O que se sabe e o que ainda falta esclarecer após a captura de Maduro?
4 Jan, 2026
Após os ataques na Venezuela e a captura de Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos , ainda restam questões a serem esclarecidas sobre a ofensiva norte-americana e seus efeitos locais e globais. O que se sabe até aqui? O presidente venezuelano e sua esposa chegaram a Nova York na tarde de hoje, após serem capturados em solo venezuelano pelos EUA na madrugada de ontem para hoje. Maduro e Cilia Flores, que haviam sido colocados em um navio da Marinha norte-americana , chegaram à cidade nova-iorquina de avião. A aeronave pousou por volta das 16h30 locais (18h30 no horário de Brasília) no Aeroporto Internacional Stewart e Maduro desembarcou encapuzado e algemado sob forte escolta policial . A expectativa é que o casal seja entregue às autoridades federais. Na sequência, eles devem ser transferidos para o Centro de Detenção Metropolitano de Brooklyn. Ambos devem ser apresentados perante um juiz em um tribunal federal de Manhattan na próxima semana, de acordo com a CBS News. Maduro, esposa e outros aliados do presidente venezuelano são acusados por autoridades dos EUA de "narcoterrorismo" . Especialistas em política externa ouvidos pelo UOL , porém, avaliam que a ação do governo Trump mira o afastamento de Maduro do país com foco em suas reservas de petróleo — versão também defendida por autoridades venezuelanas aliadas do presidente. Durante os ataques, mais de 150 aeronaves norte-americanas foram mobilizadas e bombardeios miraram instalações militares venezuelanas. Explosões seguidas de colunas de fumaça e incêndios tiveram como alvo o Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, sede do Ministério da Defesa e da Academia Militar. O local abriga não apenas instalações militares, mas também áreas residenciais urbanas para tropas, onde vivem milhares de famílias. Outros bombardeios foram ouvidos perto do complexo aeronáutico La Carlota, um aeroporto militar e privado, no leste de Caracas, e diferentes regiões no oeste do país. Ministro da Defesa venezuelano, general Vladimir Padrino López, acusou o Exército dos EUA de atacar "com mísseis e foguetes disparados de helicópteros contra zonas residenciais habitadas por civis". Na outra ponta, Donald Trump manifestou, em declarações à Fox News, satisfação por nenhum soldado americano ter perdido a vida na operação. Trump afirmou hoje que os EUA vão governar a Venezuela após a captura de Maduro. O republicano disse que tropas dos EUA ficarão na Venezuela enquanto um novo governo não for constituído. "Vamos governar o país até que uma transição adequada possa ocorrer", disse, chamando Maduro de ditador. Republicano também afirmou que empresas norte-americanas vão entrar no país para comandar setor petroleiro. "Eles não estavam bombeando quase nada [de petróleo], em comparação ao que poderiam bombear. Vamos levar nossas maiores companhias de petróleo dos EUA. Elas vão entrar, gastarão bilhões de dólares, vão consertar a infraestrutura do petróleo e começarão a fazer dinheiro para o país", disse. O que ainda falta esclarecer? Ministro das Relações Exteriores da Venezuela falou em mortos, mas autoridades do país ainda não divulgaram balanço de vítimas. Já segundo o New York Times, os ataques dos EUA resultaram em ao menos 40 pessoas mortas . "Sabe, muitos cubanos perderam a vida ontem à noite. Você sabia disso?", afirmou Trump ao jornal norte-americano, sem informar um número. Trump não deu detalhes sobre como será governo sob comando dos EUA na Venezuela e por quanto tempo governaria o país sul-americano. Disse apenas que "um grupo" será responsável pela administração local. "Estamos designando pessoas neste momento [para o governo]. Vamos deixar vocês a par", afirmou em pronunciamento. Estamos lá agora e ficaremos até o momento em que uma transição apropriada aconteça. Vamos ficar até lá. Vamos governar o país, essencialmente, até que uma transição apropriada possa acontecer. Donald Trump, em pronunciamento após prisão de Maduro Também não se sabe ao certo como se dará investimento de empresas petroleiras dos EUA em território venezuelano. Também sem entrar em detalhes sobre o assunto, Trump afirmou, mais de uma vez, que a Venezuela fará "muito dinheiro" com o petróleo administrado por companhias norte-americanas, que irão "reconstruir a infraestrutura [venezuelana] do petróleo". Ainda segundo ele, a reconstrução vai custar bilhões de dólares, que seriam pagos diretamente pelas companhias — posteriormente "reembolsadas" por isso. Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, considerou ações dos EUA como "precedente perigoso", mas Conselho de Segurança da ONU ainda não se manifestou. O grupo, composto pelos membros permanentes China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos — além de Portugal, Alemanha, Índia, África do Sul, Colômbia (representante sul-americana), Marrocos, Paquistão, Guatemala, Azerbeijão e Togo —, irá se reunir na próxima segunda-feira (5) para discutir eventuais respostas ao governo Trump . Medidas a serem tomadas pelo Conselho de Segurança da ONU ainda são incertas. O órgão tem entre as suas atribuições desde "instar partes em disputa a resolvê-la por meios pacíficos" até a "imposição de sanções" ou autorização do "uso da força para manter ou restaurar a paz e a segurança internacionais". Também não sabe ao certo se Rússia e China, aliadas de peso da Venezuela, adotarão ações concretas em repúdio às ações norte-americanas. Diante dos ataques de hoje, por enquanto, as diplomacias russas e chinesas apenas ofereceram aos EUA suas condenações públicas . Governo Lula entendeu há ao menos algumas semanas que os venezuelanos estavam "por conta própria", segundo apurado por colunista do UOL. "Mesmo que a China use a situação da Venezuela para fustigar os EUA (com comunicados sobre desrespeito ao direito internacional), não os vejo atuando em defesa da Venezuela diante da prioridade deles que é Taiwan. E eu não acho que a Rússia vai optar por defender a Venezuela em detrimento de seus interesses na Ucrânia, estão em boa posição com os americanos lá e o Putin não vai querer alienar isso", afirmou reservadamente um alto funcionário do Planalto dois dias antes do Natal, à coluna de Mariana Sanches . Brasil, que condenou ataques dos EUA, participará da reunião do Conselho de Segurança da ONU, mas confronto direto com governo Trump ainda é incerto. Segundo a diplomata Maria Laura da Rocha, que está interinamente à frente do Ministério das Relações Exteriores, o governo brasileiro vai reiterar sua posição a favor da soberania da Venezuela. Só então deve acontecer também algum contato com o governo dos EUA. Com AFP*