Inviabilidade de SAF e receitas comprometidas: veja os detalhes do acordo entre Corinthians e Caixa
4 Jan, 2026
Nos últimos dias, a Caixa Econômica Federal bloqueou cerca de 50% da premiação de R$ 77.175.000 recebida pelo Corinthians pela conquista da Copa do Brasil . O título foi confirmado com a vitória por 2 a 1 sobre o Vasco , no Maracanã, em partida disputada no dia 21 de dezembro. A retenção ocorreu como parte das garantias financeiras previstas no acordo de renegociação da dívida do clube referente ao financiamento da Neo Química Arena. O contrato foi assinado durante a gestão de Duilio Monteiro Alves, junto à instituição financeira. O Meu Timão teve acesso aos documentos firmados — inicialmente divulgados pelo Blog do Paulinho — e identificou que, além de comprometer receitas provenientes de premiações esportivas, o acordo impõe uma série de outras obrigações financeiras que impactam diretamente o fluxo de caixa e a autonomia do clube. Neo Química Arena, casa do Corinthians desde 2014 Jhony Inacio / Meu Timão Dividido em três documentos complementares e um aditivo, o acordo foi formalizado sob o título de “Aditamento ao Contrato de Financiamento”. O conjunto de documentos tem mais de 400 páginas, tendo sido assinado por Duilio Monteiro Alves, então presidente do Corinthians, e por Wesley Melo, à época diretor financeiro do clube, com aval do departamento jurídico, que era comandado por Herói Vicente. Concluída em 2022, a renegociação do contrato de financiamento da Neo Química Arena formaliza a reestruturação integral da dívida do Corinthians pelo estádio junto à Caixa Econômica Federal e ao BNDES. O documento reconhece que o contrato original, assinado em 2013, estava inadimplente desde 2019, período em que o clube do Parque São Jorge deixou de pagar as parcelas enquanto buscava um novo acordo. O texto, no entanto, afirma que não houve nenhum perdão de dívidas no processo. No financiamento original para a construção do estádio, os bancos concederam crédito de até R$ 400 milhões, limitado a 75% do custo total do projeto. O novo acordo não criou uma dívida nova, mas reorganizou o saldo já existente dentro do contexto da recuperação judicial da Novonor (antiga Odebrecht), estabelecendo um novo arranjo jurídico para viabilizar o pagamento da Arena. A recuperação judicial da construtora, impactada pela Operação Lava Jato, teve reflexos diretos sobre a Neo Química Arena. O cenário criou um impasse na estrutura da dívida, onde o Corinthians era devedor tanto da construtora quanto da Caixa, enquanto a Odebrecht, pressionada por seu próprio endividamento, renegociou os termos do contrato. Nesse processo, a construtora abriu mão da cobrança de juros e encargos e aceitou a troca de parte da dívida por Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento (CIDs), títulos municipais vinculados ao projeto. Esse movimento permitiu ao Timão reestruturar o financiamento do estádio e, gradualmente, assumir 100% da Arena, com o foco da obrigação financeira passando a dever exclusivamente à Caixa, que incluiu a dívida do BNDES dentro deste acordo. Com a renegociação do estádio entre o Corinthians e a Caixa, o saldo devedor passou de R$ 400 milhões para algo em torno de R$ 700 milhões, valor que engloba o principal financiado, juros e encargos acumulados. A partir da assinatura, o financiamento passou a utilizar como base de juros a taxa Selic acrescida de 2% — representando cerca de 18% de encargos ao ano. O pagamento foi estruturado em parcelas trimestrais. Nos dois primeiros anos do novo contrato, em 2023 e 2024, o Corinthians arcou apenas com valores referentes aos juros do período em que deixou de pagar o financiamento, totalizando oito parcelas trimestrais quitadas nesse intervalo, correspondentes aos cinco anos de inadimplência. Desde janeiro de 2025, a amortização do valor principal passou a ser efetivamente iniciada. Pelo contrato com a Caixa, a dívida da Arena é paga em parcelas trimestrais de valor variável, que atualmente giram entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões, a depender da Selic e do saldo devedor atualizado, com vencimentos previstos até dezembro de 2041. No último ano, o Corinthians pagou cerca de R$ 60 milhões, somando as parcelas de março e junho. Entretanto, ainda