que pudesse encontrar”. Qual a sua idade de leitura? Não me refiro à faixa etária do seu nível de leitura, e sim quantos anos de vida e experiência você adquiriu por meio da leitura. Truman talvez tenha sido o adolescente mais velho do Missouri. Seu hábito de leitura não apenas o transformou como também o possibilitou viver várias vidas e a absorver as experiências de várias gerações. E não estamos nem falando da ficção, que nos permite explorar outros mundos, outras espécies e fantasias! Publicidade Truman, assim como Montaigne, também foi leitor de Plutarco. Na infância, economizou dinheiro para comprar um livro do grego e implorou ao pai que lesse para ele. Foi a primeira das várias vezes em que Truman explorou as biografi as que Plutarco escreveu sobre os grandes homens e as grandes mulheres da Antiguidade. Uma prática que começou como lazer continuou como um recurso para desenvolver sua carreira. “Quando eu estava na política”, refletiu, “nas vezes em que tentava entender alguém, sempre recorria a Plutarco, e em nove em cada dez vezes eu encontrava um paralelo”. ** Infelizmente, existe muita gente que não foi ensinada como ler, como de fato extrair algo útil dos livros ao nosso alcance. Essas pessoas tampouco foram autorizadas, enquanto leitoras, a deixar de lado as obras ruins, a discordar de um livro ou a mergulhar na toca do coelho do conhecimento a fim de dominar um assunto específico. Como a leitura é uma conversa, os melhores leitores não são passivos. Eles travam uma batalha com os livros, submetem o autor a um julgamento. Fazem perguntas. Retrucam. Não leem apenas de vez em quando, e sim o tempo todo, devorando tanto ficção como não ficção, filosofia e história, memórias e biografias, poesia e prosa. Assim como Montaigne (cujo tão adorado exemplar de Lucrécio sobreviveu com todas as anotações de próprio punho), John Adams, um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos, produziu durante toda a vida aquilo que é conhecido como “marginália”. As páginas de seus livros mostram que ele não era um leitor passivo, nem era fácil convencê-lo de alguma ideia ou algum argumento. “Tolo! Tolo!”, anotava ele. “Bobagem!” Contudo, quando ele gostava de algo, registrava sua concordância, às vezes atribuindo ao autor um merecido “Excelente!”. Em um livro sobre a Revolução Francesa, John Adams escreveu cerca de 12 mil palavras de notas e comentários. Publicidade A leitura pode ser um atalho, mas ainda dá muito trabalho. É um esforço que vale a pena. A sabedoria que Zenão adquiriu por meio da leitura, das experiências e das perdas pessoais, 25 séculos atrás, não apenas salvou sua vida como também constituiu a base do estoicismo, tradição que perdura até hoje. É isso que os livros nos possibilitam: adquirir a baixo custo o conhecimento que custou dor e sofrimento a alguém. Pense em quantas pessoas já viveram antes de você. Pense na imensidão da vida delas, do que disseram, do que ouviram, do que fizeram. Pense nelas sentadas à escrivaninha, lutando para articular suas experiências para os outros. Pense nos historiadores, filósofos e sábios que dedicaram carreiras inteiras a descobrir como e por que certos acontecimentos ocorreram, por que e como indivíduos tomaram decisões cruciais. Pense em todos os livros que leram e destilaram apenas para criar e publicar um único volume. Publicidade Todos eles estão mortos há muito tempo. Porém, continuam ao nosso alcance, aproximando os séculos e rompendo barreiras, viajando através do tempo e do espaço e seu amplo leque de perspectivas. Estão lhe oferecendo a mão para caminhar com você, vida afora. Você vai aceitar essa oferta? Vai escutá-los? O grande fluxo da civilização e da experiência está aí. Vamos participar dele? Vamos beber dessa fonte? Cada um de nós é único, com perspectivas próprias, gostos próprios e experiências próprias. Isso significa que cada livro que lemos provoca um impacto singular sobre nós. Também significa que perdemos conexões e sabedoria cada vez que deixamos de pegar um livro para ler. Levando em conta o conceito de Heráclito, se não tomarmos cuidado, o rio vai passar por nós, e nunca mais será possível voltar nem passar por ele outra vez. Publicidade Você precisa ler. Leia algo novo. Leia algo velho. Releia algo. Publicidade Leia algumas páginas deste ou daquele. Detenha-se ao encontrar um trecho marcante. Leia algo crítico. Leia algo bonito. Leia algo sombrio. Leia algo de que você discorde. Reflita. Leia mais. Repita. Converse com os mortos até você morrer. * Por acaso, a história ouvida por Zenão era sobre a escolha de Hércules, a mesma que abre todos os livros desta série. ** Não apenas Plutarco. Um repórter, em sua pesquisa a respeito da origem de uma declaração de Truman, encontrou na Biblioteca do Congresso um livro que ninguém pegava emprestado havia muitos anos. A última pessoa que o lera? O senador Harry Truman, em 1939.