Trump vira a geopolítica de cabeça para baixo
1 Jan, 2026
Em junho de 2018, quando Donald Trump estava no meio de seu segundo ano no poder, a revista britânica The Economist publicou uma capa na qual o presidente americano aparecia sentado sobre uma bola de demolição —o planeta. Antevia-se que o estilo iconoclasta na política externa não lhe garantiria frutos duradouros, e assim foi. Além de não ser reeleito, naquele primeiro mandato Trump era contido pelos adultos na sala de sua administração, que evitaram danos maiores. Entretanto o fracasso da gestão Joe Biden e o domínio do trumpismo sobre o Partido Republicano criaram condições para um retorno de maior intensidade no recém-encerrado 2025. De volta à Casa Branca, o americano põe em marcha seu plano de desorganização do sistema de regras internacionais vigente desde o pós-guerra, assentado no papel dos Estados Unidos como fiador do equilíbrio global. É fato que tal arranjo nunca funcionou plenamente, como em parte da Guerra Fria ou no manejo da ascensão chinesa, mas ao menos o jogo era claro. Instituições multilaterais apoiadas no poderio dos vencedores da Segunda Guerra Mundial , EUA à frente, mediavam os conflitos. Trump, ciente da obsolescência dessas instituições, corteja autocratas como Vladimir Putin e promove uma nova categoria de isolacionismo —incoerente ao manter o uso desabrido da força alhures, como no Irã . Retrocedeu mais de um século no comércio global e instituiu uma guerra em que tarifas de importação se tornaram meios de combate político, como provam os casos indiano e brasileiro. A volatilidade da política externa segue o caráter mercurial e o ego descomunal do republicano. Assim, tréguas frágeis na Faixa de Gaza foram obtidas na busca de um Nobel da Paz que não veio. Outros conflitos envolveram negociações precárias. Sua obsessão, a paz entre Rússia e Ucrânia , produziu muito calor e pouca luz até aqui. Chama a atenção nesse processo o desengajamento da Europa , que por décadas acostumou-se ao guarda-chuva americano. A mudança no status quo era inevitável, mas também é impensável que uma crise no velho continente não impacte interesses de Washington. A nova Estratégia de Segurança Nacional , por fim, é errática: acena à rival China , apontando latino-americanos como alvo e a Venezuela de cobaia. Que os EUA voltem os olhos para seu quintal é da natureza da geopolítica; que ameacem destituir governos a bel-prazer é só retrocesso. [email protected]