Artistas do Grande ABC transformam as vias públicas em holofotes culturais

admin
4 Jan, 2026
Entre barulhos, buzinas e um mar cinza, surgem pontos coloridos e sorridentes nas ruas da região, trazendo alegria para as vias. Apesar dos inúmeros desafios no caminho, como falta de investimento, desrespeito e até mesmo a questão climática, os artistas de rua fazem do espaço público seus palcos. Esse é o caso do são-bernardense Kauan Sartori, 31 anos, e da moradora andreense Mariana de Moraes, 29, uma dupla de palhaços que fazem apresentações de comédia e de malabarismo nas intermediações do Grande ABC, principalmente na Avenida Dom Pedro II e na Rua Oliveira Lima. Quem olha de longe já consegue perceber a ideia dos artistas: trazer leveza em meio ao caos metropolitano. Perucas, macacões rosa, sapatos gigantes e, claro, a velha e clássica maquiagem de palhaço, são os principais adereços de Sartori e Mariana. Antes do sinal verde, eles passam em cada veículo em busca de uma janela aberta com seu bom amigo em mãos: o chapéu. Em meio às brincadeiras, falas engraçadas com uma pitada de ironia e cumprimentos, uma moedinha acaba conquistada. E se não houver como ajudar no dinheiro, os artistas tentam arrancar a peça principal para um palhaço: um sorriso. “Faço teatro desde criança e, aos 17 anos, me formei em palhaçaria. Fiz todos os cursos que eu podia e hoje sou formador do Programa de Palhaços para Jovens da Escola dos Doutores da Alegria e também em outros grupos. A nossa filosofia, tanto minha como da Mari, é pesquisar a arte nas maiores possibilidades”, disse. Diante desse estudo, desde 2018 o artista começou a rodar os faróis da região. “Trabalho também na A Esperada Companhia. E hoje estamos bastante voltados para o trabalho na rua, queremos entender o formato, relação com o público e também pensamos em um adicional financeiro”, complementou Sartori. Além dos malabares, a dupla realiza apresentações musicais com sanfona. Na rua, a carga horária deles varia de dois a três dias de trabalho por semana. Em média, eles arrecadam de R$ 50 a 70 em duas a três horas, mas afirmam que isso depende dos pontos e também dos espaços. Por exemplo, em um parque ou praça há chance de uma remuneração melhor. Apesar do estigma, Sartori comenta que nem todas as pessoas buscam as vias por necessidade. “Acho fundamental a existência de artistas de rua, porque é um espaço de democratização da cultura. A pessoa, quando paga, financia o artista diretamente, sem passar por uma empresa. Entendo o espaço como uma vida digna, de conseguir ser remunerado e se aprofundar na pesquisa. Não é muito, mas acaba fazendo a diferença no fim do mês”, comentou. Mas, no dia a dia, os palhaços enfrentam alguns percalços até chegarem ao local do show. Para eles, o principal problema é a locomoção, visto que os instrumentos musicais ocupam um espaço grande em um coletivo, além da questão climática, quando chove as apresentações ficam pendentes. LEIA TAMBÉM: Personagens da Carreta Explosão animam a região SOM DA CALMA Às 7h, o músico de Santo André, Sérgio Coelho, 60, começa seu sábado rumo à Rua Oliveira Lima, no Centro. Antes da apresentação, o artista toma um café reforçado, formado de leite de soja, açúcar mascavo, chocolate em pó puro e uma pequena panqueca com objetivo de suportar três horas de apresentação no calçadão. Carregando sua flauta transversal e equipamentos de som, Coelho procura um bom local com sombra e ali começa sua arte, que traz uma calmaria em meio ao caos. Apesar de tocar cerca de 20 minutos até as 11h, o artista comentou que ainda não consegue arrecadar muito dinheiro. “Sou músico há 30 anos, toquei em bandas municipais. Mas eu ainda não tenho essa habilidade de arrecadar na rua. Não tenho faixa, não tenho placa, não tenho cartaz. Por enquanto, são mais apresentações de caráter filantrópico. O povo às vezes passa e coloca uma moedinha ou uma nota de R$ 2 na bolsa. Por dia, ganho cerca de R$ 10.” Além de Santo André, o artista faz outras apresentações pelo Grande ABC, como em São Bernardo, Mauá e Ribeirão Pires. Para ele, tocar na rua não é para arrecadar dinheiro e sim para levar cultura e também aprender ainda mais o instrumento. O artista também faz vídeos para a internet e se apresenta em eventos privados. Para o flautista, o instrumento trouxe paz e o auxiliou no tratamento da ansiedade.