não há confirmação oficial sobre o pagamento das parcelas de setembro e dezembro. A equipe alvinegra costuma publicar seus saldos com um intervalo de dois a três meses após o encerramento de cada período, em razão de procedimentos e registros contábeis. O balanço divulgado em outubro não detalhou a situação atual da dívida da Arena, e o último dado consolidado, referente a setembro, aponta um saldo de R$ 653,1 milhões junto à Caixa. Há ainda um cronograma de amortização progressiva, que começa em 0,25% em 2025, aumenta gradualmente a cada três anos até atingir 3,50% em 2040 e retorna a 2,0% em 2041, conforme regras definidas no contrato e condicionadas à manutenção das garantias. O clube assume também todos os custos da reestruturação, incluindo taxas administrativas, despesas envolvendo os cartórios e uma tarifa de reestruturação correspondente a 0,5% do saldo devedor. Fachada do Parque São Jorge, a sede social do Corinthians Rodrigo Vessoni / Meu Timão Para se resguardar de novos episódios de inadimplência do Corinthians e reduzir os riscos ao longo do financiamento, a Caixa Econômica Federal estruturou um modelo contratual com uma série de proteções para o pagamento da dívida, combinando garantias sobre receitas, ativos e até aspectos da governança do clube. Um dos efeitos mais relevantes desse acordo é a inviabilidade de transformação do Corinthians em Sociedade Anônima de Futebol (SAF), ou seja, nada de SAFiel ou qualquer outro modelo. Todos os contratos exigem consentimento expresso da Caixa para qualquer alteração societária relevante, mudança de controle institucional ou reorganização que afete, direta ou indiretamente, as garantias oferecidas (bilheteria, valores de parcerias comerciais da Arena, naming rights , premiações esportivas, cotas de transmissão, venda de jogadores, patrocinadores, e a sede social). Como ativos, receitas e patrimônio do clube estão atrelados ao financiamento, uma eventual SAF poderia comprometer essas garantias. Assim, com base no documento, o clube fica limitado a avançar nesse modelo de Sociedade Anônima de Futebol enquanto a dívida do estádio permanecer ativa, ou seja, até 2041. O mesmo raciocínio se aplica à recuperação judicial. Os documentos classificam a decretação de recuperação judicial ou extrajudicial como evento de inadimplência grave. Nesse cenário, a Caixa pode antecipar pagamentos, executar garantias e intensificar a retenção de receitas, tornando a recuperação judicial uma alternativa pouco viável para o clube. Os contratos também contam com mecanismos de intervenção financeira indireta. Por meio do acordo de administração de contas, a Caixa passaria a gerir o fluxo das principais receitas do clube e da Arena em contas vinculadas. Em caso de descumprimento, o banco pode bloquear contas, reter integralmente os valores arrecadados e direcionar os recursos diretamente ao pagamento da dívida, reduzindo de forma significativa a autonomia financeira do Corinthians. Ángel Romero levanta troféu da Copa do Brasil Danilo Fernandes / Meu Timão Outra frente relevante é a cessão fiduciária, onde o clube cedeu a totalidade das receitas esportivas como garantia. O Corinthians disponibilizou à Caixa os recebimentos de bonificações, créditos e rendimentos pagos pela Conmebol e pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), incluindo premiações por participação e desempenho em competições nacionais e internacionais, bônus, cotas, repasses extraordinários e qualquer outro crédito devido ao clube, independentemente da competição ou da fase alcançada. Na prática, essas premiações deixaram de ingressar livremente no caixa do Corinthians e passaram a depender do aval da instituição financeira. Esse mecanismo pode ter resultado no bloqueio de cerca de 50% dos R$ 77.175.000 recebidos pelo título da Copa do Brasil de 2025. Assim que os valores são pagos pelas entidades organizadoras, os recursos são direcionados para contas vinculadas administradas pela Caixa Econômica Federal, conforme previsto no contrato. A partir desse momento, o banco tem prioridade sobre os valores para o pagamento da dívida da Neo Química Arena. Apenas em caso de sobra — e desde que o clube esteja integralmente adimplente — parte dos recursos financeiros pode ser liberada ao