Ataque dos EUA à Venezuela desafia diplomacia de Lula em ano eleitoral
4 Jan, 2026
A ação dos Estados Unidos na Venezuela impõe desafios à diplomacia do governo Lula (PT) em ano eleitoral. O presidente brasileiro, que busca a reeleição em 2026, terá de se equilibrar entre a defesa da soberania venezuelana e a manutenção da relação com o governo de Donald Trump. O que aconteceu Crise entre EUA e Venezuela deixa Lula em posição delicada. O presidente tem se aproximado de Trump e conseguiu negociar a retirada da maioria das sanções contra o país, incluindo o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros e a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes. Lula condenou bombardeio em Caracas e captura de Nicolás Maduro. O presidente disse que a ação representa "uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional." No entanto, evitou críticas diretas a Trump. Situação exigirá muita habilidade diplomática do governo, avalia Marsílea Gombata. Professora de relações internacionais na FAAP, ela afirma que o Brasil terá de agir de forma estratégica para não fechar os canais de diálogo com os EUA. Ao mesmo tempo, o país deve ficar em uma corda bamba, tentando se impor como a maior economia da América Latina, sem abrir mão da tradição diplomática de mediação, não interferência e defesa da soberania. Tema deve ter impacto eleitoral. Na campanha de 2022, bolsonaristas tacharam Lula como defensor de Maduro e da ditadura venezuelana. "O Brasil deve apoiar a soberania e autonomia venezuelana, mas com muita cautela, porque esse é um assunto que dá munição e combustível à oposição", afirma Regiane Bressan, professora de relações internacionais na Unifesp. "Lula paga um preço pelo alinhamento ideológico que tem com a Venezuela", diz cientista político. Para Leandro Consentino, professor do Insper, o petista não costuma ser firme ao condenar a postura de líderes de esquerda como Maduro. O desafio do presidente brasileiro, afirma o professor, é criticar os ataques à Venezuela sem passar a imagem de que é condescendente com uma ditadura. Lula viu sua popularidade cair nas vezes em que falou sobre o tema. Em 2024, pesquisas de opinião apontaram que a avaliação de Lula foi impactada negativamente após ele afirmar que existia democracia na Venezuela, por exemplo. Nos últimos meses, o presidente calibrou o discurso —ele não reconheceu o resultado das últimas eleições e cobrou Maduro por mais transparência. "Essa situação gera um ambiente de cautela para o governo", diz Denilde Holzhacker, cientista política e professora de relações internacionais da ESPM . "Nos últimos meses, o governo Lula tentou se distanciar do Maduro exatamente porque sabe que esse tem um impacto eleitoral interno e mobiliza a opinião pública", opina. Lula não pode se arriscar muito, tem que levar em conta o cálculo político, mas não pode deixar de se posicionar —seria um grande erro, levando em conta o histórico da diplomacia brasileira. Marsílea Gombata, professora de relações internacionais na FAAP Próximos passos Reação do Brasil dependerá da transição na Venezuela. Para os especialistas ouvidos pelo UOL , ainda há muitas incertezas sobre a reação interna no país. Ainda não há definição sobre quem vai assumir o comando após a queda de Maduro e por quanto tempo o país ficará sob intervenção do governo americano. Neste momento ainda há muitas incertezas sobre como vai ser a reação interna na Venezuela, se os grupos de apoio a Maduro vão se posicionar, como os americanos vão fazer esse processo de intervenção. Tudo isso vai ditar o caminho e quais vão ser as ações não só do Brasil, mas de todos os países da região que já se posicionaram contrários . Denilde Holzhacker, cientista política e professora de relações internacionais da ESPM Governo fez duas reuniões de emergência ontem. Lula, que está no Rio de Janeiro, participou por videoconferência. Após a discussão, o governo brasileiro disse que considera que a vice-presidente, Delcy Rodríguez, está no comando da Venezuela na ausência de Maduro. Brasil vai participar de reunião do Conselho de Segurança da ONU. O encontro acontece na segunda-feira, quando o Brasil vai reiterar sua posição a favor da soberania da Venezuela. Só então deve acontecer também algum contato com o governo dos EUA, segundo a diplomata Maria Laura da Rocha, secretária-geral do Ministério das Relações Exteriores.