Antes Fadinha, Rayssa Leal faz 18 anos já com status de rainha do skate
4 Jan, 2026
‘Dar visibilidade às atletas brasileiras é fundamental’, alerta Rayssa Leal À coluna, a atleta avalia a presença feminina no esporte e o desejo de conquistar o tetracampeonato no Street League Skateboarding. Crédito: Reprodução/Instagram SLS Brasil O tempo passou na velocidade com que o skate deu uma volta completa no ar fazendo com que as rodinhas ficassem para cima e caíssem na posição normal com um simples toque de calcanhar. Aquele heelflip transformou a menina vestida de Fadinha, em Imperatriz, no interior do Maranhão, na multicampeã Rayssa Leal . A atleta, que hoje completa 18 anos, virou uma estrela, conquistou o mundo antes da maioridade e quer ainda mais. PUBLICIDADE Quem viu Rayssa aos 7 anos, lá em 2013, com uma fantasia de Sininho que a avó havia feito pode nem se dar conta que essa mesma jovem hoje acumula duas medalhas olímpicas (prata em Tóquio 2020 e bronze em Paris 2024), é bicampeã do X-Games (2022 e 2023), do Mundial (2022 e 2024) e tetra da Street League Skateboarding (2022, 2023, 2024 e 2025). Mais do que isso, o barato dela é inspirar outras atletas enquanto vai empilhando troféus. “Sou só o peão porque todas as peças ficam atrás. Tenho um time maravilhoso, que cuida de tudo para mim e, quando chego dentro da pista, só preciso andar de skate. Andar de skate é o que sei fazer de melhor. Fico muito feliz com tudo que venho conquistado”, disse Rayssa após o tetra no início de dezembro, em São Paulo, diante de um ginásio do Ibirapuera com quase 10 mil pessoas nas arquibancadas. A imagem da menina na Calçadaria da Terra, conhecido ponto de encontro de skatistas em Imperatriz, sua cidade de 273 mil habitantes a 665 km da capital São Luís pela BR-222, viralizou depois que a lenda do skate Tony Hawk postou nas redes sociais o vídeo da manobra. “Não sei nada sobre isso aqui, mas amei: uma fada dando um heelflip ”, escreveu o homem que dá nome ao game mais famosos de skate e, neste ano, convidou a sua afilhada para ter a própria personagem. Publicidade Os dois se encontraram muitas vezes. Sempre com o olhar especial de um para o outro. O americano dez vezes medalhista de ouro na Olimpíada dos esportes radicais, então com 53 anos, chegou a descer da cabine de TV em que trabalhava como comentarista e invadir a pista para tietar a menina de 13. O “Toninho”, jeito abrasileirado do apelido Tony, carregado no sotaque nordestino, cativou ainda mais a lenda que ajudou a popularizar o esporte nos anos de 1990. Rayssa tinha o apoio dos grandes e da mãe mesmo na Vila Olímpica. Lilian Mendes conseguiu uma autorização especial para acompanhar a filha em Tóquio 2020, o que não pôde acontecer três anos mais tarde, em Paris 2024, e já não será mais preciso daqui em diante. As caronas de carro também ficarão no passado. “Sou o peão das peças que ficam atrás. Um time maravilhoso que cuida de tudo para mim porque andar de skate é o que sei fazer de melhor” Rayssa Leal Rayssa quer aproveitar o período de férias dos campeonatos para tirar logo a carteira de motorista em sua cidade. Nos estudos, a agora formada no Ensino Médio fez caras e bocas para vestir a beca e se divertiu com uma questão que mencionava ela própria no Enem deste ano — ela não respondeu à sua questão porque estava competindo no STU Pro Tour, no Rio. O corpo naturalmente vai ganhando alterações. Maior, agora com 1,61 m, e com mais massa muscular, Rayssa suporta com mais facilidade o ritmo da competição, chegando inteira para o momento das manobras únicas como são definidos a maioria dos campeonatos. Outra benesse de atingir a maioridade é poder competir sem o capacete, como estabelece uma regra da World Skate. O acessório não é exatamente benquisto pelos atletas. Publicidade Adversárias, mas amigas, demais competidoras já falam de Rayssa como alguém de muita experiência nas competições. Duda Ribeiro, de 15 anos, começa a ganhar destaque no cenário nacional e a fazer parte da seleção brasileira. A atleta de Maricá, na região metropolitana do Rio, competiu no SLS e atestou a convivência com a sua referência. “Tudo aqui vale para ganhar experiência. Quero aprender tudo o tempo todo para um dia estar entre as melhores”, disse. “Eu me inspiro muito na Rayssa porque ela é a rainha do skate hoje”, completou Funa Nakayama, de 20 anos, bronze em Tóquio. Rayssa entrou para a competição abalada por ter sentido uma lesão no tornozelo direito ainda nos treinos. Trabalhos de respiração, concentração, além dos fisioterápicos, claro, ajudaram a atleta a se manter calma como na cena em que viralizou antes de executar uma manobra durante uma competição quando repetia para si mesma: “Eu vou lá e só flip . É só isso. Está tudo bem. Eu já treinei isso. Eu já fiz isso. Você é f...”. Na decisão, ela se manteve fria, executou a melhor estratégia e foi tecnicamente perfeita, ficando à frente das japonesas Coco Yoshizawa e Yumeda Oda . PUBLICIDADE “Sei que hoje em dia, não preciso provar nada para ninguém, tenho diversos títulos, mas queria muito ganhar esse campeonato. Estava muito focada para isso”, disse a atleta, que deixará em segundo plano um projeto de livro para o público infanto-juvenil e vem recusando convites de produções de documentários para diferentes streamings . O tetra de Rayssa na SLS foi embalado pela música Arriadin’ por Tu , nas vozes de J oão Gomes , Mestrinho e Jota.Pê , presentes no álbum Dominguinho. Ela posicionou a música prontamente no refrão para a sintonia perfeita skate, corpo e mente. Virou a trilha sonora perfeita dos fones de ouvido daquela que “brilha mais que uma constelação”.