Corinthians. Os documentos também deixam claro que, em situações de atraso, inadimplência ou risco ao cumprimento do contrato, a Caixa pode reter integralmente essas receitas, sem necessidade de autorização do Timão. Assim, mesmo valores provenientes de campanhas esportivas bem-sucedidas podem ser automaticamente direcionados para cobrir obrigações financeiras do estádio. O mesmo modelo se aplica às receitas com a venda ou transferência de jogadores do futebol masculino. A cessão abrange negociações diretas, mecanismo de solidariedade da Fifa, compensações por formação e valores acessórios, independentemente da idade do atleta ou do tipo de operação. Outro ponto sensível do acordo é a cessão das receitas de transmissão dos jogos do Corinthians, em qualquer plataforma, seja televisão aberta, fechada, pay-per-view ou streaming . Esses valores também podem ser direcionados automaticamente às contas administradas pela Caixa Econômica Federal, com prioridade para o pagamento da dívida da Arena. Em janeiro de 2024, o clube do Parque São Jorge firmou um contrato de cinco anos com a Liga Forte União (LFU) para os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. O acordo é válido de 2025 a 2029 e projeta repasses totais que podem chegar até R$ 1,5 bilhão ao clube ao longo do período. O montante engloba tanto uma parcela fixa quanto valores variáveis, atrelados a critérios como desempenho esportivo e audiência, conforme previsto no contrato. Dentro do atual modelo de garantias, porém, essas receitas também ficam sujeitas às regras de retenção estabelecidas no financiamento da Neo Química Arena, reduzindo a autonomia do clube sobre parte relevante desse fluxo financeiro. Ginásio Wlamir Marques na partida entre Corinthians e Vasco no NBB Beto Miller / Agência Corinthians Entre as principais garantias estabelecidas no acordo está a cessão das ações da sociedade responsável pela Arena, autorizando a Caixa Econômica Federal a assumir o controle da estrutura do estádio em caso de inadimplência. Além disso, receitas presentes e futuras da Neo Química Arena foram vinculadas diretamente ao pagamento da dívida. Esses valores são direcionados automaticamente às contas administradas pela Caixa para pagamento da dívida do estádio. Nesse pacote estão incluídas a bilheteria, considerando a seguinte forma: O pacote contempla também contratos comerciais e o acordo de naming rights firmado com a Hypera Pharma em 2020, válido até dezembro de 2040 e com repasse anual em torno de R$ 15 milhões, corrigidos pela inflação . A arrecadação vai além do estádio, outras bilheterias seguem a mesma lógica e abrange não apenas o futebol masculino profissional, mas também outras modalidades, como o futebol feminino, base e basquete, realizados na Neo Química Arena, no Parque São Jorge ou em qualquer outro local. Todos esses recursos são obrigatoriamente direcionados a contas específicas controladas pela Caixa, que retém automaticamente os montantes necessários para o pagamento de juros, amortização do principal e recomposição de uma conta reserva criada para assegurar a regularidade das parcelas. O acordo também exige a manutenção de um saldo mínimo nessa conta reserva. Caso o patamar estipulado não seja atingido, a Caixa pode aumentar o percentual de retenção das receitas gerais até que o nível exigido seja restabelecido. Apenas o excedente, após o cumprimento dessas obrigações, pode ser liberado ao clube. Como garantias adicionais, o contrato prevê ainda a emissão de notas promissórias no valor de R$ 100 milhões cada, que projetam o principal e os juros até a quitação final, além de uma nota promissória única de R$ 48,5 milhões. Também está prevista como garantia a penhora do Parque São Jorge, abrangendo todos os imóveis da sede social do Corinthians. Duilio, presidente do Corinthians, e Carlos Vieira, presidente da Caixa, na Neo Química Arena Rubens Machado / Corinthians Para além das garantias, o contrato impõe ao Corinthians um conjunto de obrigações rígidas que vão muito além do pagamento das parcelas da dívida. O acordo transfere à Caixa Econômica Federal o controle operacional e financeiro da Neo Química Arena e de uma parcela relevante das receitas do clube, estabelecendo um regime de acompanhamento até o fim do financiamento, previsto para dezembro de 2041. Além da bilheteria, o contrato determina que, caso as receitas provenientes dos jogos e do naming rights não sejam suficientes para cobrir as parcelas do financiamento, o Corinthians deve complementar a diferença com outras fontes de receita do clube. Sendo assim, não há margem para atraso, qualquer ausência de pagamento precisa ser coberta imediatamente, sob risco de descumprimento contratual, fazendo com que a Caixa Econômica Federal fique com o estádio. O controle da Caixa se estende às demais entradas de recursos. O clube é obrigado a comunicar ao banco, com pelo menos três dias de antecedência, todas as operações relevantes, como vendas de jogadores, recebimentos de direitos de transmissão, novos patrocínios ou até inadimplências sofridas nessas negociações. No campo das receitas, o acordo estabelece percentuais fixos de retenção financeira para a formação de uma “conta de segurança”. Durante o período de capitalização de recursos para essa conta, metade de todas as premiações esportivas recebidas pelo Corinthians deve ser destinada à Caixa Econômica Federal. Além disso, 30% dos valores obtidos em negociações de atletas são automaticamente direcionados à instituição financeira. Esses recursos abastecem uma conta vinculada que precisa manter, de forma permanente, um saldo mínimo equivalente ao pagamento de quatro parcelas trimestrais do financiamento — valor que varia entre R$ 80 milhões e R$ 120 milhões, a depender do nível da taxa de juros. Trata-se de uma reserva correspondente a aproximadamente um ano inteiro de amortização da dívida. Caso esse patamar mínimo não seja atingido, o complemento ocorre de maneira automática, por meio da retenção de receitas de direitos de transmissão ou de outras fontes do clube. O contrato é explícito ao estabelecer que, em nenhuma hipótese, o saldo dessa conta pode ficar abaixo do nível acordado. O descumprimento dessa exigência configura quebra contratual por insuficiência de garantias. O acordo também impõe restrições institucionais relevantes. O Corinthians fica impedido de alterar a estrutura societária vinculada à Arena ou de promover cisões, incorporações e reorganizações enquanto o financiamento estiver em vigor. A cláusula inviabiliza, por exemplo, projetos de venda de cotas da Arena para investidores ou torcedores — proposta defendida na gestão de Duilio Monteiro Alves e que chegou a ser cogitada por Pedro Silveira e Rozallah Santoro, ex-diretores financeiros na gestão de Augusto Melo. Visão da arquibancada Sul da Neo Química Arena Wanderson Oliveira / Meu Timão Outro ponto relevante do acordo de reestruturação da dívida da Arena foi a entrada da REAG Investimentos na estrutura do Fundo Arena. A gestora passou a administrar o fundo responsável por concentrar e organizar parte dos fluxos financeiros vinculados ao estádio, dentro do modelo criado após a renegociação com a Caixa Econômica Federal. A mudança integrou o redesenho operacional do acordo, com o objetivo de dar maior previsibilidade e governança à gestão dos recebíveis da Arena. Com a REAG à frente do Fundo Arena, a estrutura passou a contar com um gestor profissional para acompanhar o fluxo de receitas, o cumprimento das obrigações contratuais e a manutenção das garantias exigidas pelos credores. Ele funciona como elo entre as receitas do estádio e os compromissos financeiros do financiamento, impedindo que os valores transitem livremente pelo caixa do clube até a quitação integral da dívida. Em agosto de 2025, porém, a REAG tornou-se alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), com apoio da Receita Federal do Brasil e da Polícia Federal. A investigação apura um esquema bilionário de lavagem de dinheiro ligado ao PCC no setor de combustíveis, com estimativa de movimentação superior a R$ 52 bilhões, e aponta o uso de fundos de investimento para ocultação de patrimônio. Diante desse contexto, em outubro, segundo a Rádio Craque Neto , o Corinthians iniciou tratativas para retirar a REAG da administração contábil da Arena. A eventual substituição depende do aval da Caixa e da análise da proposta apresentada por outra empresa interessada. Veja mais em: Neo Química Arena , Dívida do Corinthians , Diretoria do Corinthians e Duílio Monteiro Alves .